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O que famílias de crianças autistas precisam saber sobre segurança

Segurança de crianças autistas exige mais do que vigilância. Entenda os riscos e veja como proteger sem limitar a autonomia.

8 ago 2026 - 18h00
(atualizado às 18h01)
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Uma criança autista pode sair de perto dos pais em poucos segundos, atravessar uma porta ou seguir em direção a um lugar que chamou sua atenção.

Segurança de crianças autistas / SaúdeLab
Segurança de crianças autistas / SaúdeLab
Foto: SaúdeLab / SaúdeLAB

Pare de tentar adivinhar. Aprenda a entender o autismo, reconhecer os sinais e agir com segurança no dia a dia, mesmo que você ainda esteja perdido ou sem apoio profissional.

Se houver uma piscina, um rio, uma rua movimentada ou um ambiente desconhecido por perto, o que parecia apenas um afastamento pode se transformar rapidamente em uma situação de risco.

Esse comportamento, chamado de elopement ou wandering, é uma preocupação conhecida entre profissionais que acompanham crianças autistas.

Estudos mostram que uma parcela significativa delas já tentou se afastar de um ambiente seguro, embora o comportamento e o nível de risco variem muito de uma criança para outra.

A questão, portanto, não é manter a criança sob vigilância o tempo todo. É entender por que esses episódios podem acontecer, antecipar situações de perigo e criar estratégias que permitam proteger sem limitar desnecessariamente a autonomia e a participação da criança na vida cotidiana.

Quando a criança se afasta de um lugar seguro

Um estudo publicado na revista Pediatrics acompanhou informações de 1.218 crianças com transtorno do espectro autista (TEA). Entre os responsáveis, 49% relataram pelo menos uma tentativa de afastamento da criança de um ambiente seguro depois dos 4 anos.

Entre as crianças que chegaram a ficar desaparecidas por tempo suficiente para preocupar os responsáveis, 24% estiveram em situação de risco de afogamento e 65% em risco relacionado ao trânsito. O estudo mostra, portanto, que as consequências podem ser graves quando a criança consegue chegar a locais sem supervisão.

O afastamento pode acontecer por diferentes motivos. A criança pode estar seguindo algo que despertou seu interesse, tentando sair de uma situação desconfortável ou reagindo a um ambiente com muitos estímulos.

Por isso, não é adequado interpretar automaticamente o comportamento como desobediência ou uma tentativa deliberada de "fugir". Características como comunicação limitada também podem estar associadas a uma maior ocorrência, mas o perfil e os motivos variam de uma criança para outra.

"Segurança também precisa fazer parte do plano de cuidado", explica a psicóloga e neurocientista Mayra Gaiato.

Ela destaca que a prevenção deve caminhar junto com o desenvolvimento da criança.

"Assim como ensinamos comunicação, autonomia e habilidades sociais, também precisamos ensinar a criança a reconhecer situações de risco e preparar os adultos para agir de forma preventiva", afirma.

A água merece atenção especial

O afogamento é um dos riscos que exigem atenção quando uma criança se afasta de um ambiente seguro.

Uma pesquisa publicada em 2025 no Journal of Autism and Developmental Disorders mostrou que crianças autistas tiveram mais que o dobro de probabilidade de serem levadas a um pronto-socorro após um afogamento acidental do que crianças sem autismo.

Embora esse dado não possa ser transportado diretamente para a realidade brasileira, ele reforça a importância de pensar na segurança da água como parte da prevenção, principalmente quando há histórico de afastamento.

Nadar ajuda, mas não elimina o perigo

Aprender a nadar pode ser uma habilidade importante de segurança, mas não elimina o risco de afogamento.

Uma análise de vários estudos, publicada em julho de 2026 na revista Developmental Medicine & Child Neurology, mostrou que programas de natação podem melhorar as habilidades aquáticas de crianças autistas.

Mas os pesquisadores ainda não conseguiram afirmar que aprender a nadar, sozinho, reduz o risco de afogamento.

Por isso, aulas adaptadas podem fazer parte da prevenção, mas não substituem a supervisão de um adulto nem os cuidados com o ambiente.

