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Depressão em idosos: sinais, causas e como ajudar no envelhecimento saudável

Apatia, isolamento, dores persistentes, alterações no sono e até problemas de memória podem esconder um quadro depressivo na terceira idade

1 set 2026 - 19h46
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Resumo
A depressão na terceira idade é comum e subdiagnosticada, pois seus sintomas costumam ser confundidos com o envelhecimento natural. Diferente da tristeza passageira, ela se manifesta por apatia, isolamento, perda de memória, alterações no sono e dores crônicas. O problema decorre do contexto de vida e perdas de autonomia, e não apenas da idade. O diagnóstico clínico exige atenção da família e o tratamento combina psicoterapia, remédios, apoio social e exercícios físicos adaptados.

A ideia de que um idoso está triste porque envelheceu pode esconder um problema de saúde. Na terceira idade, a depressão nem sempre se manifesta pela tristeza. Apatia, isolamento, dores persistentes, alterações no sono e no apetite e dificuldades de memória também podem indicar o quadro, que ainda é subdiagnosticado.

Saiba como identificar depressão em idosos
Saiba como identificar depressão em idosos
Foto: Shutterstock / Saúde em Dia

Depressão é comum na terceira idade?

No Brasil, cerca de 36 milhões de pessoas têm 60 anos ou mais, segundo o Ministério da Saúde.

E a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que cerca de 15% das pessoas com 70 anos ou mais vivem com algum transtorno mental. 

Depressão e ansiedade estão entre os problemas mais comuns nessa faixa etária, mas frequentemente permanecem sem diagnóstico e tratamento.

"Envelhecer envolve mudanças e adaptações a perdas, mas a depressão modifica a maneira como a pessoa vive", afirma Luis Alberto Saporetti, geriatra do Hospital Sírio-Libanês.

Tristeza e depressão não são a mesma coisa

Segundo o especialista, tristeza e depressão não são sinônimos.

"Tristeza é uma emoção. Quando os sentimentos permanecem por muito tempo, é preciso prestar atenção. Na depressão, há perda de prazer, desânimo, sensação de culpa ou inutilidade e prejuízo na vida cotidiana."

Um dos motivos que dificultam o reconhecimento da depressão na velhice é a forma como ela se manifesta. Irritabilidade, falta de energia, apatia, insônia, perda de apetite, emagrecimento, dificuldade de concentração e queixas físicas podem ser sinais mais evidentes do que tristeza ou choro.

Apatia pode ser um sinal importante

"A apatia merece atenção especial. É aquela perda de iniciativa em que a pessoa vai deixando de fazer coisas que antes faziam parte da vida. Pode parar de cozinhar, cuidar do jardim, encontrar os amigos, passear, cuidar da aparência ou participar da família", afirma Saporetti.

A mudança de comportamento pode ser gradual. Por isso, familiares e pessoas próximas precisam observar alterações que persistem e interferem na rotina.

Dores persistentes também merecem atenção

O problema é que, nessa fase da vida, sintomas físicos também podem ser atribuídos automaticamente à idade ou a doenças já existentes.

Uma dor persistente, por exemplo, pode ter uma causa orgânica, mas também pode ser agravada pela depressão e vice-versa.

"A relação entre dor crônica e depressão é de mão dupla. A dor pode limitar a mobilidade, prejudicar o sono, reduzir atividades prazerosas e favorecer o isolamento. Ao mesmo tempo, a depressão pode aumentar o sofrimento associado à dor e dificultar a adesão ao tratamento", explica o médico.

Por isso, dores que permanecem ou pioram devem ser avaliadas. Não é recomendado assumir que fazem parte do envelhecimento.

Problemas de memória podem confundir

Perda de memória é outro sinal que pode confundir familiares. Como a depressão pode comprometer a atenção e a capacidade de tomar decisões, o idoso pode parecer mais lento cognitivamente, ter dificuldade para acompanhar uma conversa ou reclamar constantemente de esquecimentos.

Isso não significa, porém, que toda alteração de memória seja consequência de um quadro depressivo.

Depressão e doenças neurodegenerativas, como demências, podem coexistir e precisam ser diferenciadas por meio de uma avaliação profissional.

"Quando existe uma mudança significativa da memória, principalmente se ela é progressiva ou começa a prejudicar atividades como administrar dinheiro, medicamentos, compromissos ou tarefas domésticas, é necessária uma investigação", diz Saporetti.

A idade não causa depressão sozinha

Para o médico, o mais importante é entender que a idade, isoladamente, não causa depressão.

"Muitas vezes são as condições nas quais aquela pessoa está envelhecendo que aumentam ou diminuem sua vulnerabilidade", diz.

