Cansaço e ganho de peso: quando a tireoide pode ser a causa
Fadiga persistente, mudanças no peso e alterações de humor podem parecer normais, mas também são sinais de disfunções na tireoide que merecem investigação
Sentir-se cansado o tempo todo, ganhar peso sem mudar a alimentação ou perceber oscilações de humor frequentes é algo comum no dia a dia.
O problema é que esses sintomas também podem indicar alterações na tireoide — uma pequena glândula localizada na base do pescoço, responsável por regular o metabolismo, o funcionamento do coração, o equilíbrio emocional e a saúde óssea.
Por serem sinais inespecíficos, muitos casos de hipotireoidismo e hipertireoidismo acabam demorando para ser diagnosticados.
"As disfunções tireoidianas, como hipotireoidismo ou hipertireoidismo, nem sempre têm diagnóstico fácil; devemos lembrar da possibilidade de doenças da tireoide pautada em uma boa avaliação clínica", afirma o endocrinologista Dr. Adriano Cury, do Alta Diagnósticos (Dasa).
Confira a matéria completa: "Doenças da tireoide são comuns, mas ainda pouco diagnosticadas"
Por que sintomas tão comuns podem esconder um problema hormonal?
Os hormônios produzidos pela tireoide atuam em praticamente todo o organismo. Quando estão em excesso (hipertireoidismo) ou em falta (hipotireoidismo), o corpo inteiro sente os efeitos.
O desafio é que os sinais iniciais imitam queixas de outras condições, como estresse, depressão, alterações do sono e até o próprio envelhecimento.
Entre os sintomas mais relatados estão:
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cansaço persistente e falta de energia;
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ganho ou perda de peso sem causa aparente;
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alterações de humor, ansiedade ou desânimo;
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queda de cabelo e pele mais ressecada;
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intolerância ao frio ou ao calor;
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palpitações ou batimentos acelerados.
"São queixas comuns, muitas vezes atribuídas a outras comorbidades. Por isso, é fundamental lembrar da possibilidade de doenças da tireoide durante a avaliação clínica", reforça o Dr. Cury.
Quando é hora de investigar a tireoide?
Nem todo cansaço ou mudança de peso indica um problema hormonal. Mas alguns sinais merecem atenção especial:
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Sintomas persistentes, que não melhoram com mudanças de rotina ou tratamento habitual;
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Alterações de peso sem explicação, mesmo mantendo hábitos alimentares e atividade física;
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Mudanças emocionais intensas, como ansiedade, irritabilidade ou apatia sem causa definida;
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Histórico pessoal ou familiar de doenças da tireoide;
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Presença de bócio ou nódulos no pescoço.
Pessoas com doenças autoimunes, como diabetes tipo 1, lúpus e artrite reumatoide, também apresentam maior risco de desenvolver disfunções tireoidianas e devem manter acompanhamento.
O que pode acontecer se o problema passar despercebido?
Quando não diagnosticadas e tratadas, as doenças da tireoide podem trazer consequências importantes:
Coração e circulação
No hipertireoidismo, especialmente em pessoas acima de 65 anos, há maior risco de fibrilação atrial e piora da insuficiência cardíaca. Já o hipotireoidismo, inclusive na forma subclínica, pode provocar alterações do colesterol e da pressão arterial, aumentando o risco cardiovascular.
Ossos
O excesso de hormônios tireoidianos, mesmo discreto, está associado à redução da densidade mineral óssea e maior risco de fraturas, sobretudo em mulheres na pós-menopausa.
Qualidade de vida
Fadiga crônica, dificuldade de concentração e instabilidade emocional afetam o desempenho no trabalho, os relacionamentos e o bem-estar geral.
Como confirmar se a tireoide é a causa?
O primeiro passo costuma ser um exame de sangue para dosar o TSH, hormônio que indica se a tireoide está funcionando abaixo ou acima do normal. Quando necessário, o médico solicita T4 livre (e, em situações específicas, T3) para detalhar o quadro.
Em casos de suspeita de doença autoimune, podem ser pesquisados anticorpos como anti-TPO, anti-TG e TRAb. Se houver alteração no exame físico, como nódulos ou aumento da glândula, a ultrassonografia da tireoide é o método de imagem indicado.
"O olhar atento do médico generalista, aliado à solicitação adequada e racional de exames-chave, é crucial para confirmar a suspeita diagnóstica", explica o Dr. Cury.
Quem deve ter atenção redobrada?
Alguns grupos merecem vigilância mais sistemática:
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Mulheres em idade reprodutiva e gestantes: disfunções, mesmo leves, podem impactar a gestação e o desenvolvimento do bebê.
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Pessoas com doenças autoimunes: maior prevalência de tireoidite e alterações hormonais.
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Quem apresenta sintomas persistentes de difícil explicação: fadiga intensa, variações de peso, ansiedade ou depressão refratárias, palpitações e queda de cabelo acentuada.
"O rastreamento em grupos específicos não deve ser visto como um exame sem propósito, mas como uma oportunidade de diagnóstico e acompanhamento de uma condição que impacta diretamente a qualidade de vida", destaca o especialista.
Cansaço constante, ganho de peso e alterações de humor podem fazer parte da rotina moderna, mas não devem ser normalizados quando persistem. Em muitos casos, a causa está na tireoide — e o diagnóstico depende, sobretudo, de suspeita clínica e exames bem indicados.
Com identificação precoce e acompanhamento adequado, a maioria das disfunções tireoidianas pode ser controlada, reduzindo riscos e devolvendo qualidade de vida ao paciente.