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Dá pra saber se alguém é fiel pela genética? A ciência explica

Estudos indicam predisposições biológicas para certos comportamentos, mas especialistas reforçam que genética não determina escolhas

21 jan 2026 - 13h13
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A fidelidade sempre foi tratada como uma questão moral. Também cultural.

A genética pode indicar predisposições comportamentais, mas não define fidelidade ou traição
A genética pode indicar predisposições comportamentais, mas não define fidelidade ou traição
Foto: Shutterstock / Saúde em Dia

E profundamente emocional.

Costuma estar ligada a valores pessoais, educação e experiências de vida. Mas, nas últimas décadas, a ciência passou a investigar uma pergunta incômoda: existe uma base genética que influencia a propensão à infidelidade?

A resposta não é simples. E está longe das promessas que circulam em testes genéticos disponíveis na internet.

Segundo pesquisadores, a genética pode indicar predisposições comportamentais. Mas ela não define se alguém será fiel ou infiel.

O comportamento humano é complexo. Ele envolve cérebro, ambiente, história pessoal e escolhas conscientes.

O que a ciência já investigou sobre genética e infidelidade

Um dos estudos mais citados sobre o tema foi publicado em 2004.

A pesquisa, conduzida por Cherkas e colaboradores, analisou gêmeas no Reino Unido.

O objetivo era entender o peso da hereditariedade em comportamentos sexuais.

Os dados chamaram atenção.

Cerca de 41% da variância do comportamento de infidelidade feminina apresentou influência genética.

Já o número de parceiros sexuais teve aproximadamente 38% de herdabilidade.

Esses números costumam gerar interpretações equivocadas.

O principal ponto é que não foi identificado um "gene da traição". O que se observou foi a influência genética em traços comportamentais associados ao comportamento sexual.

Predisposição não é sentença

De acordo com o neurocientista Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues, o erro mais comum é transformar dados científicos em conclusões deterministas.

"O erro mais comum é achar que existe um gene da infidelidade. O que a genética mostra são predisposições comportamentais que, em determinados contextos ambientais, podem facilitar ou dificultar certos padrões de conduta", explica.

Fabiano é pós-PhD em Neurociências.

Também é especialista em genômica comportamental.

Ele é diretor do CPAH - Centro de Pesquisa e Análises Heráclito.

E criador do Genetic Intelligence Project (GIP).

Segundo o pesquisador, fidelidade é um comportamento poligênico.

Ou seja, envolve múltiplos genes.

Esses genes influenciam diferentes funções cerebrais.

Não atuam de forma isolada.

O mito do "gene da traição"

Nos últimos anos, ganhou força a ideia de que o gene AVPR1A poderia explicar comportamentos de apego e infidelidade.

Esse gene está ligado ao receptor de vasopressina.

Um neurotransmissor relacionado a vínculos sociais.

Apesar da popularização dessa narrativa, os estudos científicos não confirmaram essa associação de forma consistente.

Pesquisas posteriores indicaram que a relação entre variantes do AVPR1A e infidelidade conjugal é fraca.

Ou inconsistente.

Não há base científica para usá-lo como marcador confiável de fidelidade.

"Usar um único gene para explicar um comportamento tão complexo quanto a fidelidade é cientificamente incorreto", afirma Fabiano.

"Isso ignora o funcionamento integrado do cérebro, da genética e do ambiente."

Quais traços a genética pode influenciar

Embora não exista um gene da infidelidade, a genética pode influenciar características que afetam decisões afetivas e comportamentais.

Entre elas estão:

  • impulsividade e controle inibitório

  • busca por novidade e sensibilidade à dopamina

  • regulação emocional

  • resposta ao estresse

  • tendência a comportamentos compulsivos

Esses traços estão ligados a regiões como o córtex pré-frontal, responsável por planejamento e autocontrole.

E também ao sistema de recompensa, associado ao prazer e à motivação.

Ter essas predisposições não determina ações.

Apenas altera o nível de esforço necessário para manter certos comportamentos.

O que o Genetic Intelligence Project analisa

O Genetic Intelligence Project (GIP) não tem como objetivo prever comportamentos.

Ele não indica se alguém será fiel ou infiel.

O projeto cruza dados genéticos com modelos neurocientíficos e comportamentais.

O foco está em tendências, não em destinos.

São avaliados conjuntos de variantes genéticas relacionadas a:

  • controle emocional

  • tomada de decisão

  • impulsividade

  • resposta à recompensa

  • padrões compulsivos

O resultado são relatórios de predisposição estatística.

Nunca diagnósticos.

Nem previsões absolutas.

"Falamos de risco e tendência, não de destino. A genética pode inclinar o terreno, mas não constrói a casa", resume o pesquisador.

Educação e ambiente ainda são decisivos

Especialistas reforçam que fidelidade tem forte relação com aprendizado social.

Modelos familiares, valores culturais e experiências afetivas moldam o comportamento ao longo da vida.

Mesmo pessoas com predisposição genética à impulsividade podem desenvolver autocontrole sólido.

Isso acontece quando são expostas a:

  • limites claros

  • exemplos positivos

  • educação emocional

  • ambientes estruturados

O cérebro é plástico.

Ele aprende.

Ele se adapta.

"O mesmo cérebro com predisposição à impulsividade pode desenvolver autocontrole se for exposto a bons modelos e referências afetivas", explica Fabiano.

Ciência não serve para vigiar relacionamentos

O avanço da genética comportamental não tem como objetivo alimentar paranoia.

Muito menos criar ferramentas de vigilância emocional.

A proposta é ampliar o autoconhecimento.

E apoiar intervenções educativas, terapêuticas ou de desenvolvimento pessoal.

"A genética não serve para acusar, serve para compreender. Quando usada com ética, ela ajuda a explicar por que algumas pessoas precisam de mais estrutura, limites e autoconsciência", afirma o pesquisador.

Em um tema tão sensível quanto fidelidade, a ciência deixa um recado claro.

Não existe gene da traição.

Existe um cérebro moldado por genes, ambiente e escolhas.

E, até hoje, nenhuma análise genética substitui diálogo, responsabilidade emocional e caráter.

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