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Síndrome do não arrotar: entenda condição que causa gases, estufamento e desconforto no peito

Pouco conhecida, a condição dificulta a eliminação de ar pela boca e pode provocar sintomas confundidos com problemas digestivos; entenda as causas e o tratamento

1 nov 2026 - 16h07
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Resumo
A disfunção cricofaríngea retrógrada (R-CPD), conhecida como síndrome do não arrotar, ocorre quando o músculo cricofaríngeo não relaxa para expelir o ar, gerando estufamento, gases, ruídos na garganta e dor no peito. Frequentemente confundida com refluxo, a condição pode ser agravada por canetas emagrecedoras. O diagnóstico é clínico e o tratamento principal envolve a aplicação de toxina botulínica no esôfago para relaxar a válvula muscular, proporcionando alívio a longo prazo para muitos pacientes.

Arrotar pode ser considerado falta de educação em determinadas situações. Mas a verdade é que esse processo desempenha uma função importante no organismo. É por meio dele que parte do ar acumulado no estômago consegue ser eliminada, ajudando a aliviar a sensação de pressão e desconforto abdominal. Entretanto, algumas pessoas simplesmente não conseguem arrotar, mesmo quando sentem necessidade.

Síndrome do não arrotar pode causar estufamento, gases e pressão no peito; entenda os sintomas, causas e como funciona o tratamento com botox
Síndrome do não arrotar pode causar estufamento, gases e pressão no peito; entenda os sintomas, causas e como funciona o tratamento com botox
Foto: Reprodução: nicoletaionescu/Getty Images Signature / Bons Fluidos

O problema tem nome: disfunção cricofaríngea retrógrada (R-CPD), popularmente chamada de síndrome do não arrotar. Embora ainda seja pouco conhecida, a condição pode provocar sintomas como barriga inchada, excesso de gases, pressão no peito e ruídos semelhantes a borbulhas na região da garganta.

A síndrome passou a receber maior atenção da comunidade médica a partir de 2019, quando um estudo publicado na revista científica OTO Open descreveu suas características e possibilidades de tratamento. Desde então, especialistas têm buscado ampliar o reconhecimento do problema, que muitas vezes pode ser confundido com outras alterações gastrointestinais.

O que é a síndrome do não arrotar e por que ela acontece?

Para entender a condição, primeiro é importante conhecer o funcionamento do esôfago, órgão responsável por conduzir os alimentos da garganta até o estômago. Na parte superior dessa estrutura existe um conjunto de músculos que controla a passagem de alimentos e líquidos. Entre eles está o músculo cricofaríngeo, que funciona como uma espécie de válvula.

Durante a alimentação, essa musculatura relaxa para permitir que a comida siga em direção ao estômago. Entretanto, também precisa se abrir em determinados momentos para que o ar acumulado consiga retornar pela boca.

Nas pessoas com R-CPD, o músculo não relaxa adequadamente quando o gás tenta subir, impedindo que o arroto aconteça. Em entrevista à revista Galileu, o otorrinolaringologista Guilherme Catani, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), explicou esse mecanismo: "Só que esse músculo que abre para a passagem do alimento precisa relaxar em alguns momentos para que os gases ingeridos em refrigerantes, por exemplo, ou produzidos no próprio corpo, consigam sair. É como uma válvula de escape".

Segundo o especialista, a síndrome provavelmente existe há muito tempo, mas começou a ser reconhecida de maneira mais específica apenas nos últimos anos. Antes disso, muitos pacientes recebiam outras hipóteses diagnósticas, como refluxo ou intolerâncias alimentares.

Quais são os sintomas da síndrome do não arrotar?

A incapacidade persistente de arrotar é a principal característica da condição. No entanto, o acúmulo de ar também pode provocar manifestações que interferem no bem-estar e na rotina. Entre os sintomas mais relatados, estão:

  • Estufamento abdominal: sensação de barriga inchada, especialmente depois das refeições;
  • Pressão no peito: desconforto relacionado ao acúmulo de ar no esôfago;
  • Ruídos na garganta: sons semelhantes a borbulhas ou pequenos roncos, provocados pela movimentação do gás;
  • Excesso de flatulência: como o ar não consegue sair pela boca, parte dele segue pelo sistema digestivo e pode ser eliminada pelo intestino;
  • Desconforto após comer ou beber: os sintomas podem se intensificar depois de refeições ou do consumo de bebidas gaseificadas.

Apesar de apresentar características específicas, a síndrome ainda não possui um exame único capaz de confirmar o diagnóstico em todos os casos. Por isso, a avaliação costuma considerar o histórico do paciente, os sintomas e a investigação de outras possíveis causas. Em algumas situações, a resposta ao tratamento também ajuda a confirmar a suspeita clínica.

