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OMS combate uma epidemia além do Coronavírus - uma 'infodemia'

Organização Mundial da Saúde vem trabalhando com redes sociais como Facebook, Twitter, Pinterest e também com o Google para combater a disseminação de fake news sobre a doença

7 fev 2020
15h53
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SÃO FRANCISCO - Com a ameaça do coronavírus crescendo, Aleksandra Kusmanovic sentou-se diante do seu computador, em Genebra, na segunda-feira, e enviou um importante e-mail de saúde pública. Ela trabalha na Organização Mundial da Saúde (OMS) e seu trabalho é avaliar e conter algo que vem se propagando globalmente, e não se trata do perigoso vírus, mas de informações falsas perigosas.

Seu objetivo é acabar com o que seus colegas dentro da organização estão chamando de "infodemia".

Ela enviou o e-mail a um contato no Pinterest, rede social focada no compartilhamento de imagens e sediada em São Francisco, perguntando se o site ajudaria a OMS a combater a propagação de desinformação, mentiras e rumores sobre o novo vírus.

E a empresa aceitou. A partir da noite de quinta-feira, quando os usuários do Pinterest realizarem buscas sobre o vírus, eles terão um link para uma página de "destruidores de mitos" da OMS.

Desde que o vírus eclodiu, Kuzmanovic e seus colegas mantêm contato regular com os maiores e mais poderosos difusores de informação - como Facebook, Twitter e Google, e outros influenciadores, em todo o globo.

Na próxima semana, Andrew Pattison, diretor de soluções digitais da Organização Mundial da Saúde, viajará para Menlo Park, Califórnia, para visitar a sede do Facebook, que organizou uma reunião de 20 grandes companhias de tecnologia, incluindo Uber e Airbnb, quando ele irá solicitar mais ajuda. "Gostaria de ver o Airbnb dando conselhos a pessoas que viajam sobre o coronavírus", disse ele.

Pattison pretende se reunir também com dirigentes da Amazon em Seattle, na esperança de que a gigante do e-commerce forneça informações de saúde precisas quando as pessoas comprarem coisas como máscaras de proteção ou respiradores, ou mesmo livros que já vêm circulando sobre a crise e que podem conter informações incorretas. Os esforços da OMS são uma nova tentativa de amplo alcance para reinventar o que tem sido uma luta fracassada contra a desinformação.

Nas duas últimas semanas, empresas de tecnologia que trabalham com a OMS têm postado links para o conteúdo da organização, tornando mais difícil encontrar informações falsas em buscas ou em noticiários e, às vezes, removendo o conteúdo completamente.

As empresas, como Google, Facebook e Twitter, não deram entrevistas a respeito, mas confirmaram que o trabalho que vem realizando com a OMS se insere nos seus esforços para combater as falsas informações sobre o coronavírus. Elas também estão trabalhando independentemente da OMS com objetivo de eliminar a desinformação sobre o vírus.

E vêm se deparando com uma série de afirmações falsas, como a de que o coronavírus foi criado como uma arma biológica ou foi financiado pela Fundação Bill & Melinda Gates para aumentar a venda de vacinas. Ou então que a pessoa pode se curar comendo alho ou ingerindo uma mistura de água sanitária (o que pode levar a uma insuficiência hepática). Essas ideias, como o próprio vírus, são facilmente transmitidas de modo inconsciente ou insidioso e se espalham quase que invisivelmente através do vasto mundo virtual.

A realidade é que o coronavírus é uma infecção respiratória que se propaga rapidamente e que teve origem em Wuhan, na China. A maioria dos casos e quase todas as mortes ocorreram na China, embora o vírus tenha chegado a dezenas de países nas últimas semanas.

A desinformação sobre o vírus tem sido impulsionada por ideólogos que não confiam na ciência e em medidas comprovadas, como vacinas, e por aquelas pessoas que buscam tirar proveito para aumentar o tráfego na internet com histórias absurdas e ganhar com isso, vendendo "curas" ou produtos para saúde e bem-estar.

Os trabalhos preliminares de coordenação em torno do coronavírus começaram há dois anos, quando Pattison se dirigiu ao diretor geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesys, e sugeriu um esforço concentrado para se unir a gigantes da rede social com o fim de combater a desinformação no campo da saúde.

