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'Fiz quimioterapia por 11 anos para tratar um câncer que eu não tinha'

Becky Jones está entre as mais de 40 pessoas que estão movendo uma ação judicial contra hospital inglês por serem submetidos a tratamentos contra o câncer prolongados ou desnecessários.

16 set 2026 - 07h24
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Resumo
Diagnosticada aos 21 anos com tumor cerebral terminal, a britânica Becky Jones fez 11 anos de quimioterapia desnecessária e descobriu que tinha apenas uma inflamação tratável com corticoides. O médico Ian Brown prescreveu a medicação antes do resultado da biópsia, ignorando diretrizes. Jones integra um grupo de mais de 40 pacientes que processam o hospital UHCW por tratamentos indevidos e danos graves à saúde, falhas apontadas por uma investigação como quebra de confiança e falta de supervisão.
Becky Jones foi informada de que teria apenas alguns meses de vida, apesar de nenhum tumor ter aparecido nos exames de imagem
Becky Jones foi informada de que teria apenas alguns meses de vida, apesar de nenhum tumor ter aparecido nos exames de imagem
Foto: BBC News Brasil

Becky Jones tinha apenas 21 anos quando foi informada de que tinha um tumor cerebral terminal e apenas alguns meses de vida.

Ela havia acabado de conhecer seu companheiro e sonhava com uma carreira na polícia, mas, de repente, o futuro parecia sombrio.

O diagnóstico, feito por um experiente médico especialista em câncer, levou a 11 anos de tratamento com quimioterapia, que mudou sua vida. Ela frequentemente sentia náuseas, não conseguia participar de eventos familiares, teve sua carreira prejudicada e vivia constantemente "pisando em ovos".

Agora, aos 34 anos, ela descobriu recentemente que nunca teve câncer, mas sim uma inflamação no cérebro que poderia ter sido tratada com corticoides.

Mãe de dois filhos, ela é uma das mais de 40 pacientes que estão movendo uma ação judicial contra o University Hospitals Coventry and Warwickshire (UHCW) NHS Trust devido a tratamentos contra o câncer prolongados ou desnecessários.

"Disseram-me repetidas vezes que, sem a quimioterapia, eu morreria", disse ela.

Quando era jovem, Jones diz que o médico especialista, Ian Brown, do University Hospital, em Coventry, informou que ela precisaria tomar o medicamento quimioterápico temozolomida (TMZ) pelo resto da vida.

Isso apesar de as diretrizes recomendarem seis ciclos ao longo de seis meses.

Quando questionou sobre vários exames de imagem que pareciam não mostrar sinais de um tumor, ela afirma que o médico disse que o tumor não seria "visível a olho nu".

Foi somente em 2025, quando os casos de câncer no hospital relacionados a Brown estavam sendo revisados, que ela descobriu a verdade.

"Nunca tive um tumor cerebral. Fui diagnosticada erroneamente e passei por todo esse tratamento durante grande parte da minha vida adulta, sem motivo", disse.

"Ele basicamente destruiu minha vida", acrescentou.

Becky Jones disse que os efeitos de tomar os medicamentos durante anos foram "horrendos"
Becky Jones disse que os efeitos de tomar os medicamentos durante anos foram "horrendos"
Foto: Becky Jones/Arquivo pessoal / BBC News Brasil

Muitos outros pacientes de Brown disseram à BBC que receberam TMZ durante anos, o que lhes causou uma série de problemas graves de saúde.

Uma paciente disse acreditar que o medicamento a havia deixado infértil, enquanto outra desenvolveu leucemia após passar por 100 ciclos desnecessários.

As conclusões preliminares de uma investigação do Royal College of Physicians (RCP) indicaram que pacientes do hospital recebiam rotineiramente tratamentos prolongados com o medicamento, com "pouca ou nenhuma evidência de benefício".

A investigação concluiu que as falhas da equipe do hospital equivaleram a uma "traição da confiança dos pacientes" e também questionou por que as equipes de farmácia oncológica não contestaram o fato de pacientes receberem quimioterapia oral continuamente por períodos de 10 a 15 anos.

O UHCW afirmou que não comentaria casos individuais, mas disse que foram adotadas medidas para garantir uma "supervisão mais rigorosa da prescrição e do uso da TMZ".

