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'Eleição presidencial pode ser definida no primeiro turno', analisa CEO do Instituto IDEIA

Cila Schulman aponta concentração dos votos, abstenção e comportamento do eleitor como fatores importantes para esse possível cenário

31 ago 2026 - 04h58
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'Eleição presidencial pode ser definida no primeiro turno', analisa CEO do Instituto IDEIA:

Ao longo das eleições presidenciais realizadas desde a redemocratização, em 1989, o Brasil tem um histórico de disputas definidas em sua grande maioria em dois turnos. A eleição presidencial de 2026, no entanto, pode ser decidida já no primeiro turno, segundo avaliação de Cila Schulman, CEO do Instituto IDEIA. Em entrevista ao Terra, ela apontou fatores que podem favorecer esse cenário, embora ressalte que a campanha ainda está no início.

O único candidato à Presidência a vencer a disputa já no primeiro turno foi Fernando Henrique Cardoso (PSDB), que conquistou a vitória nas eleições de 1994 e 1998. Nos dois pleitos, FHC terminou à frente do atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que disputou a Presidência pela primeira vez em 1989 e voltou a concorrer nas eleições seguintes.

Para Cila, um dos fatores que ajudam a explicar a possibilidade de uma definição ainda no primeiro turno em 2026 é a concentração do eleitorado nos dois principais campos políticos. “O presidente Lula está sozinho no campo da esquerda. Só ele está ocupando esse espaço”, aponta. Segundo ela, isso faz com que o petista não tenha hoje a mesma divisão de votos que enfrentou em eleições anteriores, quando outros nomes também disputavam espaço no campo da esquerda.

Na direita, ela aponta outro movimento que pode favorecer a concentração de votos: o chamado “antipetismo de chegada”. O fenômeno ocorre quando eleitores contrários a Lula deixam de votar no candidato de sua preferência para apoiar, já no primeiro turno, aquele que consideram ter mais chances de derrotar o petista.

Cila Schulman, CEO do Instituto IDEIA, falou sobre o cenário político em entrevista ao Terra
Cila Schulman, CEO do Instituto IDEIA, falou sobre o cenário político em entrevista ao Terra
Foto: Isabella Lima/Terra

“É quando o eleitor antipetista, antilulista, resolve despejar os votos no candidato que ele considera que tem mais chances de vencer do Lula no segundo turno. Mas ele adianta isso para o primeiro turno”, explica. “É um fenômeno que já atingiu, por exemplo, a Marina Silva, em 2014, quando o Aécio Neves passou para o segundo turno. E com o próprio Geraldo Alckmin, que tinha ali um latifúndio de partidos de tempo na televisão, mas o Jair Bolsonaro que passou para o segundo turno”, relembra.

A avaliação ganha peso diante da ausência, até o momento, de uma candidatura de terceira via capaz de conquistar uma parcela expressiva do eleitorado, segundo Cila.

Votos brancos, nulos e abstenções 

Outro fator apontado pela CEO é a possibilidade de aumento dos votos brancos e nulos entre pessoas insatisfeitas com a polarização entre Lula e um representante do bolsonarismo. Segundo ela, pesquisas qualitativas realizadas pelo instituto indicam que parte do eleitorado demonstra descontentamento com a repetição desse confronto.

Cila lembra que, quando Flávio Bolsonaro (PL) perdeu votos após a divulgação de um áudio em que pediu dinheiro ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro para financiar o filme Dark Horse, sobre a trajetória política de seu pai, Jair Bolsonaro, esses votos não foram direcionados a outras candidaturas, mas aos brancos e nulos. “A gente vê nas pesquisas qualitativas muita gente desgostosa desse quadro entre um Bolsonaro e, de novo, Lula. Então, pode aumentar votos brancos e nulos, o que faz com que os válidos fiquem mais restritos a dois candidatos.”

Além da distribuição dos votos, Cila aponta a abstenção como um fator que pode afetar o desempenho de Lula. Segundo ela, o índice historicamente gira em torno de 20% e é maior entre eleitores de menor renda e escolaridade, justamente uma parcela relevante do eleitorado do petista.

Em um eventual segundo turno, o fato de Lula ser hoje o único candidato de esquerda também pode limitar, segundo Cila, sua capacidade de ampliar a votação. Em 2022, o petista conseguiu atrair eleitores de centro, entre eles parte dos que apoiavam Simone Tebet, ao formar uma frente ampla. Agora, a CEO vê mais dificuldade nesse movimento, embora ressalte que a campanha ainda pode alterar o cenário.

