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Copa do Mundo: por que ela mexe tanto com nossas emoções?

A ciência explica as razões de o corpo manifestar alterações, como batimentos cardíacos acelerados, e o sentimento de pertencimento trazido pelo campeonato

24 nov 2022 - 05h10
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A Copa do Mundo pode mexer com as emoções e ir além de um simples desejo de torcer para a seleção brasileira. Os batimentos cardíacos aceleram, a mão começa a transpirar, a respiração se torna ofegante e os olhos grudam na televisão para não perder nenhum detalhe. É, de fato, uma paixão nacional, que move pessoas de diferentes idades, religiões, classes sociais, etnias e culturas. Mas por que o campeonato causa tantas alterações no nosso emocional?

A ciência indica algumas possibilidades. Segundo Bruna Petrucelli, psicóloga e doutoranda em Neurociência e Cognição pela Universidade Federal do ABC (UFABC), a intensidade das emoções é determinada pelo significado que o esporte tem para cada indivíduo. É por isso que pessoas apaixonadas por Copa do Mundo costumam ter emoções mais intensas durante os jogos.

A forma como processamos essa situação também influencia. Conforme explica a psicóloga, o cérebro dos torcedores fanáticos costuma identificar os contextos dos jogos da Copa do Mundo como uma ameaça. "É como se toda a expectativa por uma boa performance dos jogadores e pela vitória da seleção exigisse um estado de alerta constante."

Na tentativa de se defender dessa condição, nosso organismo começa a produzir uma série de hormônios que são responsáveis por alguns sintomas comuns entre torcedores, como aumento dos batimentos cardíacos, suor excessivo, dificuldade para respirar e tensão muscular.

'Chorei em todas as Copas do Mundo'

O influenciador Tutti Batista, de 21 anos, conhece bem esses sintomas, que o acompanham em toda partida da seleção brasileira que ele assiste. Ainda que seu nervosismo se manifeste em silêncio, a mão suada entrega a tensão. E não haveria como ser diferente. Tutti é um daqueles torcedores fanáticos pelo futebol, que coleciona camisetas, acompanha todos os jogos e sofre com cada um deles. Sua primeira lembrança com o esporte é de chorar, sentado no chão da sala de sua casa, com a derrota do Brasil na Copa de 2010 - situação que se repetiu em todas as outras a partir dessa. "Você nunca quer ver seu país fora da competição e, como eu sou muito emotivo, chorei em todas as Copas do Mundo."

A paixão de Tutti pelo esporte é tão grande que ele não descarta uma viagem de última hora ao Catar. Ele quer assistir de perto aos jogos do Brasil e, se tudo der certo, ver a seleção que tanto ama carregar a taça de hexacampeã. "Eu quero viver isso, mas ainda estou estudando as possibilidades", diz. De qualquer forma, ele sabe que a emoção sentida será a mesma, independente de onde estiver. "Parece coisa de doido, mas só quem sente entende."

A ciência explica

Tudo começa quando o sistema límbico - região do cérebro responsável pelo controle emocional - reconhece essa situação causada pela partida de futebol. O sistema começa a enviar mensagens para outra parte do cérebro, o hipotálamo, que, por sua vez, sinaliza essa situação para glândulas localizadas acima dos rins que vão começar produzir hormônios como adrenalina e cortisol. "O aparecimento de determinadas emoções é resultado dessa cascata de eventos na nossa mente", explica Bruna.

Nessas situações, a adrenalina é a primeira a ser produzida. "Ela gera o aumento da nossa frequência cardíaca, da nossa respiração e deixa nossos músculos mais tensionados", diz a psicóloga. Junto com a adrenalina, a norepinefrina também começa a ser produzida. O papel dela é parecido com o da adrenalina, porém, com um efeito maior na sensação de excitação. "Esse hormônio também costuma aparecer quando as pessoas estão apaixonadas", conta. Já o cortisol, conhecido como o hormônio do estresse, tem sua produção iniciada alguns minutos depois. A função dele é preparar nosso corpo para situações de fuga ou luta.

Mirella Gualtieri, psicóloga do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IPUSP), explica que a Copa do Mundo é responsável pela construção de memórias muito sólidas. E isso se deve a três fatores: é uma experiência vivida em conjunto com outras pessoas; em geral, está carregada de emoção; e acontece de forma frequente, que permite a retomada dos sentimentos vividos a cada quatro anos. Essas vivências são armazenadas na nossa memória e constituem a relação que estabelecemos com o esporte.

