'Robert Kennedy Jr. destrói calendário de vacinação infantil dos EUA', diz professor de Stanford
Autoridades lideradas pelo secretário do Departamento de Saúde e Serviços Humanos reduziram de 17 para 11 o número de vacinas recomendadas no país, ignorando décadas de segurança e eficácia
A revisão do calendário de vacinação infantil dos EUA, em vigor há décadas, pelo governo Trump, anunciada pelas autoridades federais de saúde do país em 5 de janeiro de 2026, acendeu um alerta entre especialistas em saúde pública e pediatras.
O calendário de imunização infantil dos EUA, uma tabela com barras coloridas que pediatras compartilham com pais, recomenda um conjunto de vacinas administradas desde o nascimento até a adolescência para prevenir uma série de infecções graves. A estrutura básica está em vigor desde 1995, quando autoridades federais de saúde e organizações médicas emitiram pela primeira vez um padrão nacional unificado, embora novas vacinas tenham sido adicionadas regularmente à medida que a ciência avançava.
Esse calendário agora foi destruído.
No total, a mudança radical reduz as vacinas infantis universalmente recomendadas de 17 para 11. Ela move as vacinas contra rotavírus, influenza, hepatite A, hepatite B e doença meningocócica das recomendações de rotina para uma "tomada de decisão clínica compartilhada", categoria que transfere a responsabilidade pelo início da vacinação do sistema de saúde para as famílias individualmente.
O secretário do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA (HHS, o equivalente ao Ministério da Saúde no Brasil), Robert F. Kennedy Jr., que há décadas questiona a segurança das vacinas, justificou essas mudanças citando uma avaliação de 33 páginas comparando o calendário dos EUA com o da Dinamarca.
Mas os dois países diferem em aspectos importantes. A Dinamarca tem 6 milhões de habitantes, sistema de saúde universal e um registro nacional que rastreia todos os pacientes. Em contrapartida, os EUA têm 330 milhões de habitantes, 27 milhões sem seguro saúde e um sistema em que milhões de pessoas mudam de prestador de serviços de saúde constantemente.
Essas alterações se seguem à decisão do CDC, em dezembro de 2025, de abandonar uma recomendação de longa data de que todos os recém-nascidos fossem vacinados contra a hepatite B, apesar de não haver novas evidências que questionem o histórico de segurança da vacina.
Sou um médico especialista em doenças infecciosas que trata doenças preveníveis por vacinas e analisa as evidências clínicas por trás das recomendações de imunização. O calendário de vacinação não foi elaborado de uma só vez. Ele foi construído gradualmente ao longo de décadas, moldado por surtos de doenças, avanços tecnológicos e lições duramente aprendidas sobre a redução de doenças e mortes de crianças.
Os primeiros anos
Durante a primeira metade do século XX, a maioria dos estados americanos exigia que os alunos fossem vacinados contra a varíola para ingressar no sistema escolar público. Mas não havia um calendário nacional unificado. A vacina combinada contra difteria, tétano e coqueluche, conhecida como vacina DTP, surgiu em 1948, e a vacina Salk contra a poliomielite chegou em 1955, mas as recomendações sobre quando e como administrá-las variavam de acordo com o estado, o médico e até mesmo o bairro.
O governo federal interveio após uma tragédia. Em 1955, uma falha de fabricação no Cutter Laboratories em Berkeley, Califórnia, produziu lotes de vacina contra a poliomielite contendo vírus vivos, causando paralisia em dezenas de crianças. O incidente deixou claro que a vacinação não poderia continuar sendo uma questão fragmentada. Era necessária uma supervisão federal.
Em 1964, o cirurgião-geral dos EUA criou o Comitê Consultivo sobre Práticas de Imunização, ou ACIP, para fornecer orientação especializada e recomendações ao CDC sobre o uso de vacinas. Pela primeira vez, um único órgão avaliaria as evidências e emitiria recomendações nacionais.
Novas vacinas virais
Ao longo da década de 1960, foram licenciadas vacinas contra o sarampo (1963), a caxumba (1967) e a rubéola (1969), que acabaram por ser combinadas na vacina SCR em 1971. Cada adição seguiu um padrão semelhante: uma doença que matava ou incapacitava milhares de crianças anualmente, uma vacina que se mostrou segura e eficaz em testes e uma recomendação que transformou uma doença infantil aparentemente inevitável em algo evitável.
A vacina contra a rubéola foi além de proteger as crianças que a receberam. A rubéola, também chamada de sarampo alemão, é leve em crianças, mas devastadora para fetos, causando surdez, defeitos cardíacos e deficiências intelectuais quando mulheres grávidas são infectadas.
Uma epidemia de rubéola em 1964 e 1965 deixou isso bem claro: 12,5 milhões de infecções e 20.000 casos de síndrome da rubéola congênita deixaram milhares de crianças surdas ou cegas. A vacinação das crianças também ajudou a proteger as mulheres grávidas, reduzindo a propagação da infecção. Em 2015, a rubéola havia sido eliminada das Américas.
