Felca relata bullying escolar e impacto na saúde mental
Após relatar episódios de bullying na infância e adolescência, influenciador trouxe atenção para a ansiedade social
Após o influenciador Felca relatar o desenvolvimento de fobia social devido ao bullying escolar, especialistas alertam para os graves impactos da prática na saúde mental. Casos registrados no Brasil cresceram 67,3% em 2025, atingindo 40% dos estudantes. A agressão contínua gera isolamento, baixa autoestima e sintomas físicos severos, podendo se estender à vida adulta e exigir intervenção psicológica conjunta entre família e escola.
O influenciador Felca, nome pelo qual é conhecido Felipe Bressanim Pereira, relatou ter sofrido bullying na escola durante oito anos. Em um vídeo divulgado no dia 20, ele contou que as experiências de exclusão e violência física contribuíram para o desenvolvimento de fobia social. O influenciador também relatou ter recorrido ao álcool para lidar com a ansiedade em situações sociais.
Também chamada de transtorno de ansiedade social, a condição é caracterizada pelo medo intenso de interagir com outras pessoas ou de ser julgado em situações sociais. Em alguns casos, esse receio leva ao isolamento e à tentativa de evitar ambientes que provocam desconforto.
O bullying pode contribuir para o sofrimento emocional e afetar a autoestima de quem passa por essas situações. No entanto, nem todas as vítimas desenvolvem fobia social, já que o surgimento do transtorno envolve diferentes fatores.
A neuropsicóloga Aparecida Tavares, que atende no centro clínico do Órion Complex, em Goiânia, explica como as agressões podem afetar a saúde mental e quais sinais merecem atenção.
Como o bullying afeta a saúde mental?
Dados do 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em julho pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), indicam que os registros policiais de bullying e cyberbullying contra crianças e adolescentes cresceram 67,3% em 2025, na comparação com 2024.
Foram 5.226 ocorrências envolvendo vítimas de 0 a 17 anos, ante 3.161 no ano anterior. Segundo a publicação, esse foi o maior crescimento entre os indicadores de violência contra crianças e adolescentes analisados.
Os registros policiais, porém, não representam todos os casos. A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE 2024), divulgada em março pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostrou que quatro em cada dez estudantes de 13 a 17 anos afirmaram já ter sofrido bullying na escola.
A neuropsicóloga Aparecida Tavares explica que o bullying envolve uma relação desigual de poder e pode afetar profundamente a saúde mental da vítima.
"Por se tratar de violência psicológica, verbal, física e até de gênero, o bullying gera na pessoa agredida comportamentos como de esquiva, isolamento social, rebaixamento no desempenho de suas atividades, inclusive as escolares/acadêmicas, baixa autoestima, o sentimento de menos valia, de insegurança e rejeição", afirma.
Esses efeitos podem prejudicar a rotina, os estudos e os relacionamentos. Por isso, mudanças persistentes no comportamento de crianças e adolescentes merecem atenção, principalmente quando surgem em paralelo a situações de intimidação ou exclusão.
Quais são os sintomas da fobia social?
A ansiedade social pode provocar medo intenso diante de situações que envolvem interação com outras pessoas ou exposição a avaliações. Em alguns casos, a pessoa evita encontros, apresentações, conversas e outros contextos por receio de passar vergonha ou ser alvo de críticas.
Segundo Aparecida Tavares, os sinais podem incluir isolamento, esquiva de situações sociais e manifestações físicas de ansiedade.
"A fobia social, atualmente nomeada como ansiedade social, tem como sinais e sintomas o isolamento social, a esquiva para não ter que lidar com a interação social ou exposição a situações vexatórias praticadas pelo bullying, por exemplo, que traz sintomas de medo exacerbado, taquicardia, problemas gastrointestinais, tremores, rubor facial, tonturas, sudorese, aumento da frequência cardiorrespiratória e desencadeamento de depressão severa", explica a neuropsicóloga.
Entre os sinais que podem aparecer estão:
- Medo intenso de interagir com outras pessoas.
- Isolamento e afastamento de atividades sociais.
- Tremores, suor excessivo e vermelhidão no rosto.
- Taquicardia e tontura em situações de ansiedade.
- Náuseas, dores abdominais e outros desconfortos gastrointestinais.
- Medo de ser julgado, humilhado ou rejeitado.
Esses sintomas, isoladamente, não confirmam um diagnóstico de ansiedade social. A avaliação de um profissional de saúde mental é importante para identificar a causa do sofrimento e orientar os cuidados necessários.
Como identificar os sinais em crianças e adolescentes?
Nem sempre crianças e adolescentes conseguem explicar o que estão sentindo ou contar que sofrem bullying. Por isso, pais e professores podem ajudar ao observar mudanças persistentes no comportamento.
De acordo com a neuropsicóloga, a vítima pode ficar mais isolada, apresentar tristeza e relatar sintomas físicos, como dores de estômago, náuseas, diarreia e dor de cabeça. Esses desconfortos podem aparecer especialmente quando ela precisa ir à escola ou a outro ambiente associado às agressões.
É importante investigar o que está por trás dessas mudanças, sem presumir que todo sintoma físico seja causado por ansiedade ou bullying. O diálogo acolhedor pode ajudar a criança ou o adolescente a se sentir seguro para contar o que está acontecendo.
A especialista também alerta que os efeitos do bullying podem persistir na vida adulta. Entre as possíveis consequências estão dificuldades de autoestima, problemas nos relacionamentos e o surgimento ou agravamento de transtornos mentais.
Como é feito o tratamento da ansiedade social?
O cuidado depende das necessidades de cada pessoa e deve ser orientado por profissionais qualificados. Quando o sofrimento está relacionado ao bullying, também é importante atuar sobre as agressões e garantir que a vítima tenha segurança no ambiente em que convive.
Aparecida Tavares destaca a importância da parceria entre escola, família e profissionais de saúde, como psicólogos e psiquiatras. O acompanhamento pode ajudar a compreender os sintomas, lidar com a ansiedade e recuperar a confiança nas relações sociais.
A neuropsicóloga, que também relata ter sofrido bullying durante a faculdade, ressalta que o problema não se limita à infância e à adolescência. Adultos também podem ser vítimas, inclusive sem reconhecer de imediato que estão passando por uma situação de violência.
O bullying pode provocar sofrimento psíquico intenso. Em situações graves, a especialista alerta para o risco de pensamentos de autolesão, ideação suicida ou comportamentos que coloquem a própria pessoa e outras em perigo. Esses sinais exigem atenção e ajuda profissional.
Reconhecer as mudanças de comportamento, acolher quem sofre e intervir nas situações de violência são medidas importantes para reduzir os danos. O bullying não deve ser tratado como brincadeira, e a vítima não precisa enfrentar sozinha as consequências emocionais dessa experiência.
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