Enjoo do movimento na infância pode virar enxaqueca na vida adulta
Dos pacientes com enxaqueca e sintomas vestibulares, como a tontura, 73,6% apresentou cinetose (enjoo do movimento) durante a infância
Estudo brasileiro aponta que 73,6% dos pacientes com enxaqueca e sintomas vestibulares na vida adulta apresentaram cinetose na infância, sugerindo uma relação entre as condições e destacando a importância do diagnóstico precoce.
A enxaqueca é muito mais do que a dor de cabeça. E muitos pacientes sofrem com sintomas vestibulares, como tontura e enjoo do movimento. Um estudo brasileiro, que será apresentado em setembro no Congresso Internacional de Cefaleia, mostrou que dos pacientes com enxaqueca e quadros vestibulares na vida adulta, cerca de 73,6% apresentou cinetose, conhecida como enjoo do movimento, durante a infância.
“Os achados deste estudo são consistentes com evidências na literatura que sugerem a cinetose como um marcador precoce de hipersensibilidade sensorial e disfunção vestibular em indivíduos predispostos à enxaqueca. Pacientes com cinetose costumam apresentar quadros de enjoo, sudorese, tontura, sonolência e dor de cabeça em viagens de carro ou em navios, mesmo em trajetos mais curtos. Os sintomas são desencadeados quando há algum conflito nas informações sensoriais relacionadas à visão, ao equilíbrio e à orientação espacial. Além dos meios de transporte, existem diversas outras situações em que o problema pode ocorrer, incluindo brinquedos de parque de diversão, ao assistir vídeos com movimentos rápidos ou jogar videogames com perspectiva em primeira pessoa”, comenta o neurologista Tiago de Paula, autor principal do estudo e especialista em Cefaleia pela Escola Paulista de Medicina (EPM/UNIFESP), membro da International Headache Society (IHS) e da Sociedade Brasileira de Cefaleia (SBC).
“Infelizmente, muitas vezes essas crianças são diagnosticadas com labirintite, mas não é nada disso. É a tontura da própria enxaqueca que, se diagnosticada precocemente, pode ser tratada e conferir melhor qualidade de vida a esse paciente durante a vida”, completa o médico.
O estudo retrospectivo é baseado na análise de 780 prontuários eletrônicos de pacientes com diagnóstico de enxaqueca crônica, atendidos entre agosto de 2020 e abril de 2025 em uma clínica privada, o Headache Center Brasil, São Paulo. O número de pacientes com sintomas vestibulares foi de 592 (75,8%). Destes, 436 (73,6%) relataram cinetose infantil. O neurologista explica que os mecanismos fisiopatológicos propostos incluem hipersensibilidade vestibular central e hiperexcitabilidade cortical.
“A cinetose e a enxaqueca vestibular compartilham alterações na integração multissensorial envolvendo os sistemas visual, vestibular e somatossensorial. Pacientes com enxaqueca demonstram maior ativação do córtex temporoparietal e das áreas vestibulares em resposta a estímulos de movimento, resultando em sintomas de náusea e vertigem”, diz o médico.
“Tanto a enxaqueca quanto a cinetose estão associadas à disfunção nos limiares de excitação cortical. Indivíduos com limiares de resposta neuronal mais baixos a estímulos sensoriais apresentam maior risco de desenvolver ambas as condições. Essa hiperexcitabilidade parece ser uma característica genética e está associada a alterações na neurotransmissão, particularmente envolvendo glutamato e serotonina. Esses mecanismos demonstram como a cinetose pode ser considerada uma manifestação precoce de um fenótipo sensorial alterado, que persiste e evolui ao longo de diferentes estágios da vida”, acrescenta.
Com base nos resultados do estudo, há uma alta prevalência de cinetose na infância entre pacientes adultos com sintomas vestibulares, sugerindo uma possível continuidade de manifestações sensoriais anormais ao longo da vida.
“A sobreposição de mecanismos fisiopatológicos, como hiperexcitabilidade cortical, integração sensorial alterada e disfunção vestibular central, pode explicar essa correlação. Um histórico de cinetose deve ser considerado um marcador clínico importante na avaliação de pacientes com tontura associada à enxaqueca. Com essa identificação precoce, é possível investigar se o paciente tem enxaqueca e minimizar os sintomas dessa doença durante a vida”, finaliza Tiago de Paula.
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