Doenças da tireoide são comuns, mas ainda pouco diagnosticadas
Distúrbios da tireoide afetam milhões de brasileiros, mas sintomas inespecíficos atrasam o diagnóstico e o início do tratamento
A tireoide é uma pequena glândula localizada na base do pescoço, mas sua atuação é decisiva para o funcionamento do organismo. Ela regula o metabolismo, influencia o sistema cardiovascular, interfere no eixo neuropsíquico e participa da saúde óssea.
Ainda assim, as doenças da tireoide seguem entre as mais subdiagnosticadas na prática clínica, mesmo sendo altamente prevalentes.
Hipotireoidismo, hipertireoidismo e nódulos tireoidianos impactam a saúde pública e a qualidade de vida. O problema é que os sinais costumam ser vagos e facilmente confundidos com outras condições, como estresse, ansiedade ou envelhecimento.
"As disfunções tireoidianas, como hipotireoidismo ou hipertireoidismo, nem sempre têm diagnóstico fácil; devemos lembrar da possibilidade de doenças da tireoide, pautada em uma boa avaliação clínica, no dia a dia do consultório", afirma o endocrinologista Dr. Adriano Cury, do Alta Diagnósticos (Dasa).
Um problema mais frequente do que parece
Dados do Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (ELSA-Brasil), que acompanha mais de 15 mil brasileiros, mostram que alterações da função tireoidiana são eventos frequentes, inclusive nas formas subclínicas. Ou seja: muitas pessoas já apresentam mudanças hormonais sem perceber.
Esses achados reforçam que as doenças da tireoide:
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não são raras;
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não se restringem a grupos muito específicos;
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têm impacto sobre o risco cardiovascular, a saúde óssea e a qualidade de vida.
Por que o diagnóstico ainda é um desafio?
O principal obstáculo está na inespecificidade dos sintomas. Queixas comuns como cansaço persistente, variação de peso, alterações de humor, dor articular, queda de cabelo e intolerância ao frio ou ao calor podem ser atribuídas a diversos problemas de saúde.
"O olhar atento do médico generalista, aliado à solicitação adequada e racional de exames-chave, é crucial para confirmar a suspeita diagnóstica", reforça o Dr. Cury.
Consequências quando não há tratamento
Sistema cardiovascular
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Hipertireoidismo em pessoas acima de 65 anos pode levar à fibrilação atrial e à piora da insuficiência cardíaca.
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Hipotireoidismo, inclusive subclínico, relaciona-se a alterações do colesterol e da pressão arterial, aumentando o risco cardiovascular.
Saúde óssea
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O hipertireoidismo, mesmo na forma subclínica, está associado à redução da densidade mineral óssea e maior risco de fraturas, especialmente em mulheres na pós-menopausa.
E os nódulos da tireoide?
A presença de nódulos é comum na prática ambulatorial. A maioria é benigna, mas uma pequena parcela pode ser maligna. O aumento dos diagnósticos de câncer de tireoide está relacionado, em grande parte, ao maior uso de exames de imagem e à identificação de microcarcinomas.
Quem deve ter atenção redobrada?
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Gestantes e mulheres em idade reprodutiva: disfunções, mesmo leves, podem impactar a gestação e o desenvolvimento do bebê.
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Pessoas com doenças autoimunes: como diabetes tipo 1, lúpus e artrite reumatoide.
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Quem apresenta sintomas persistentes sem explicação: fadiga intensa, alterações de peso, depressão ou ansiedade refratárias, palpitações, queda de cabelo acentuada.
"O rastreamento da função tireoidiana em alguns grupos não deve ser visto como um exame de rotina sem propósito, mas como uma oportunidade de diagnóstico", diz o especialista.
Como é feito o diagnóstico
A investigação começa, geralmente, com a dosagem de TSH, complementada por T4 livre (e, quando necessário, T3).
Em suspeita de doenças autoimunes, solicitam-se anti-TPO, anti-TG e TRAb.
A ultrassonografia é o exame de imagem de escolha para avaliar estrutura e nódulos. Em casos indicados, realiza-se a punção aspirativa por agulha fina (PAAF).
"O médico tem hoje ferramentas laboratoriais e de imagem muito bem validadas. O ponto crítico é lembrar de suspeitar da doença", conclui o Dr. Cury.