Do macarrão às terapias: como entender o Alzheimer ajuda a frear sua progressão
Mais de 100 anos depois de descoberto, o Azheimer ainda nãotem cura, mas hoje já compreendemos melhor os fatores de risco e as mudanças cerebrais que acontecem na doença
Imagine você cozinhando um talharim em casa: se ele não for cozido nas condições ideais, existe a possibilidade de colar um no outro formando uma massa difícil de comer. Algo similar acontece com a doença de Alzheimer.
Sabemos, por exemplo, que os cérebros dos pacientes de Alzheimer acumulam duas proteínas que caracterizam a doença: b-amiloide (presentes nas lesões conhecidas como placas amiloides) e tau (componentes dos emaranhados neurofibrilares).
Embora todos nós tenhamos essas proteínas em nossos cérebros desde que nascemos, elas adquirem formatos anormais no cérebro de pacientes.
No caso dos pacientes, a b-amiloide e tau no cérebro formam grumos que deixam de ter sua função correta e ainda contribuem para que as células cerebrais, incluindo os neurônios, funcionem mal.
Isso leva à dificuldade de comunicação entre os neurônios através das sinapses. Tais mudanças começam a acontecer anos ou décadas antes de os sintomas iniciais aparecerem.
A descoberta
O primeiro relato de doença de Alzheimer foi feito em 1906 pelo psiquiatra alemão que dá nome à doença: Alois Alzheimer. O Dr. Alzheimer era, além de médico, um cientista que havia recebido treinamento com importantes cientistas da época na Alemanha: Franz Nissl e Emil Kraepelin.
Quando o Dr. Alzheimer atendia no asilo de Frankfurt, ele recebeu o caso da paciente Auguste Deter, uma paciente em torno dos seus 50 anos apresentando confusão mental, mudança de comportamento, além de perda de memória progressiva. A paciente faleceu em 1906 e o Dr. Alois Alzheimer teve acesso ao seu cérebro.
Com o conhecimento científico que tinha, Alois Alzheimer fez associações que até hoje são consideradas características fundamentais da doença de Alzheimer.
Ele observou que regiões do cérebro de Auguste estavam atrofiadas, com menor quantidade de neurônios que o esperado, além de descrever dois tipos de lesão conhecidas como placas senis (ou placas amiloides) e emaranhados neurofibrilares.
A apresentação desse curioso caso em um congresso de psiquiatria na Alemanha ficou marcada como o primeiro registro da doença.
Hoje, sabe-se que os pacientes com Alzheimer possuem comprometimento cognitivo progressivo que evolui para afetar outras funções cerebrais como humor, capacidade executiva, entre outras, até causar perda de autonomia e, eventualmente, levar ao óbito.
A era das terapias anti-amiloide
Embora ainda não tenhamos uma cura mais de cem anos desde a descrição original do Alzheimer, a ciência avançou consideravelmente.
Desde a década de 80 do século passado, a ciência tem investido bastante esforços em compreender o Alzheimer.
Hoje entendemos melhor os fatores de risco, as mudanças cerebrais que acontecem na doença e como identificá-la melhor.
É natural imaginar, portanto, que muito esforço da ciência e da medicina tem se concentrado em buscar terapias que eliminem os grumos de b-amiloide e tau.
No início dos anos 2000, trabalhos influentes na área demonstraram que o uso de anticorpos monoclonais para sequestrar o b-amiloide e direcioná-lo para eliminação tinham efeito terapêutico em animais de laboratório com sintomas de Alzheimer. Esse foi o começo do que chamamos de imunoterapias anti-amiloide.
Depois de muito mais pesquisas e do envolvimento de companhias farmacêuticas, um novo medicamento para Alzheimer - o primeiro desde 2003 - foi aprovado de forma controversa pela agência norte-americana Food and Drug Administration (FDA) para uso em humanos em 2021.
Ele se chamava Aducanumab e, embora eficiente para reduzir as placas amiloides nos pacientes, o seu uso clínico mostrou que ele ainda não era tão eficiente para atenuar os sintomas da doença.
O que parecia um balde de água fria, entretanto, era o começo de uma nova geração de medicamentos anti-amiloide com eficácia cada vez maior.
Poucos anos depois, dois novos medicamentos (Donanemab e Lecanemab) se mostraram também eficazes em reduzir as placas amiloides e outros marcadores do Alzheimer, bem como foram os primeiros a atuar nas causas da doença e reduzir sua progressão.
É verdade que os efeitos ainda são modestos. Redução média de 30-35% da progressão em um intervalo de 18 meses em estágios iniciais da doença. E a cura ainda não existe, mas tais avanços são animadores.
