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Ozempic abriu o caminho, mas especialistas dizem que o futuro da obesidade será ainda mais avançado

Futuro do tratamento da obesidade: GLP-1 como Ozempic, Wegovy, Mounjaro e Zepbound, medicina de precisão e novas terapias sustentáveis

22 jun 2026 - 09h32
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A obesidade passou, nas últimas décadas, de um problema visto apenas como consequência de hábitos de vida para uma condição clínica complexa, crônica e multifatorial. A avaliação recente da American Gastroenterological Association (AGA), publicada na revista Gastroenterology, reforça essa visão e aponta que o tratamento está entrando em uma nova fase, marcada por medicamentos inovadores, maior integração entre especialidades e foco na manutenção duradoura do peso perdido.

Esse relatório destaca principalmente o impacto dos agonistas do receptor de GLP-1 e de fármacos semelhantes, como Ozempic, Wegovy, Mounjaro e Zepbound, que mudaram o patamar de eficácia esperado de uma terapia medicamentosa para obesidade. Ao mesmo tempo, especialistas ressaltam que esses remédios, embora importantes, são apenas uma parte de um arsenal mais amplo que inclui cirurgia bariátrica, procedimentos endoscópicos e estratégias de medicina de precisão.

Como os medicamentos GLP-1 transformaram o tratamento da obesidade?

Ozempic (semaglutida), Wegovy (semaglutida em dose específica para obesidade), Mounjaro (tirzepatida) e Zepbound (tirzepatida com indicação para obesidade) pertencem a uma classe que imita hormônios intestinais envolvidos na regulação do apetite e do metabolismo. Esses remédios foram inicialmente desenvolvidos para diabetes tipo 2, mas estudos mostraram perda de peso significativa, levando à sua aprovação para tratamento da obesidade em diferentes países, inclusive com uso ampliado a partir de 2023 e 2024.

Na análise da AGA, esses fármacos alcançam reduções de peso que, em muitos casos, se aproximam dos resultados de alguns procedimentos cirúrgicos, algo considerado um marco em termos de eficácia farmacológica. Com isso, pacientes que antes tinham apenas mudanças de estilo de vida como principal recurso passaram a contar com uma ferramenta capaz de potencializar dieta, atividade física e acompanhamento clínico, contribuindo para reduzir riscos metabólicos e complicações associadas, como diabetes, doença hepática gordurosa e hipertensão.

Medicamentos, cirurgia bariátrica, procedimentos endoscópicos, nutrição e atividade física compõem o novo modelo multidisciplinar de tratamento da obesidade – depositphotos.com / alonesdj
Medicamentos, cirurgia bariátrica, procedimentos endoscópicos, nutrição e atividade física compõem o novo modelo multidisciplinar de tratamento da obesidade – depositphotos.com / alonesdj
Foto: Giro 10

GLP-1, tirzepatida e além: qual é o mecanismo de ação?

Esse hormônio é liberado no intestino após as refeições e atua em múltiplos órgãos. Os medicamentos classificados como agonistas de GLP-1 ou agonistas duplos (como a tirzepatida, que age em GLP-1 e GIP) aproveitam esses caminhos biológicos para promover perda de peso de forma coordenada.

  • Redução do apetite: ação em áreas do cérebro responsáveis pela saciedade, levando a menor ingestão calórica.
  • Esvaziamento gástrico mais lento: o alimento permanece mais tempo no estômago, prolongando a sensação de plenitude.
  • Melhora da resposta à insulina: maior sensibilidade insulínica e controle da glicemia, relevante para diabetes e pré-diabetes.
  • Modulação de outros hormônios: influência sobre sinais metabólicos que regulam armazenamento de gordura e gasto energético.

A AGA ressalta que o efeito não se limita à perda de peso na balança. Há evidências de redução de gordura visceral, melhora de inflamação sistêmica e impacto positivo em doenças associadas ao excesso de peso, como apneia do sono e doença hepática gordurosa não alcoólica. Ainda assim, esses medicamentos não são isentos de limitações.