Vale lembrar que dores ou pressão no peito não devem ser automaticamente atribuídas ao acúmulo de gases. Quando o desconforto é intenso, repentino ou acompanhado de falta de ar, suor frio ou desmaio, é necessário procurar atendimento médico de urgência.

Canetas emagrecedoras podem piorar os sintomas?

Outro ponto que merece atenção é o uso de medicamentos conhecidos como canetas emagrecedoras, entre eles Ozempic e Mounjaro. Esses tratamentos atuam em mecanismos relacionados ao controle da glicose, do apetite e do esvaziamento gástrico. Como consequência, algumas pessoas podem apresentar efeitos gastrointestinais, incluindo náuseas, sensação de estômago cheio, distensão abdominal e arrotos.

Segundo Catani, o desconforto pode ser especialmente incômodo para quem já apresenta dificuldade de eliminar gases pela boca. "Esse tipo de medicação retarda o esvaziamento gástrico, o que naturalmente já acaba produzindo mais gases. Então, mesmo quem não tem a síndrome pode sentir estufamento ou borbulhamento na garganta", explicou.

Isso não significa que a R-CPD seja uma contraindicação automática ao uso desses medicamentos. Entretanto, pacientes que apresentam sintomas persistentes devem conversar com o médico responsável pelo tratamento. Também é importante destacar que sentir estufamento durante o uso dessas medicações não significa, necessariamente, ter a síndrome do não arrotar.

Como é feito o tratamento da síndrome do não arrotar?

Uma das alternativas utilizadas para tratar a condição envolve uma substância bastante conhecida na medicina estética: a toxina botulínica, popularmente chamada de botox. Nesse caso, porém, sua finalidade não é suavizar rugas, mas promover o relaxamento temporário do músculo cricofaríngeo, facilitando a passagem do ar pelo esôfago.

A aplicação é realizada por um médico especializado, que pode utilizar diferentes técnicas e modalidades de anestesia, conforme as características do paciente. O objetivo é permitir que o músculo relaxe e que a pessoa consiga arrotar, reduzindo o acúmulo de gases e os desconfortos associados.

De acordo com Catani, a precisão durante a aplicação é fundamental para diminuir o risco de efeitos indesejados. Isso porque a toxina pode afetar estruturas próximas, provocando alterações temporárias na voz. Outros efeitos possíveis incluem dificuldade passageira para engolir, especialmente nos primeiros dias após o procedimento.

Uma única aplicação pode resolver o problema?

Embora a toxina botulínica tenha efeito temporário sobre os músculos, alguns pacientes conseguem manter a capacidade de arrotar mesmo depois que a ação da substância diminui. Uma das hipóteses investigadas é que o período de relaxamento muscular permita ao organismo desenvolver ou recuperar o mecanismo necessário para liberar o ar.

Entretanto, nem todos os pacientes apresentam a mesma resposta. Enquanto alguns conseguem alívio prolongado com uma única aplicação, outros precisam repetir o procedimento. Em situações mais resistentes, também existem possibilidades cirúrgicas, como intervenções destinadas a reduzir a resistência do músculo cricofaríngeo. Essas alternativas, porém, são reservadas a casos selecionados.

Segundo o especialista entrevistado pela Galileu, muitos pacientes relatam melhora expressiva após o tratamento. "Eu sempre costumo perguntar aos pacientes a porcentagem de melhora dos sintomas que eles sentem após a aplicação. É claro que 100% de alívio é quase impossível, mas a grande parte deles relata uma melhora superior a 80%", afirmou.

Apesar dos resultados promissores, os estudos sobre a síndrome ainda estão em desenvolvimento, especialmente em relação aos efeitos do tratamento a longo prazo.

Quando procurar ajuda médica?

Pessoas que nunca conseguiram arrotar ou que apresentam dificuldade persistente acompanhada de estufamento, ruídos na garganta e desconforto abdominal devem buscar uma avaliação profissional.

O otorrinolaringologista com experiência em alterações da deglutição e do esôfago superior pode ajudar a investigar a condição. Dependendo dos sintomas, também pode ser necessário acompanhamento com um gastroenterologista.

O reconhecimento da síndrome do não arrotar é importante justamente porque seus sintomas podem ser confundidos com problemas digestivos mais conhecidos, fazendo com que algumas pessoas convivam durante anos com desconfortos sem compreender sua origem. Com uma investigação adequada, é possível identificar a causa e avaliar as opções de tratamento mais indicadas para cada caso.

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