Ambos os medicamentos foram aprovados pela FDA e, em 2025, pela Anvisa no Brasil.
Há de se fazer uma ressalva: esses medicamentos ainda têm um custo bastante elevado e não são indicados para todos os pacientes. Os médicos precisam fazer uma análise bem cuidadosa para prescrever esse tratamento.
Ciência brasileira no estudo do Alzheimer
Além de novos e mais eficazes tratamentos, precisamos investigar abordagens diagnósticas mais precisas, estratégias de prevenção mais aplicáveis e também entender melhor ainda como a doença se instala e evolui.
Neste aspecto, algo que devemos comemorar é o destaque que laboratórios brasileiros vêm tendo ao longo da última década dentre a comunidade científica na doença de Alzheimer e demências relacionadas.
Nosso grupo na UFRJ demonstrou, por exemplo, um então desconhecido mecanismo através do qual o exercício físico protege o cérebro contra os processos neurodegenerativos no Alzheimer.
A irisina é um hormônio produzido tanto pelos músculos quanto pelo cérebro durante o exercício físico.
Ela atua nas nossas células cerebrais e fortalece a comunicação entre os neurônios. Isso é importante porque o sedentarismo é um dos diversos fatores de risco modificáveis para reduzirmos a chance de se desenvolver Alzheimer.
Além do nosso, outros grupos de pesquisa de instituições brasileiras, como na UFRGS, na USP e na UFMG têm também feito contribuições muito importantes para entendermos o que acontece na doença, inclusive fatores de risco e estratégias de manejo.
Por que entender o Alzheimer no Brasil exige dados brasileiros?
Muitas das informações que temos sobre o Alzheimer foram geradas no exterior, notavelmente em polos de pesquisa como Estados Unidos, Suécia e Reino Unido.
Logo, é possível imaginar que nem tudo que se descobriu nesses países se aplique diretamente à população brasileira, que é culturalmente e geneticamente diversa. Assim, muito do esforço mais recente dos pesquisadores brasileiros tem se dedicado a conhecer nossa população.
Essa abordagem já vem gerando frutos: hoje sabemos os principais fatores de risco modificáveis no Brasil e já estamos validando biomarcadores sanguíneos nos brasileiros.
Além disso, uma lei instituindo um plano nacional de cuidado e pesquisa em demências foi sancionada pelo Governo Federal em 2024 e a comunidade científica e médica tem discutido com interesse as formas de implementação dessa política.
Este é um momento de bastante esperança e ação para melhorarmos o tratamento e o cuidado com os pacientes com demência e devemos nos orgulhar que os cientistas brasileiros estão contribuindo para a vanguarda do conhecimento na área.
Longevidade
A longevidade humana aumenta cada vez mais em todo o mundo. A expectativa de vida média ao nascer em 1970 era de 58 anos, enquanto hoje ela já chega a 73 anos.
No Brasil, segundo dados do IBGE, ela chegou a 76,6 anos em 2025. À medida em que as pessoas envelhecem, aumenta-se o risco de doenças crônicas e degenerativas.
Embora não existam dados oficiais precisos no Brasil, diversos estudos estimam que mais de 2 milhões de idosos sofrem com demência no nosso país, boa parte (60-70% dos casos) em função do Alzheimer.
Ainda, há a justificada preocupação com o aumento da sua prevalência no país, um fenômeno que também se repete em diversas nações em desenvolvimento que têm sua população envelhecendo ao mesmo tempo em que ainda não conseguem oferecer condições socioeconômicas melhores aos seus cidadãos.
Por isso, a doença de Alzheimer, a causa mais comum que leva à demência em idosos, deve sempre receber apoio de instituições de pesquisa e agências de fomento.
Somos extremamente gratos ao financiamento das pesquisas sobre Alzheimer em nosso país e que tem recebido apoio de agências públicas de fomento, incluindo CNPq, Capes, Fapergs, Faperj, Fapes, Finep e pelo Ministério da Saúde.
Além disso, agências privadas de financiamento à ciência como a Alzheimer's Association, o Instituto Serrapilheira e a Iniciativa Ciência Pioneira do Instituto D'Or de Pesquisa e Ensino têm também contribuído com recursos para projetos de pesquisa sem fins lucrativos na área.
Mychael Lourenço recebe financiamento de pesquisa de Alzheimer's Association, CNPq, FAPERJ, CAPES, Iniciativa Ciência Pioneira (IDOR, Instituto Serrapilheira e Ministério da Saúde.