Quais são os benefícios e as limitações dessa nova geração de remédios?

Entre os principais benefícios apontados pelos especialistas estão a magnitude da perda de peso, a melhora de parâmetros metabólicos e o fato de serem tratamentos menos invasivos que a cirurgia. A possibilidade de uso em longo prazo, com monitorização adequada, contribui para manter o peso reduzido por mais tempo em comparação com abordagens apenas comportamentais.

Por outro lado, a AGA destaca algumas limitações importantes:

  1. Efeitos adversos gastrointestinais: náuseas, vômitos, diarreia e constipação são comuns, especialmente no início ou em aumentos de dose.
  2. Dependência do uso contínuo: a interrupção costuma levar à recuperação parcial ou completa do peso, reforçando o caráter crônico da obesidade.
  3. Acesso e custo: preços elevados e restrições de cobertura em sistemas de saúde públicos e privados dificultam uso amplo.
  4. Indicação seletiva: nem todos os pacientes são candidatos ideais; condições pré-existentes, como pancreatite ou determinadas doenças endócrinas, exigem cautela.

Esse conjunto de fatores explica por que pesquisadores descrevem os medicamentos GLP-1 como "início de uma nova era", e não como solução definitiva. Eles mostram o potencial da modulação hormonal, mas também deixam claro que a doença continua presente se o estímulo terapêutico é retirado.

Por que esses medicamentos são vistos como o começo de uma nova era terapêutica?

Para a AGA, a principal mensagem é que a obesidade passou a ser encarada, de forma mais consistente, como doença crônica que exige tratamento contínuo e individualizado, assim como hipertensão ou asma. O avanço dos agonistas de GLP-1 e de combinações hormonais abre caminho para uma série de novos agentes em estudo, que atuam em múltiplos alvos metabólicos ao mesmo tempo.

Estão em desenvolvimento fármacos que combinam três hormônios intestinais (GLP-1, GIP, glucagon) e moléculas que interferem diretamente em vias de regulação de saciedade no sistema nervoso central. A expectativa apresentada na revista Gastroenterology é de que, até o final desta década, o arsenal farmacológico seja ainda mais diversificado, permitindo combinações adaptadas ao perfil de cada paciente e à presença de comorbidades específicas.

Qual é o papel da medicina de precisão e dos procedimentos endoscópicos?

A medicina de precisão aplicada à obesidade busca entender por que pessoas com o mesmo índice de massa corporal respondem de forma tão diferente a dietas, exercícios, remédios e cirurgias. A AGA destaca que, no futuro próximo, devem ganhar espaço:

  • Avaliação genética e molecular para identificar subtipos de obesidade.
  • Análise do microbioma intestinal, que pode influenciar resposta a alimentos e medicamentos.
  • Perfis metabólicos detalhados, integrando exames laboratoriais avançados e dados clínicos.

Com base nessas informações, a escolha entre GLP-1, tirzepatida, combinações de fármacos, cirurgia ou procedimentos endoscópicos deve se tornar mais personalizada. Entre esses procedimentos endoscópicos minimamente invasivos, a AGA cita técnicas como gastroplastia endoscópica e colocação de balões intragástricos, que reduzem a capacidade do estômago ou alteram o trânsito alimentar sem necessidade de grandes incisões cirúrgicas.

Essas intervenções podem ser indicadas para pessoas que não preenchem critérios para cirurgia bariátrica clássica ou que preferem métodos menos invasivos. Em muitos casos, são combinadas com medicamentos como GLP-1 para potencializar e prolongar a perda de peso.

Como a cirurgia bariátrica e as abordagens multidisciplinares se encaixam nesse cenário?

Apesar dos avanços medicamentosos, a AGA reforça que a cirurgia bariátrica continua sendo um dos tratamentos mais eficazes para obesidade grave, com impacto duradouro sobre peso e comorbidades. Procedimentos como bypass gástrico e gastrectomia vertical (sleeve) seguem com papel central, especialmente para pacientes com alto índice de massa corporal ou falha de outras terapias.