Entre essas condições podem estar mudanças na rotina, perdas, isolamento social, doenças crônicas e redução da autonomia. Por isso, observar o contexto de vida do idoso é parte importante da avaliação.

Convivência também é cuidado

Manter vínculos sociais pode funcionar como fator de proteção.

Atividades comunitárias, grupos de convivência, cursos, encontros com amigos, familiares, comunidades religiosas e voluntariado podem contribuir para o bem-estar.

Mas, quando a depressão está instalada, o idoso pode não ter disposição para retomar a vida social.

"Estimular não significa obrigar. O idoso precisa, primeiro, ser ouvido. A insistência, ainda que bem-intencionada, pode aumentar a culpa e o sofrimento", explica Saporetti.

Atividade física pode ajudar

A atividade física também pode ajudar na prevenção e no tratamento.

A OMS recomenda, para adultos mais velhos, pelo menos 150 minutos de atividade física moderada ou 75 minutos de atividade vigorosa por semana, além de exercícios de fortalecimento muscular e atividades que trabalhem equilíbrio e força.

A prática, porém, deve respeitar as condições e limitações de cada pessoa. Quando há doenças ou dificuldades de mobilidade, vale buscar orientação profissional para definir as atividades mais adequadas.

Como familiares podem perceber os sinais?

Para os familiares, mudanças persistentes no comportamento devem servir de alerta. Deixar de fazer atividades de que gostava, evitar pessoas, perder o apetite, dormir mal, reclamar constantemente de dores ou perder a iniciativa são sinais que merecem atenção.

"É importante escutar antes de aconselhar. O familiar pode oferecer ajuda concreta, como marcar uma consulta, acompanhar o idoso ou ajudá-lo a explicar ao profissional o que está acontecendo", pondera o especialista.

Como é feito o tratamento da depressão?

O diagnóstico é clínico e considera o histórico da pessoa, estado mental, condições físicas, medicamentos utilizados e o contexto psicossocial. O tratamento pode envolver psicoterapia, medicamentos ou a combinação das duas abordagens, de acordo com cada caso.

"Envelhecer não significa perder a vontade de viver, nem viver triste e isolado. Quando o sofrimento se prolonga, apaga o interesse pela vida e reduz a autonomia, não devemos simplesmente dizer que é da idade", diz Saporetti.

Autonomia também faz parte do envelhecimento saudável

A promoção do envelhecimento saudável também passa por preservar a autonomia e a capacidade funcional, que reúne as habilidades físicas e mentais necessárias para realizar as atividades do dia a dia. Essa é uma das propostas do Mova-se, projeto do Sírio-Libanês, criado em sintonia com as diretrizes da Década do Envelhecimento Saudável da ONU.

O programa oferece atividades físicas para pessoas com 60 anos ou mais e busca contribuir para que os participantes mantenham a independência e a capacidade de cuidar da própria vida. As atividades são definidas a partir das necessidades de cada pessoa, identificadas também por meio de avaliações periódicas que consideram aspectos físicos, cognitivos, psicológicos, nutricionais e sensoriais.

"O envelhecimento saudável também envolve preservar a autonomia e a capacidade de realizar as atividades do dia a dia. Por isso, quando mudanças começam a comprometer a rotina, a independência ou o interesse pela vida, é importante olhar para além da idade, escutar o idoso e buscar ajuda", finaliza Saporetti.

5 dicas para identificar sinais de depressão na terceira idade

1. Não atribua mudanças à idade

Apatia, isolamento, perda de interesse, dores persistentes, alterações no sono e no apetite ou problemas de memória não devem ser tratados simplesmente como consequências do envelhecimento.

2. Escute antes de aconselhar

Converse com o idoso sem julgamentos ou cobranças. Em vez de dizer que ele precisa "reagir" ou "pensar positivo", pergunte como ele está se sentindo e mostre que você está disponível para ajudar.

3. Procure avaliação profissional

Mudanças no comportamento, no humor, no sono, no apetite ou na memória devem ser investigadas. Depressão pode coexistir com outras doenças e precisa de diagnóstico adequado.

4. Mantenha vínculos e uma rotina ativa, sem pressionar

Convivência social e atividade física podem contribuir para a saúde mental, mas quem está deprimido pode não ter disposição para participar. O estímulo deve respeitar os limites e o momento da pessoa.

5. Leve a sério falas sobre morte ou autoagressão

Pensamentos de morte associados a sofrimento intenso, desesperança ou risco de autoagressão exigem avaliação imediata. Nessa situação, o idoso não deve ficar sozinho.

Saúde em Dia
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