Dá pra saber se alguém é fiel pela genética? A ciência explica
Estudos indicam predisposições biológicas para certos comportamentos, mas especialistas reforçam que genética não determina escolhas
A fidelidade sempre foi tratada como uma questão moral. Também cultural.
E profundamente emocional.
Costuma estar ligada a valores pessoais, educação e experiências de vida. Mas, nas últimas décadas, a ciência passou a investigar uma pergunta incômoda: existe uma base genética que influencia a propensão à infidelidade?
A resposta não é simples. E está longe das promessas que circulam em testes genéticos disponíveis na internet.
Segundo pesquisadores, a genética pode indicar predisposições comportamentais. Mas ela não define se alguém será fiel ou infiel.
O comportamento humano é complexo. Ele envolve cérebro, ambiente, história pessoal e escolhas conscientes.
O que a ciência já investigou sobre genética e infidelidade
Um dos estudos mais citados sobre o tema foi publicado em 2004.
A pesquisa, conduzida por Cherkas e colaboradores, analisou gêmeas no Reino Unido.
O objetivo era entender o peso da hereditariedade em comportamentos sexuais.
Os dados chamaram atenção.
Cerca de 41% da variância do comportamento de infidelidade feminina apresentou influência genética.
Já o número de parceiros sexuais teve aproximadamente 38% de herdabilidade.
Esses números costumam gerar interpretações equivocadas.
O principal ponto é que não foi identificado um "gene da traição". O que se observou foi a influência genética em traços comportamentais associados ao comportamento sexual.
Predisposição não é sentença
De acordo com o neurocientista Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues, o erro mais comum é transformar dados científicos em conclusões deterministas.
"O erro mais comum é achar que existe um gene da infidelidade. O que a genética mostra são predisposições comportamentais que, em determinados contextos ambientais, podem facilitar ou dificultar certos padrões de conduta", explica.
Fabiano é pós-PhD em Neurociências.
Também é especialista em genômica comportamental.
Ele é diretor do CPAH - Centro de Pesquisa e Análises Heráclito.
E criador do Genetic Intelligence Project (GIP).
Segundo o pesquisador, fidelidade é um comportamento poligênico.
Ou seja, envolve múltiplos genes.
Esses genes influenciam diferentes funções cerebrais.
Não atuam de forma isolada.
O mito do "gene da traição"
Nos últimos anos, ganhou força a ideia de que o gene AVPR1A poderia explicar comportamentos de apego e infidelidade.
Esse gene está ligado ao receptor de vasopressina.
Um neurotransmissor relacionado a vínculos sociais.
Apesar da popularização dessa narrativa, os estudos científicos não confirmaram essa associação de forma consistente.
Pesquisas posteriores indicaram que a relação entre variantes do AVPR1A e infidelidade conjugal é fraca.
Ou inconsistente.
Não há base científica para usá-lo como marcador confiável de fidelidade.
"Usar um único gene para explicar um comportamento tão complexo quanto a fidelidade é cientificamente incorreto", afirma Fabiano.
"Isso ignora o funcionamento integrado do cérebro, da genética e do ambiente."
Quais traços a genética pode influenciar
Embora não exista um gene da infidelidade, a genética pode influenciar características que afetam decisões afetivas e comportamentais.
Entre elas estão:
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impulsividade e controle inibitório
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busca por novidade e sensibilidade à dopamina
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regulação emocional
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resposta ao estresse
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tendência a comportamentos compulsivos
Esses traços estão ligados a regiões como o córtex pré-frontal, responsável por planejamento e autocontrole.
E também ao sistema de recompensa, associado ao prazer e à motivação.
Ter essas predisposições não determina ações.
Apenas altera o nível de esforço necessário para manter certos comportamentos.
O que o Genetic Intelligence Project analisa
O Genetic Intelligence Project (GIP) não tem como objetivo prever comportamentos.
Ele não indica se alguém será fiel ou infiel.
O projeto cruza dados genéticos com modelos neurocientíficos e comportamentais.
O foco está em tendências, não em destinos.
São avaliados conjuntos de variantes genéticas relacionadas a:
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controle emocional
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tomada de decisão
-
impulsividade
-
resposta à recompensa
-
padrões compulsivos
O resultado são relatórios de predisposição estatística.
Nunca diagnósticos.
Nem previsões absolutas.
"Falamos de risco e tendência, não de destino. A genética pode inclinar o terreno, mas não constrói a casa", resume o pesquisador.
Educação e ambiente ainda são decisivos
Especialistas reforçam que fidelidade tem forte relação com aprendizado social.
Modelos familiares, valores culturais e experiências afetivas moldam o comportamento ao longo da vida.
Mesmo pessoas com predisposição genética à impulsividade podem desenvolver autocontrole sólido.
Isso acontece quando são expostas a:
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limites claros
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exemplos positivos
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educação emocional
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ambientes estruturados
O cérebro é plástico.
Ele aprende.
Ele se adapta.
"O mesmo cérebro com predisposição à impulsividade pode desenvolver autocontrole se for exposto a bons modelos e referências afetivas", explica Fabiano.
Ciência não serve para vigiar relacionamentos
O avanço da genética comportamental não tem como objetivo alimentar paranoia.
Muito menos criar ferramentas de vigilância emocional.
A proposta é ampliar o autoconhecimento.
E apoiar intervenções educativas, terapêuticas ou de desenvolvimento pessoal.
"A genética não serve para acusar, serve para compreender. Quando usada com ética, ela ajuda a explicar por que algumas pessoas precisam de mais estrutura, limites e autoconsciência", afirma o pesquisador.
Em um tema tão sensível quanto fidelidade, a ciência deixa um recado claro.
Não existe gene da traição.
Existe um cérebro moldado por genes, ambiente e escolhas.
E, até hoje, nenhuma análise genética substitui diálogo, responsabilidade emocional e caráter.