Hoje uma meia dezena de funcionários da organização em Genebra trabalha no assunto associados com websites digitais e de rede social. E com o tempo o trabalho tem se intensificado. Por exemplo, em agosto do ano passado, Pinterest se uniu à OMS, fornecendo um link para informações precisas sobre vacinas quando as pessoas fazem buscas desse tópico na plataforma.

Ifeoma Ozoma, gerente de políticas públicas e impacto social no Pinterest, disse que a companhia "trabalhou com a OMS no ano passado com o objetivo de "garantir às pessoas o encontro de informações confiáveis quando isso é realmente importante".

A OMS não exige dinheiro, e não paga, no caso dessas parcerias, disse Pattison. Mas elas já vêm dando resultados concretos.

O Google lançou o que chamou de "SOS Alert", que direciona as pessoas que buscam por "coronavírus" para notícias e outras informações da OMS, incluindo a conta da organização no Twitter, que foi ampliada para incluir informações não apenas em inglês, mas também em francês, espanhol, chinês, árabe e russo. A OMS está trabalhando também com a rede social chinesa WeChat para adicionar um feed de notícias com informações corretas traduzidas em chinês pela OMS.

A organização de saúde tem trabalhado especialmente com o Facebook. A empresa usa especialistas em checagem dos fatos que sinalizam a desinformação que chama sua atenção através de programas de computador que identificam senhas e tendências suspeitas. Essas postagens são ocultadas dos feeds de notícias ou, em casos raros, removidas completamente.

Outras empresas de tecnologia emitiram comunicados públicos de apoio à OMS. Kang Xing Jim, diretor da área de saúde do Facebook, disse que a plataforma social "vem fornecendo informações relevantes e atualizadas, e trabalhando para limitar a difusão de informações falsas e de conteúdo prejudicial com base em diretrizes da OMS".

Apesar dos esforços, centenas de milhares de pessoas têm consumido dezenas de informações falsas sobre o coronavírus nessas plataformas e em outras, como Reddit e a rede social chinesa TikTok, e outros websites menores. No Tik Tok, apareceram vídeos mostrando a conspiração Gates que foram visualizados mais de 160 mil vezes, mas depois retirados.

O campo para essas informações falsas é fértil, dizem especialistas. Segundo Sarah E. Kreps, professora na Cornell University, as pessoas que propagam deliberadamente informações distorcidas praticam "o capitalismo algorítmico", espalhando notícia assustadora para se beneficiar.

Os exemplos são muitos. Infowars, um website de extrema direita que promove teorias de conspiração e fake news, foi banido em vários sites de mídia social, mas continua anunciando remédios pseudocientíficos diretamente através das suas próprias lojas. Uma notícia distorcida sobre o coronavírus apareceu num vídeo do Infowars em 22 de janeiro, onde se afirmava que o vírus podia ser parte de um complô para diminuir a população.

"Os globalistas e o "deep state" (Estado profundo) declararam guerra à humanidade. Eles odeiam a vida humana. Por isso, matam bebês", dizia o apresentador no vídeo.

Próximo do quadro em que o vídeo aparece, está um anúncio de um produto para gargarejo que, segundo o anunciante, "tem por fim auxiliar seu sistema imunológico como nenhum outro e foi cientificamente provado".

Entretanto, segundo reportou a Clínica Mayo, o ingrediente mencionado no produto, prata coloidal, não comprovou ser seguro ou eficaz no tratamento da doença. E mesmo a loja do Infowars onde o produto é vendido informa, no momento da venda, que "não tem por finalidade diagnosticar, tratar, curar ou evitar qualquer tipo de doença".

A diretora de pesquisa no Stanford Internet Observatory, Renée DiResta, que estuda a propagação de falsas narrativas, descreveu essas tentativas de distorção no caso do coronavírus como produto de um "ecossistema de conspiração" que recorre a "posições contrárias a vacinas, teóricos de conspiração e pessoas com modalidades de saúde alternativas que querem promover e ter um incentivo econômico"

"Elas igualam as grandes empresas farmacêuticas a traficantes de drogas e depois lhes dizem como o seu cogumelo ou óleo é o seu meio de curar". Ao mesmo tempo, disse ela, a coordenação em torno do coronavírus mostra bem a realidade que as redes sociais têm poder de confrontar informações falsas.

"Isso prova que quando as plataformas decidem agir, elas podem ser muito influentes. Isto diminui seu desespero e diz que não temos poder ou capacidade para controlar a informação". / TRADUÇÃO TEREZINHA MARTINO

Estadão
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