Ronco frequente pode ser um sinal de alerta; entenda
Mais do que um incômodo noturno, o barulho constante ao dormir pode indicar apneia do sono e trazer riscos graves ao coração; saiba identificar
Dados recentes da Associação Brasileira do Sono revelam que o ronco está presente no sono de 40% da população adulta. Em grandes centros urbanos, como São Paulo, a situação é ainda mais crítica, onde 3 a cada 10 pessoas sofrem de apneia do sono.
O ronco é o som produzido pela vibração dos tecidos da garganta quando o ar passa com dificuldade. Porém, quando essa dificuldade se transforma em bloqueio total, temos um quadro muito mais sério.
Ronco ou Apneia?
É fundamental entender que nem todo mundo que ronca tem apneia, mas quase todo mundo que tem apneia, ronca.
O ronco frequente é o sintoma sonoro da passagem de ar estreitada. Já a apneia obstrutiva do sono é caracterizada pelo colapso das vias aéreas.
Imagine que, durante o sono, sua garganta se fecha completamente. A respiração é interrompida por 10 segundos ou mais. Isso pode acontecer dezenas, ou até centenas de vezes em uma única noite.
O cérebro, percebendo a falta de oxigênio, envia um sinal de alerta para o corpo "acordar" e respirar. A pessoa volta a respirar com um engasgo ou um ronco explosivo, mas nem sempre percebe que acordou.
O resultado? Um sono fragmentado, sem descanso real e com baixa oxigenação.
Sinais de alerta
Como saber se o seu caso é preocupante? O corpo dá sinais claros durante o dia de que a noite foi turbulenta.
Segundo o Dr. Otávio Pelucio, cirurgião especialista em traumatologia bucomaxilofacial do Grupo São Lucas, é preciso estar atento se o ronco vier acompanhado de outros sintomas.
Fique atento a estes sinais:
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Sonolência excessiva: Vontade incontrolável de dormir ao dirigir, ler ou ver TV;
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Fadiga crônica: Acordar já cansado, como se não tivesse dormido nada;
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Dificuldade de atenção: Falhas na memória e queda no rendimento profissional;
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Dores de cabeça matinais: Uma pressão na cabeça logo ao despertar;
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Engasgos noturnos: Sensação de sufocamento ou falta de ar abrupta;
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Queda de libido: A falta de sono afeta diretamente a produção hormonal.
Se você se identifica com dois ou mais itens dessa lista, é hora de buscar ajuda especializada.
Perigos silenciosos da Apneia
O diagnóstico precoce não é apenas uma questão de dormir bem, mas de viver mais. A apneia é classificada pelos médicos como uma doença sistêmica, ou seja, ela afeta o corpo todo.
Estudos recentes associam a apneia moderada a grave a um risco significativamente maior de problemas cardiovasculares.
Quando a respiração para, a frequência cardíaca e a pressão arterial sobem para tentar compensar a falta de oxigênio. Com o tempo, isso sobrecarrega o coração.
As consequências a longo prazo incluem:
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Hipertensão arterial difícil de controlar;
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Arritmias cardíacas;
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Risco elevado de infarto;
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Maior chance de AVC (Acidente Vascular Cerebral);
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Desenvolvimento de diabetes tipo 2.
"Muitos pacientes convivem anos com o problema sem saber, tratando apenas os sintomas isolados", alerta Dr. Otávio. O impacto na saúde é cumulativo.
Causas: por que isso acontece?
Existem fatores de risco conhecidos, como obesidade, tabagismo e consumo de álcool antes de dormir. O excesso de peso, por exemplo, aumenta o tecido na região do pescoço, pressionando a garganta.
No entanto, há um fator crucial que muitas vezes é ignorado: a anatomia do rosto.
Dr. Otávio explica que a estrutura óssea da face pode ser a vilã. "Muitos pacientes apresentam alterações ósseas que reduzem o espaço das vias aéreas, como mandíbula pequena ou retraída e maxila estreita", detalha o especialista.
Nesses casos, a língua não tem espaço suficiente dentro da boca e acaba "caindo" para trás durante o relaxamento do sono, bloqueando a passagem de ar.
Como é feito o diagnóstico?
O "padrão-ouro" para confirmar a doença é a polissonografia. É um exame onde o paciente dorme monitorado por sensores que registram o fluxo respiratório, a oxigenação do sangue e a atividade cerebral.
Além disso, a tecnologia moderna trouxe exames de imagem em 3D e tomografias computadorizadas.
Essas imagens permitem que o cirurgião veja exatamente onde ocorre o estreitamento ou o colapso da via aérea, permitindo um planejamento cirúrgico preciso, se for o caso.
Tratamentos: existe cura para o ronco frequente?
A boa notícia é que sim, existem tratamentos eficazes. A abordagem depende da gravidade da apneia e da causa (se é anatômica ou lifestyle).
1. Mudanças de hábito e aparelhos intraorais
Para casos leves, perder peso, evitar álcool à noite e dormir de lado pode ajudar. Aparelhos intraorais (parecidos com placas de bruxismo) que projetam a mandíbula para frente também são úteis para abrir a passagem de ar.
2. Famoso CPAP
Para casos moderados a graves, o CPAP é muito comum. É uma máscara que joga ar com pressão positiva nas vias aéreas, impedindo que elas se fechem.
Embora eficaz, muitos pacientes têm baixa tolerância e acham desconfortável dormir com o aparelho.
3. Cirurgia Ortognática
Aqui entra a expertise da cirurgia bucomaxilofacial. Para pacientes com problemas anatômicos claros (queixo retraído, por exemplo) ou que não se adaptam ao CPAP, a cirurgia é uma solução transformadora.
"Procedimentos como a cirurgia ortognática com avanço maxilomandibular apresentam taxas elevadas de sucesso", explica Dr. Otávio.
Basicamente, a cirurgia reposiciona os ossos da face, aumentando permanentemente o espaço para o ar passar.
"Em muitos casos, conseguimos uma redução expressiva do índice de apneia e até a resolução completa da doença", conclui o especialista.
Não ignore o barulho
O ronco frequente não deve ser normalizado. Ele é um alerta de que algo não vai bem com sua saúde.
Seja por meio de mudanças de hábitos, uso de aparelhos ou correção cirúrgica, o importante é buscar uma avaliação individualizada.
Voltar a dormir bem não significa apenas silêncio na casa, mas sim proteger seu coração, seu cérebro e ganhar anos de vida com qualidade.