O documento enfatiza que o melhor resultado costuma vir de abordagens multidisciplinares, envolvendo:

  • Gastroenterologistas, endocrinologistas e cirurgiões bariátricos.
  • Nutricionistas ou nutricionistas clínicos especializados em obesidade.
  • Psicólogos ou psiquiatras, para lidar com comportamento alimentar e saúde mental.
  • Profissionais de educação física ou fisioterapeutas, adaptando atividade física ao quadro do paciente.

Esse modelo é defendido como essencial não apenas para promover o emagrecimento inicial, mas também para reduzir a chance de reganho de peso e lidar com questões sociais, emocionais e ambientais que influenciam o comportamento alimentar.

A obesidade é uma condição crônica e multifatorial, que exige tratamento individualizado, acompanhamento contínuo e estratégias para prevenir o reganho de peso – depositphotos.com / MillaFedotova
A obesidade é uma condição crônica e multifatorial, que exige tratamento individualizado, acompanhamento contínuo e estratégias para prevenir o reganho de peso – depositphotos.com / MillaFedotova
Foto: Giro 10

Quais são os maiores desafios para manter o peso perdido a longo prazo?

Um dos pontos mais enfatizados na avaliação da AGA é a manutenção do peso. O organismo tende a defender o peso mais alto, ativando mecanismos de "economia de energia" depois de uma perda significativa. Entre esses mecanismos estão redução do gasto calórico de repouso e aumento de hormônios que estimulam fome, como grelina.

Por esse motivo, a recuperação de parte do peso é comum mesmo com medicamentos ou cirurgia. O relatório aponta alguns desafios centrais:

  1. Necessidade de tratamento contínuo: interrupções em remédios ou relaxamento de mudanças de estilo de vida favorecem o reganho.
  2. Ajustes ao longo do tempo: doses, combinações de fármacos e estratégias nutricionais precisam ser revistos periodicamente.
  3. Contexto social e ambiental: acesso a alimentos ultraprocessados, rotinas de trabalho extensas e sedentarismo dificultam a manutenção.
  4. Estigma e adesão: preconceito em relação à obesidade pode afetar a busca por cuidado e a permanência no tratamento.

Ao reconhecer esses fatores, a AGA reforça que a obesidade deve ser tratada com a mesma lógica de outras doenças crônicas: acompanhamento regular, possibilidade de ajustar terapias e compreensão de que recaídas fazem parte do processo e não representam fracasso individual.

Quais são as perspectivas futuras para tratamentos mais personalizados e sustentáveis?

Para os próximos anos, a avaliação publicada em Gastroenterology projeta um cenário em que a combinação de farmacoterapia avançada, procedimentos minimamente invasivos e cirurgia bariátrica refinada será integrada a ferramentas digitais, como aplicativos de monitoramento, telemedicina e uso de dados de dispositivos vestíveis.

Espera-se também maior integração da medicina de precisão, com painéis genéticos e biomarcadores orientando a escolha entre diferentes classes de medicamentos, incluindo agonistas de GLP-1, agonistas duplos ou triplos e novas moléculas ainda em fase de estudo. A tendência é que o tratamento da obesidade em 2026 e nos próximos anos deixe de ser baseado em tentativas genéricas e passe a considerar, de forma sistemática, o perfil biológico e social de cada pessoa.

De acordo com os especialistas da AGA, o futuro do manejo da obesidade não se resume a um único remédio ou procedimento. A perspectiva é de um cuidado contínuo, personalizado e sustentado, no qual os medicamentos como Ozempic, Wegovy, Mounjaro e Zepbound ocupam lugar central, mas atuam lado a lado com estratégias multidisciplinares, intervenções endoscópicas e cirúrgicas. Esse conjunto, se bem coordenado, tende a oferecer resultados mais duradouros e alinhados à natureza crônica da obesidade.

Giro 10
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