"Caso de polícia": falsos médicos criados por IA viralizam entre idosos com dicas de saúde
Investigação identificou uma rede de canais que imita profissionais de saúde e alcança milhões de visualizações com conteúdo voltado principalmente ao público da terceira idade.
Médicos de jaleco, voz segura e aparência profissional estão acumulando milhões de visualizações na internet com orientações sobre doenças, alimentação e supostos tratamentos. O problema é que muitos deles não existem: são personagens criados por inteligência artificial.
Uma investigação da BBC Brasil revelou uma rede de canais no YouTube que utiliza avatares para simular profissionais de saúde e atingir principalmente pessoas idosas.
O levantamento partiu de uma pesquisa da organização CTRL+Z, que identificou 29 canais em português dedicados a esse tipo de conteúdo. Juntos, eles chegaram a pelo menos 70 milhões de visualizações, com produção estimada em cerca de dez vídeos por dia.
Ao comentar o caso, o jornalista Boris Casoy fez um alerta sobre os riscos da prática, especialmente diante de promessas de tratamentos e soluções milagrosas.
"Internet, caso de polícia, minha gente", afirmou.
Idosos acreditam nos falsos profissionais
A BBC analisou aproximadamente 27 mil comentários e encontrou relatos de pessoas que afirmaram seguir recomendações apresentadas nos vídeos.
Entre os exemplos estão usuários que disseram substituir medicamentos prescritos por alimentos ou produtos naturais e outros que interromperam tratamentos.
Uma mulher de 82 anos entrevistada pela reportagem contou que acreditou estar assistindo a um médico verdadeiro e só descobriu posteriormente que o personagem havia sido criado por IA.
Os vídeos costumam reproduzir consultórios, atribuir especializações aos personagens e apresentar relatos de supostos pacientes para aumentar a credibilidade.
Produção virou negócio
Além das visualizações, os canais podem lucrar com e-books, produtos e links de afiliados. A BBC também encontrou tutoriais ensinando a produzir esse material em grande escala e apresentando idosos como um público lucrativo.
Algumas estratégias recomendam títulos que despertem medo, urgência ou esperança para manter o espectador assistindo.
Especialistas alertam que esses conteúdos podem misturar informações corretas com exageros, pseudociência e orientações sem respaldo médico.
Juristas ouvidos pela BBC afirmam que a criação de conteúdo sobre saúde com IA não é necessariamente ilegal. O problema surge quando personagens fictícios se apresentam como médicos reais e passam a prescrever tratamentos, situação que pode envolver crimes como falsa identidade e exercício ilegal da medicina.
O Google afirmou que vídeos produzidos por IA também precisam seguir as políticas do YouTube contra desinformação médica. Após a investigação, alguns dos maiores canais identificados foram removidos; juntos, acumulavam cerca de 41 milhões de visualizações.
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