Fatores biológicos podem explicar menor incidência de autismo em meninas?
Estudo aponta papel do cromossomo X inativo como possível proteção e destaca desafios no diagnóstico feminino
A proporção de diagnósticos de autismo é de três casos em meninos para cada ocorrência em meninas. A maioria das pesquisas indica que há um viés nas avaliações, que dificulta a percepção dos sinais do transtorno no sexo feminino. Entretanto, uma pesquisa recente sugere que pode haver um fator genético de proteção para as garotas.
A investigação, publicada no último dia 30 de março na Nature Genetics, aponta que um fator cromossômico pode reduzir a incidência de autismo entre elas. A principal diferença genética entre os sexos está no 23º par de cromossomos: homens têm uma combinação XY enquanto mulheres apresentam um par XX. Ainda na formação embrionária, para não haver excesso de proteínas, as células inativam um dos cromossomos X das meninas.
A inativação é aleatória, podendo tanto ser o cromossomo herdado do pai quanto o da mãe, mas cada célula possui em seu código genético um dos X ativo e o outro inativo. Conduzido por pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos, o estudo propõe que o X inativo pode funcionar como mecanismo protetor genético nas mulheres contra alguns transtornos do neurodesenvolvimento, como o autismo.
"O X inativo, apesar desse nome, ainda tem uma pequena parte com expressão, que varia de 15% a 25% de seu fator genético. Isso garante certa regularidade na formação celular que impede o aparecimento de mutações e dá uma maior resiliência ao desenvolvimento neurológico", explica o neurologista Erasmo Casella, especialista em neurodesenvolvimento, do Einstein Hospital Israelita. Em outras palavras, meninas precisam acumular mais mutações genéticas do que meninos para desenvolver o transtorno.
Outras síndromes genéticas que alteram o 23º par de cromossomos ajudam a explicar esse efeito. "A síndrome de Turner, por exemplo, ocorre em mulheres que possuem apenas um cromossomo X em vez de um par. Os dados que temos são de que portadoras dessa síndrome apresentam taxas mais elevadas de TEA [transtorno do espectro autista] e TDAH [transtorno do déficit de atenção com hiperatividade]. A ausência de expressão adicional do segundo X comprometeria o mecanismo protetor descrito no estudo", detalha Casella.
As evidências indicam, porém, que o papel protetor do cromossomo X depende do equilíbrio de proteínas feito na interação entre o ativo e o inativo. Síndromes genéticas que levam o indivíduo a ter um X a mais, como a síndrome de Klinefelter, não têm o mesmo efeito: homens com essa condição têm dois X e um Y em seu código genético, sendo um dos X inativo. Mas, em geral, portadores dessa síndrome apresentam risco aumentado de TEA. Esse dado, aparentemente contraditório, reforça a ideia de que a proteção natural proveniente do X inativo depende do equilíbrio: excessos ou déficits nessa expressão alteram o risco neurológico.
Efeito biológico não elimina barreiras sociais
Apesar da indicação de que o cromossomo X inativo pode oferecer um fator protetor natural, o artigo observa que isso não exclui componentes sociais que dificultam o diagnóstico de meninas com autismo.
O comportamento autista feminino tende a ser socialmente mais tolerado e, com isso, é menos visível do que o masculino. Muitas vezes, os sinais de hiperfoco e o fato de elas serem mais quietas são confundidos com o comportamento social esperado. "Não é surpreendente que uma garota seja obcecada com princesas e fique mais na dela, reservada. Isso dificulta o reconhecimento de sinais do TEA entre elas", resume o neurologista do Einstein.
Segundo Erasmo Casella, também é mais comum que meninas aprendam a mascarar seus sintomas, comportamento conhecido como camuflagem social. Muitas delas aprendem, ao longo do desenvolvimento, a imitar comportamentos neurotípicos. "Essa estratégia adaptativa, embora funcionalmente útil no convívio social, esconde os sinais do transtorno aos olhos de pais, professores e clínicos. O resultado é o diagnóstico tardio e a falta de intervenção adequada no momento certo", pontua o especialista.
O diagnóstico tardio do TEA em meninas tem impacto direto sobre o acesso ao tratamento e o desenvolvimento neurológico. "Quanto mais cedo começar, melhor. Quando atuamos cedo com terapia, conseguimos uma janela de maior plasticidade neurológica, concentrada ali nos primeiros anos de vida, que é o momento em que as intervenções terapêuticas apresentam resultados mais expressivos", indica o neurologista.
Compreender por que meninas apresentam menor incidência de TEA não deve aprofundar dificuldades de diagnosticar aquelas que têm o transtorno. O estudo reforça a necessidade de atualizar critérios de triagem e treinar profissionais para reconhecer as apresentações femininas da condição, entendendo particularidades, mas sem minimizar a gravidade.
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