Em 2012, a vida estava apenas começando para Jones, que trabalhava como operadora de circuito interno de televisão (CCTV) no estádio do Coventry City. Ela conheceu seu companheiro, Pete, que trabalhava como segurança no estádio, mas pouco depois começou a sofrer de fortes enxaquecas e procurou ajuda médica.

Ela foi submetida a uma biópsia cerebral realizada por um neurocirurgião particular.

Mas Fiona Tinsley, sócia do escritório de advocacia Brabners, disse que o professor Brown havia diagnosticado Jones com um glioblastoma de grau 4, uma das formas mais agressivas de câncer cerebral, antes que os resultados da biópsia tivessem saído.

A BBC tentou entrar em contato com o professor aposentado várias vezes.

Jones descreveu como "horrendos" os anos em que tomou os medicamentos quimioterápicos.

"Era uma náusea constante, dores no estômago, úlceras na boca, cansaço no dia a dia. Era horrível", disse.

O medicamento afetou todos os aspectos de sua vida. O medo de infecções fez com que ela evitasse eventos sociais e encontros familiares.

Sua carteira de motorista também foi inicialmente suspensa e, depois, teve seu uso restringido.

"Antes do tratamento, eu frequentava a academia o tempo todo, corria, e eu e Pete costumávamos sair para comer fora o tempo todo, o que obviamente depois eu não podia mais fazer", explicou.

O casal também foi informado de que ela não poderia engravidar.

"Mais tarde, tive dois filhos, o que, segundo ele, foram dois milagres", disse.

Mais de 40 pacientes estão movendo uma ação judicial
Mais de 40 pacientes estão movendo uma ação judicial
Foto: BBC News Brasil

O tratamento dela continuou por mais de uma década, até que, de repente, em 2024, ela recebeu um telefonema de um médico informando que a quimioterapia seria interrompida.

"Ele não tinha nenhum motivo para isso. Disse que Ian Brown havia se aposentado — foi a primeira vez que ouvi falar disso", contou Jones.

Disseram a ela que quaisquer dúvidas seriam respondidas por seu novo oncologista, mas nenhum nome foi informado.

"Eu não sabia o que fazer, a quem recorrer, com quem falar, porque não tive nenhum apoio do hospital durante aquele período", disse.

Em maio de 2025, após uma análise independente feita por neurocirurgiões e radiologistas, a pedido de seus advogados, ela foi informada de que nunca havia tido câncer no cérebro.

Na verdade, ela sofria de uma desmielinização tumefativa — uma inflamação que normalmente é tratada por neurologistas, que prescrevem corticoides em altas doses.

Jones recebeu a notícia em uma videochamada com seus advogados e os especialistas.

"Quando descobrimos, havia lágrimas nos olhos de todos", disse Tinsley, que representa vários dos pacientes.

A moradora de Coventry diz que o tratamento com quimioterapia mudou sua vida.
A moradora de Coventry diz que o tratamento com quimioterapia mudou sua vida.
Foto: BBC News Brasil

A investigação do RCP, que não identificou o professor Ian Brown, mas se referiu a ele como "Dr. Y", concluiu que, dos 20 casos analisados, 15 foram considerados "insatisfatórios de modo geral". O médico especialista não participou da investigação.

A equipe de investigação constatou que havia "poucas evidências" de que os riscos associados ao uso do medicamento fossem compreendidos e documentados.

As conclusões preliminares apontaram "curiosidade clínica insuficiente" em alguns casos e falta de colaboração com colegas de outras especialidades, o que permitiu que possíveis erros de diagnóstico persistissem.

Jones descreveu as conclusões como "chocantes".

"Não se trata apenas do que ele fez, mas de como permitiram que ele agisse sozinho durante tanto tempo", acrescentou.

"É quase como se ele estivesse comandando tudo sozinho e não houvesse ninguém para acompanhar o que estava fazendo."

Mais investigações

Um porta-voz do UHCW afirmou que todos os pacientes afetados foram avaliados por médicos experientes, "com planos de tratamento adequados implementados".

"Também estamos realizando uma revisão independente dos nossos processos para que funcionários possam relatar preocupações, conduzida por uma parte independente, para garantir que a equipe se sinta plenamente apoiada e confiante para levantar qualquer preocupação.

"O hospital analisará a íntegra da investigação do RCP quando ela for publicada e tomará outras medidas apropriadas com base em suas conclusões.

"Queremos tranquilizar nossa comunidade de que a segurança, a experiência e o bem-estar dos pacientes continuam sendo nossas principais prioridades", acrescentou o hospital.

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