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Periodontite está ligada a maior ocorrência de diabetes tipo 2, diz estudo

Estudo aponta associação de até 25% entre a doença periodontal e novos casos de diabetes durante o acompanhamento

3 set 2026 - 15h15
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Resumo
Uma revisão na The Lancet Public Health com mais de 300 mil pessoas revelou que a periodontite eleva em até 25% o risco de desenvolver diabetes tipo 2, além de associar a perda total de dentes a uma ocorrência 30% maior da doença. A relação bidirecional sugere que a inflamação bucal pode afetar a resistência à insulina, somando-se a fatores como obesidade e sedentarismo. Especialistas destacam a necessidade de cuidados preventivos e de uma abordagem integrada entre saúde bucal e metabólica.

Estudo com mais de 300 mil participantes reforça a relação entre saúde bucal, inflamação e metabolismo

Quando se fala nas complicações do diabetes, as primeiras consequências lembradas envolvem estruturas como vasos sanguíneos, nervos e olhos. Porém, a condição causa impactos em todo o organismo, até mesmo na saúde oral, favorecendo inclusive o surgimento de doenças gengivais. "O diabetes descompensado pode prejudicar a resposta do organismo contra infecções e dificultar o controle de processos inflamatórios, aumentando a vulnerabilidade dos tecidos da boca", diz a endocrinologista Deborah Beranger, com pós-graduação em Endocrinologia e Metabologia pela Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro (SCMRJ).

Foto: Revista Malu

Consequentemente, a condição pode favorecer a progressão de doenças como a periodontite. "A periodontite é uma doença inflamatória crônica que compromete os tecidos responsáveis pela sustentação dos dentes. Multifatorial, a condição está associada ao acúmulo de um biofilme oral", explica o cirurgião-dentista Hugo Lewgoy, doutor pela Universidade de São Paulo (USP) e consultor científico da Curaden Swiss. E segundo uma revisão apresentada na edição de agosto do The Lancet Public Health, essa relação entre diabetes e saúde oral também pode ser observada no sentido inverso: pessoas com periodontite apresentaram maior ocorrência futura de diabetes tipo 2.

Periodontite pode estar ligada ao diabetes tipo 2

A revisão reuniu 28 estudos longitudinais, que acompanharam mais de 300 mil participantes. Nas análises sobre o surgimento do diabetes tipo 2, pessoas que apresentavam periodontite no início dos estudos tiveram uma ocorrência entre 18% e 25% maior de novos casos da doença durante o acompanhamento. "Apesar de não estabelecer uma relação de causa e efeito, os resultados mostram que existe uma associação entre as duas condições que precisa ser considerada. Uma das hipóteses é que a inflamação periodontal possa repercutir no organismo e participar de alterações metabólicas relacionadas à resistência à insulina", diz Deborah.

Também é possível que as duas doenças compartilhem fatores de risco, como tabagismo, excesso de peso, alimentação inadequada, sedentarismo, envelhecimento e condições socioeconômicas que podem dificultar tanto o acesso ao atendimento odontológico quanto o diagnóstico e o controle do diabetes. "Mas é importante lembrar que o diabetes tipo 2 é uma doença multifatorial. Uma pessoa não desenvolverá a condição apenas porque apresenta periodontite. O que os resultados mostram é que a saúde bucal pode representar mais uma peça dentro de um conjunto de fatores", esclarece a endocrinologista.

Perda dentária também aparece associada ao diabetes

Além disso, os pesquisadores observaram que a perda dentária também esteve associada a um maior risco de diabetes tipo 2: a perda parcial dos dentes apareceu associada a uma ocorrência entre 12% e 20% maior de novos casos da doença, enquanto a perda completa esteve associada a uma ocorrência 30% maior. "A perda dos dentes pode ocorrer por diferentes causas, entre elas a periodontite. Sem diagnóstico e tratamento, a doença pode avançar dos tecidos gengivais para estruturas mais profundas, provocar perda óssea, mobilidade e, nos casos mais graves, perda dos dentes", diz Hugo.

Ele acrescenta que um dos problemas é que a periodontite pode progredir sem provocar sintomas intensos nas fases iniciais. "Sangramento da gengiva durante a escovação é um dos principais sinais, mas muitas pessoas consideram normal. Ele sempre precisa ser investigado, assim como vermelhidão (rubor), inchaço (edema), retração gengival, sensibilidade (dor), mau hálito persistente e mobilidade dos dentes", alerta o cirurgião-dentista.

Sangramento não deve ser ignorado

O especialista ainda ressalta que o sangramento também não deve ser interpretado como um motivo para evitar a higiene da região. "Muitas pessoas deixam de escovar determinada área devido ao sangramento. Com isso, o biofilme continua se acumulando e a inflamação pode piorar", diz Hugo. Ele ressalta que a higiene oral é a principal forma para desorganizar o biofilme oral, prevenir a gengivite e reduzir o risco de progressão da doença periodontal. "É recomendado usar uma escova dental com uma grande quantidade de cerdas macias. Enquanto cerdas muito duras podem desgastar o esmalte dental (abrasão do esmalte) e causar lesões nas mucosas (resseção gengival), aumentando o risco de infecções, a quantidade de cerdas está relacionada à eficácia da escovação: quanto mais cerdas, menor é o acúmulo de placa bacteriana", afirma Hugo.

O cirurgião-dentista também alerta que, apesar de ajudarem na prevenção e na manutenção da saúde bucal, os cuidados diários não substituem o tratamento profissional quando a periodontite já está instalada. "Dependendo do estágio da doença, pode ser necessária a remoção do cálculo e do biofilme acumulados abaixo da gengiva", detalha.

Saúde bucal também merece atenção no diabetes

Segundo Deborah, a revisão reforça a importância da visão integrada do paciente. "Uma pessoa com periodontite, especialmente quando apresenta excesso de peso, hipertensão, histórico familiar de diabetes ou alterações anteriores da glicemia, pode se beneficiar de uma avaliação metabólica. A saúde oral não permite diagnosticar o diabetes. Mas a presença de uma doença periodontal importante, associada a outros fatores de risco, pode justificar uma investigação mais aprofundada." Da mesma maneira, pessoas já diagnosticadas com diabetes devem manter acompanhamento odontológico preventivo, em vez de procurar atendimento apenas quando surgem dor ou sangramento. "O acompanhamento preventivo permite identificar alterações em estágios iniciais, orientar a higiene de acordo com as necessidades do paciente e intervir antes que a doença comprometa o suporte dos dentes", conclui o especialista.

Revista Malu Revista Malu
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