Trauma na infância como de filha de Juca Kfouri pode gerar doenças; entenda riscos
Jornalista publicou uma homenagem à Camila Kfouri e citou problemas de saúde crônicos enfrentados por ela, que morreu aos 48 anos
O jornalista Juca Kfouri comunicou a morte da sua filha, Camila Kfouri, aos 48 anos, na tarde de segunda-feira, 26, em texto publicado em seu blog no UOL. No texto, o escritor cita o trauma da filha diante da perda do avô paterno quando tinha seis anos, fato que a acompanhou durante a vida e gerou uma série de sequelas para sua saúde. O caso abre espaço para o debate sobre os impactos que transtornos psicológicos têm para a saúde física e contribuem para o desenvolvimento de doenças crônicas.
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Juca Kfouri citou em sua publicação em homenagem à filha uma série de doenças que ela enfrentou ao longo da vida, entre elas as citadas disfunção de supra-renal, gordura em família longilínea, cirurgia bariátrica, compulsão e neuropatia diabética. A reportagem do Terra ouviu Alaor Carlos de Oliveira Neto, head do serviço de psiquiatria do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, para entender a correlação entre transtornos psíquicos e os efeitos físicos no corpo humano.
O especialista explica que, para a literatura médica, não há como fazer uma separação sobre as manifestações psíquicas e físicas. O psiquiatra reitera que traumas, principalmente na infância, são responsáveis por alterar áreas vitais como corpo, como o sistema nervoso, produção hormonal e de metabolismo, o que, por sua vez, pode reverberar em doenças crônicas.
“Os transtornos psíquicos alteram, justamente por vias hormonais e neuroquímicas, a própria sensibilidade do corpo e a reação disso para o organismo. O hormônio do cortisol, se elevado dentro das situações de estresse, traz repercussões sobre todo o metabolismo do indivíduo. E isso vai interferir, por exemplo, na sua relação com a sensibilidade insulínica, no risco e na propensão ao desenvolvimento de quadros diabéticos, na própria percepção da dor física, estou falando. Então, as coisas andam juntas. A gente não pode separar as manifestações psíquicas das manifestações físicas”, explicou.
Alaor cita um dos problemas apontados por Kfouri em sua coluna, a neuropatia diabética. O problema crônico acontece quando o metabolismo da insulina está alterado e isso faz a concentração de glicose subir no corpo. Em longo prazo, isso causa lesões em tecidos, como o nervoso, e que afeta na percepção da dor física no paciente.
Assim como no caso de Camila Kfouri, as vivências traumáticas podem ser vividas por qualquer pessoa, mas não há um padrão sobre como esse fator vai impactar mentalmente e organicamente no paciente. “As vivências traumáticas são pertinentes, ocorrem na vida de todos, mas a vivência traumática recorrente é o grande ponto que pode modificar a resposta desse próprio eixo e fazer a pessoa ficar refém desse tipo de experiência e de vivências negativas”, completou Alaor de Oliveira.
O especialista do Hospital Oswaldo Cruz ainda afirma que, no processo do trauma, existem diferentes caminhos a serem vividos e que dependem de questões biológicas inerentes ao paciente, mas também sobre a forma como o fato é tratado socialmente ao redor da pessoa acometida. Alaor explica que há uma diferença entre eventos traumáticos permanentes e o luto, por exemplo, mas não há uma forma de separar as questões de maneira tão didática.
Sobre a convivência com doenças crônicas, o psiquiatra ainda acrescenta que os pacientes que convivem com essas questões desde a infância tendem a desenvolver outros transtornos mentais, que podem se manifestar na adolescência ou até no começo da vida adulta.
“Doenças crônicas na infância são um grande desafio, tanto no sentido de adesão dos pacientes, como, por exemplo, na compreensão de que haverá muitas limitações em relação aos demais coleguinhas. E isso, obviamente, influencia muito na vivência e na experiência de vida desse indivíduo, deixando-o mais suscetível a, inclusive, ter transtornos mentais, principalmente na adolescência”, concluiu o psiquiatra.
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