Hepatite B e a rede de segurança
Em 1991, o CDC adicionou a vacinação contra hepatite B ao nascer ao calendário. Antes disso, cerca de 18.000 crianças por ano contraíam o vírus antes dos 10 anos de idade.
Muitos pais se perguntam por que os recém-nascidos precisam dessa vacina. A resposta está na biologia e nas limitações do rastreamento.
Um adulto que contrai hepatite B tem 95% de chance de eliminar o vírus. Um bebê infectado nos primeiros meses de vida tem 90% de chance de desenvolver infecção crônica, e 1 em cada 4 acabará por morrer de insuficiência hepática ou câncer. Os bebês podem adquirir o vírus de suas mães durante o parto, de integrantes da família infectados ou por meio de contato casual em creches. O vírus sobrevive em superfícies por dias e é altamente contagioso.
As estratégias iniciais que visavam apenas grupos de alto risco falharam porque a triagem deixou passar muitas mães infectadas. Ainda hoje, cerca de 12% a 18% das mulheres grávidas nos EUA nunca são testadas para hepatite B. Até que o ACIP retirasse a recomendação no início de dezembro de 2025, a primeira dose dessa vacina ao nascer servia como uma rede de segurança, protegendo todos os bebês, independentemente de se saber com precisão o status de infecção de suas mães.
Essa rede de segurança funcionou: as infecções por hepatite B em crianças americanas caíram 99%.
Um padrão unificado
Durante décadas, diferentes organizações médicas emitiram suas próprias recomendações, às vezes conflitantes. Em 1995, o ACIP, a Academia Americana de Pediatria e a Academia Americana de Médicos de Família lançaram conjuntamente o primeiro calendário unificado de imunização infantil, o antepassado da tabela que conhecemos hoje. Pela primeira vez, pais e médicos tinham um padrão nacional único.
O calendário continuou a evoluir. O ACIP recomendou a vacinação contra a varicela em 1996; contra o rotavírus em 2006, substituindo uma versão anterior retirada após o monitoramento de segurança ter detectado um efeito colateral raro; e contra o HPV, também em 2006.
Cada adição seguiu o mesmo processo rigoroso: revisão de evidências, análise de risco-benefício e votação pública pelo comitê consultivo.
Mais vacinas, menos carga
Os ativistas antivacina, incluindo Kennedy, frequentemente afirmam erroneamente que o sistema imune das crianças está sobrecarregado porque o número de vacinas que recebem aumentou. Esse argumento é frequentemente usado para defender a redução do calendário de vacinação infantil.
Mas um fato costuma surpreender os pais: apesar do aumento nas vacinas recomendadas, o número de moléculas estimulantes do sistema imune nessas vacinas, chamadas antígenos, caiu drasticamente desde a década de 1980, o que significa que elas exigem menos do sistema imune da criança.
Só a vacina de células inteiras contra a coqueluche usada na década de 1980 continha cerca de 3.000 antígenos. Todas as vacinas do calendário vacinal atual contêm menos de 160 antígenos graças aos avanços na tecnologia de vacinas que permitem direcionar com precisão apenas os componentes necessários para a proteção.
O que vem pela frente
Durante décadas, o ACIP recomendou alterações ao calendário infantil apenas quando novas evidências ou mudanças claras no risco de doença assim o exigiam. O anúncio de 5 de janeiro representa uma ruptura fundamental com essa norma: várias vacinas foram retiradas das recomendações de rotina simultaneamente, justificadas não por novos dados de segurança, mas pela comparação com um país com um sistema de saúde fundamentalmente diferente.
Kennedy conseguiu isso ao preencher cargos envolvidos na segurança das vacinas com nomeações políticas. Seu ACIP cuidadosamente selecionado está repleto de membros com um histórico de opiniões antivacinas. Os autores da avaliação que justifica a mudança, altos funcionários da Food and Drug Administration (FDA) e do HHS, são críticos de longa data do calendário de vacinação existente. O diretor interino do CDC que assinou o memorando da decisão é um investidor sem formação clínica ou científica.
O efeito prático será sentido em clínicas em todo o país. As recomendações de rotina acionam alertas automáticos nos registros médicos e permitem que os enfermeiros vacinem sob ordens permanentes. A "tomada de decisão clínica compartilhada" exige que um médico esteja envolvido em todas as decisões de vacinação, criando gargalos que inevitavelmente reduzirão a adesão, especialmente para os mais de 100 milhões de americanos que não têm acesso regular à atenção primária.
As principais organizações médicas americanas, incluindo a Academia Americana de Pediatria e o Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas, afirmaram que continuarão recomendando o calendário completo das vacinas infantis. Vários estados, incluindo Califórnia, Nova York e Illinois, seguirão as diretrizes estabelecidas em vez das novas recomendações federais, criando uma situação em que a proteção das crianças depende do local onde vivem.
*Jake Scott é professor de doenças infecciosas na Universidade de Stanford, nos Estados Unidos
Este conteúdo foi publicado originalmente em The Conversation. Para ler o texto original, .