Por isso, a paixão ou a indiferença pelo futebol pode ser explicada pelas memórias que a pessoa carrega, em especial quando as recordações são da infância que, conforme avalia Mirella, são as mais marcantes que podem ser experimentadas ao longo da vida.

Sentimento de pertencimento

A paixão também é justificada pelo senso de pertencimento. A psicóloga Mirella explica que esse sentimento aparece quando uma sequência de pessoas compartilha uma mesma experiência e se identifica por conta dela. Algo que tem tudo a ver com o futebol. Por ser um dos esportes mais importantes do País há décadas, ele tem influência na vida de pessoas de diferentes gerações. Essa influência foi transmitida ao longo dos anos: do seu avô, que passou para o seu pai, que passou para você, que vai passar para os seus filhos. "É por meio desse contexto de transmissão de cultura que definimos o que é se sentir pertencente a um grupo", avalia.

Renato Machado, morador da Vila Esperança, na Zona Leste de São Paulo, cresceu pintando as ruas de verde e amarelo durante a Copa do Mundo. "Quando eu era criança eu sentia essa união e esperança que a Copa traz. Lembrava que o jogador da Copa já foi um de nós, também já pintou a rua, também já torceu para a seleção", revela ele, que é um dos líderes do Favela Chic, associação que há 18 anos oferece suporte aos moradores da comunidade.

Mas, conforme crescia, assistiu essa tradição se perder junto com o espírito de união e coletividade entre os moradores do bairro. Foi na tentativa de resgatar esse sentimento que ele mobilizou toda a vizinhança para arregaçar as mangas e fazer a pintura, realizada em dois finais de semana. "Assim como a Copa, pintar as ruas traz esperança e permite a união das pessoas. É uma forma de resgatar uma tradição que sempre nos fez bem."

Mirella explica que, de fato, sentir-se parte de um grupo traz muitos benefícios, como aumentar nosso senso de proteção, segurança e conforto. "Quando fazemos parte de um grupo, o nosso alerta para detecção de sinais de perigo fica reduzido", afirma. Ela explica que o sentimento também faz com que se atinja um estado mental e físico mais relaxado. "Essa condição de bem-estar acaba nos deixando mais suscetíveis a perceber e comunicar emoções positivas ao invés de emoções negativas."

É possível controlar as emoções?

É diante de tantos significados e de uma importância histórica tão grande na vida de milhares de brasileiros que as emoções envolvendo a Copa do Mundo aparecem. Pode ser desafiador fazer o gerenciamento de todas elas, mas Marcelo Santos, psicólogo e docente da Universidade Presbiteriana Mackenzie, garante que é possível. Veja algumas recomendações.

  • Saiba como você é enquanto torcedor. O autoconhecimento é um ponto importante no processo de gerenciamento das emoções durante uma partida de futebol. Saber reconhecer se você é uma pessoa que costuma ser mais explosiva nessas situações é o primeiro passo. "Mas isso não é uma tarefa fácil para a maioria das pessoas", pondera Marcelo.
  • Faça pausas. Se a partida estiver mexendo muito com você, a recomendação é fazer uma pausa longe da televisão. Pode parecer difícil se distanciar da partida e correr o risco de perder um lance importante, mas o especialista garante que esse movimento ajuda no controle das emoções. "É bom sair, respirar um pouco, beber um copo de água", exemplifica.
  • Não abuse do álcool. O consumo de bebidas alcoólicas em excesso pode tornar mais difícil o gerenciamento das emoções durante a Copa. Isso porque o álcool tem potencial de aumentar a sensação de euforia e os batimentos cardíacos, que já ficam mais intensos nesses contexto. A recomendação é beber com cautela e acompanhado de um copo de água para hidratação.
  • Cuidado com o coração. "O gerenciamento das emoções nesse contexto é difícil, por isso é comum reações físicas, como o aceleramento dos batimentos cardíacos", diz. Caso apareça dor ou pressão na região do peito, a recomendação é procurar um médico.
  • Depois do jogo, tente relaxar. É comum que as pessoas compartilhem suas percepções sobre o jogo após o fim da partida, mas é importante ficar atento se essas conversas têm ou não potencial de aumentar o estresse e a tensão. "Se perceber que essas discussões podem gerar um adicional de estresse, é recomendado evitá-las", explica. O melhor é relaxar, buscar fazer outras atividades, de preferência com pessoas próximas, como família e amigos.
Estadão
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