"Aprender a nadar é importante para qualquer criança, mas, no caso do autismo, aulas adaptadas podem representar uma estratégia adicional de proteção. Saber flutuar pode fazer diferença em uma situação de emergência, embora nunca substitua a supervisão constante", afirma Mayra.

Prevenção também se aprende

A segurança não depende apenas de observar a criança o tempo todo. Sempre que possível, ela também pode aprender habilidades adequadas à sua idade, à sua compreensão e ao seu nível de autonomia.

Isso pode envolver saber a quem pedir ajuda, reconhecer situações inadequadas, entender regras básicas de segurança e identificar adultos de confiança.

"Precisamos conversar sobre quem pode ajudar, quais são os limites do corpo, o que fazer se a criança se perder e como pedir ajuda. Esses aprendizados devem ser adaptados ao nível de compreensão de cada criança, utilizando recursos visuais e repetição quando necessário", explica a especialista.

O mesmo vale para a prevenção da violência.

Pessoas autistas podem estar mais expostas a diferentes formas de vitimização, mas isso não significa que o autismo, por si só, determine uma incapacidade de reconhecer situações perigosas.

Os riscos variam de acordo com as características e as circunstâncias de cada pessoa.

Além de ensinar habilidades de proteção, cabe aos adultos e às instituições criar ambientes em que a criança possa pedir ajuda e ser protegida.

A segurança também é responsabilidade de todos

A prevenção não precisa ficar apenas nas mãos dos pais.

Escolas, profissionais de saúde e espaços de lazer também podem ajudar, principalmente quando conhecem as necessidades da criança e sabem como agir em uma situação de risco.

Em passeios, viagens e locais movimentados, alguns cuidados podem fazer diferença:

  • conhecer o local antes e identificar possíveis áreas de risco;
  • combinar um ponto de encontro caso a criança se afaste;
  • informar pessoas responsáveis pelo local sobre necessidades específicas, quando necessário;
  • usar identificação pessoal em situações que possam exigir esse cuidado;
  • avaliar barreiras de segurança e recursos de localização quando houver histórico de elopement.

Essas medidas não substituem a supervisão nem devem ser iguais para todas as crianças. O mais importante é adaptar a prevenção às características e ao nível de autonomia de cada uma.

Proteger sem deixar de viver

Para a jornalista Debora Saueressig, mulher autista e mãe de Benjamin, de 8 anos, também autista, a preocupação com a segurança acompanha a família diariamente.

"Quem convive com uma criança autista aprende que a prevenção faz parte da rotina. Não porque nossos filhos sejam incapazes, mas porque muitas vezes eles percebem o mundo de uma forma diferente e podem não reconhecer determinados riscos", relata.

Debora Saueressig, mulher autista e mãe de Benjamin, também autista / Crédito: Arquivo Pessoal

A preocupação, porém, pode ultrapassar os limites da prevenção.

"Muitos pais deixam de viajar, evitam parques, praias, shoppings ou eventos porque estão sempre imaginando tudo o que pode dar errado. Sem perceber, a família inteira vai se isolando. O desafio é encontrar um equilíbrio entre proteger e permitir que a criança viva experiências importantes para o desenvolvimento", afirma.

Esse equilíbrio é uma parte importante da própria segurança.

Uma família que conhece os riscos pode se preparar melhor. Isso não significa eliminar todas as situações imprevisíveis, mas reduzir perigos que podem ser antecipados e pensar em como agir quando algo sair do planejado.

"Quando entendemos os riscos e aprendemos estratégias de prevenção, conseguimos substituir parte da ansiedade pelo planejamento. Isso nos dá mais segurança para sair de casa, participar da vida em sociedade e permitir que nossos filhos explorem o mundo de forma mais protegida", diz Debora.

Autonomia também faz parte da proteção

A segurança não precisa significar uma infância limitada pelo medo. Com planejamento e suporte adequado, a criança pode ampliar gradualmente sua autonomia e participar de diferentes situações do dia a dia.

"Autonomia não significa deixar a criança sozinha. Significa ensinar habilidades, adaptar o ambiente e contar com uma sociedade preparada para reconhecer situações de risco e agir quando necessário", afirma Mayra Gaiato.

Mais do que evitar todos os riscos, a proposta é preparar a criança, a família e o ambiente para lidar melhor com eles.

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Fonte: SaúdeLAB
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