“Quando a gente olha para a eleição mais recente, que foi a de 2022, os votos que ele captou da Simone Tebet, quando fez aquela frente ampla, trazendo vários apoios de centro e de pessoas importantes que eram eleitores históricos do PSDB, ajudaram a ampliar sua votação. Agora, eu vejo mais dificuldade para ele ampliar esse voto. Mas a campanha está apenas começando. E eu acredito em campanha, ou seja, acredito que a comunicação durante a campanha tem efeito.”

Nesse contexto, Cila considera decisiva uma parcela de eleitores que transitou entre os dois principais campos políticos. São pessoas que votaram em Bolsonaro em 2018, migraram para Lula em 2022 e hoje estão novamente desencantadas com a política. “Quem vai conseguir ganhar essa eleição, na nossa visão, é quem conseguir conquistar a parcela dos eleitores que votaram no Bolsonaro em 2018, ficaram desapontados com a gestão da pandemia, votaram no presidente Lula em 2022, esperando melhorias na condição de vida dos mais pobres, e hoje estão desencantados também. São eleitores apartidários”, afirmou.

Segundo ela, parte desse grupo está nas periferias e regiões metropolitanas do Sudeste e em capitais do Nordeste e tende a estar mais interessada em propostas concretas do que na disputa ideológica entre os dois polos.

Terceira via ainda enfrenta desconhecimento

A dificuldade de as candidaturas alternativas se consolidarem, segundo Cila, passa também pelo desconhecimento dos eleitores. Ela cita os ex-governadores de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), e de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo) --ambos candidatos à Presidência-- como exemplos de políticos conhecidos em seus próprios Estados, mas ainda com menor reconhecimento nacional. Essa situação, no entanto, pode começar a mudar com o avanço da campanha.

“Agora, a gente vê uma movimentação de busca, inclusive de outros candidatos, como Augusto Cury e Renan Santos. Depois dos debates e das sabatinas, agora temos a entrada do horário eleitoral. Portanto, o eleitor vai se engajar na campanha agora. O eleitor não estava prestando atenção, nem sabia quem eram os candidatos. Então, a gente vai ver, sim, uma movimentação entre esses candidatos.”

Na avaliação da CEO, a comunicação durante a campanha também pode impactar nos números. Lula, como presidente e candidato à reeleição, tem a vantagem de poder apresentar medidas e programas durante o período eleitoral. Cila cita como exemplos o Desenrola e a discussão sobre o fim da escala de trabalho 6x1, pauta que, segundo ela, tem apoio relevante nas pesquisas do instituto.

A disputa pela atenção do eleitor também deve ser central durante a campanha. Cila aponta grupos de WhatsApp, redes sociais, propagandas eleitorais na televisão, noticiários, sabatinas e debates como ferramentas que influenciam a formação do voto. Ela diferencia, porém, o comportamento de eleitores polarizados daquele observado entre pessoas que não estão fortemente identificadas com nenhum dos dois campos.

“O eleitor polarizado não quer nem ouvir o outro lado. E a gente tem um nível de cristalização e de polarização bastante importante nessa eleição. Tem ali 66% dos eleitores que dizem que não vão mudar de voto”, afirma.

Segundo Cila, pesquisas qualitativas indicam que o eleitor não polarizado está cada vez mais atento às políticas públicas apresentadas pelos candidatos, mas ainda existe uma falta de conexão entre essas propostas e as demandas concretas da população. “Esse eleitor quer confiar em alguém, ele está com uma baixa confiança e precisa ser conquistado.”

Na avaliação da CEO, a economia deve ser um dos principais caminhos para conquistar esse eleitor, especialmente questões como o preço dos alimentos, o endividamento e a dificuldade de chegar ao fim do mês. Saúde, educação, segurança pública e corrupção também devem ter peso, mas, segundo Cila, esses temas acabam relacionados à situação econômica e à percepção sobre o uso do dinheiro público.

Mulheres podem ser decisivas

Cila também destaca o papel das mulheres na eleição de 2026. Elas representam a maioria do eleitorado e, segundo a CEO, costumam levar mais tempo para definir o voto. A avaliação é que esse comportamento esteja relacionado à maior atenção dada às propostas e às políticas públicas. As mulheres, afirma Cila, têm contato direto com serviços como saúde e educação, além de atribuírem grande peso à questão da segurança.

“É um eleitorado que demora mais a decidir pelo voto e vem votando diferente dos homens”, afirmou. Por isso, a CEO considera que o comportamento desse grupo deverá ser acompanhado de perto ao longo da campanha e especialmente na reta final do primeiro turno. “Vai ser um eleitorado muito importante para a gente observar de perto e que pode apresentar mudanças até o final. E a gente sempre lembra algo importante: a pesquisa é a fotografia do momento, não é a previsão do futuro”, finaliza.

Fonte: Portal Terra
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