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Saúde mental em alerta: mais de 546 mil brasileiros foram afastados do trabalho em 2025

Ansiedade, depressão e estresse podem se manifestar por meio de dores, insônia, cansaço e outras alterações antes mesmo de uma crise

1 set 2026 - 12h10
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Resumo
Em 2025, o Brasil registrou mais de 546 mil afastamentos do trabalho por transtornos mentais, alta de 15,66%. Especialistas alertam que o sofrimento psíquico frequentemente se manifesta no corpo, gerando insônia, dores e fadiga. A orientação é não esperar um colapso para buscar apoio: identificar precocemente os sinais, acolher sem julgamentos e recorrer a serviços de saúde, como o SUS e o CVV, são passos essenciais para o tratamento adequado e a prevenção de crises graves.

A saúde mental nem sempre dá seus primeiros sinais por meio das emoções. Antes mesmo de alguém perceber que está enfrentando um período de ansiedade, depressão ou estresse intenso, o corpo pode começar a mostrar que algo não vai bem. Noites mal dormidas, dores frequentes, exaustão que não melhora com o descanso, mudanças no apetite e até palpitações estão entre as manifestações que merecem atenção. O impacto desse sofrimento também aparece nos números.

Saúde mental também dá sinais no corpo; entenda quais sintomas podem indicar sofrimento emocional e quando é hora de buscar ajuda
Saúde mental também dá sinais no corpo; entenda quais sintomas podem indicar sofrimento emocional e quando é hora de buscar ajuda
Foto: Reprodução: Natee Meepian's Images / Bons Fluidos

Dados do Ministério da Previdência Social mostram que, em 2025, o Brasil registrou 546.254 afastamentos por incapacidade temporária relacionados a transtornos mentais e comportamentais. Em relação ao ano anterior, houve um crescimento de 15,66%.

Durante o Setembro Amarelo, mês marcado pela conscientização sobre saúde mental e prevenção do suicídio, especialistas reforçam justamente a importância de não esperar que o sofrimento chegue ao limite para procurar ajuda. Observar mudanças no corpo, no comportamento e na maneira de realizar tarefas cotidianas pode ajudar a identificar precocemente a necessidade de cuidado.

Quando o sofrimento emocional aparece no corpo

Nem sempre é fácil relacionar um sintoma físico ao estado emocional. Algumas pessoas chegam ao consultório preocupadas com cansaço, dores, insônia ou alterações nos batimentos cardíacos sem imaginar que essas manifestações podem estar associadas a um período de sofrimento psíquico.

"O sofrimento emocional nem sempre é percebido de forma clara pela própria pessoa. Ela pode procurar atendimento por causa de insônia, dor, cansaço ou palpitações e só depois identificar que está enfrentando uma situação de ansiedade, depressão ou estresse intenso. Por isso, escutar a queixa como um todo é fundamental", explica Dr. Raul Queiroz, médico de família e comunidade da UBS Jardim Valquíria, unidade da Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo (SMS-SP).

Isso acontece porque corpo e mente não funcionam de maneira separada. Diante de uma situação de estresse, por exemplo, o organismo aciona mecanismos de alerta. O coração pode bater mais rápido, os músculos ficam mais tensionados e a respiração se altera. Trata-se de uma reação natural diante de uma ameaça ou pressão.

O problema surge quando esse estado se torna frequente ou permanece ativo por muito tempo. Aos poucos, pode haver prejuízos no sono, na alimentação, na energia e até na capacidade de concentração e realização das atividades diárias.

Ansiedade pode causar sintomas físicos reais

Falta de ar, tremores, suor excessivo, enjoo, dor de cabeça, pressão no peito e uma intensa sensação de que algo ruim está prestes a acontecer podem fazer parte de quadros de ansiedade, explica o psiquiatra do CEJAM Dr. Rodrigo Lancelote.

Embora nem sempre exista uma alteração física que explique isoladamente essas sensações, isso não significa que elas sejam imaginárias. Pelo contrário: o desconforto experimentado pela pessoa é real e precisa ser acolhido e investigado.

"A manifestação física é uma forma legítima de sofrimento. Dizer que a pessoa precisa apenas 'se acalmar' aumenta a culpa e dificulta a busca por cuidado. É importante validar o que ela sente, compreender o contexto e avaliar se os sintomas estão interferindo na vida diária", afirma o especialista.

Além dos sinais corporais, algumas mudanças na rotina também podem funcionar como alerta. A pessoa pode começar a evitar amigos e familiares, apresentar queda no desempenho profissional ou acadêmico, abandonar hobbies que antes proporcionavam prazer ou ter dificuldades para realizar cuidados básicos, como manter uma alimentação adequada e a própria higiene.

Alterações importantes no sono e aumento no consumo de bebidas alcoólicas ou outras substâncias também devem ser observados, especialmente quando aparecem junto a outras mudanças de comportamento.

Quando é hora de procurar ajuda?

Não é preciso esperar uma crise para buscar atendimento. Quando os sintomas se prolongam, ficam mais intensos ou começam a interferir no trabalho, nos estudos, nos relacionamentos e no autocuidado, procurar orientação profissional pode ser um passo importante.

No Sistema Único de Saúde (SUS), a Unidade Básica de Saúde (UBS) pode funcionar como uma das portas de entrada para esse acompanhamento. A equipe pode avaliar tanto as queixas físicas quanto os aspectos emocionais, acompanhar a evolução do paciente e, quando necessário, direcioná-lo para outros serviços da Rede de Atenção Psicossocial.

"O médico de família tem a oportunidade de acompanhar a pessoa ao longo do tempo e compreender não apenas o sintoma, mas também sua história, sua rede de apoio, as condições de trabalho e os fatores que contribuem para o sofrimento. Esse olhar contínuo ajuda a evitar que a saúde mental seja tratada de forma isolada", pontua Queiroz.

O cuidado pode assumir diferentes formas de acordo com as necessidades de cada pessoa. Psicoterapia, acompanhamento médico ou psiquiátrico, suporte de familiares e mudanças graduais na rotina podem fazer parte desse processo.

"Cuidar da saúde mental significa olhar para si, perceber que algo mudou e permitir que outras pessoas participem desse cuidado. O tratamento pode envolver acompanhamento médico, psicológico, psiquiátrico, apoio familiar e estratégias que ajudem o paciente a recuperar gradualmente sua rotina", aponta Lancelote.

Como ajudar alguém que não parece estar bem?

Nem sempre quem está sofrendo consegue pedir ajuda. Por isso, familiares, amigos e colegas também podem desempenhar um papel importante ao perceber mudanças significativas. Em vez de minimizar o sofrimento ou cobrar uma reação - com frases como "anime-se" ou "você precisa reagir" -, o mais indicado é demonstrar disponibilidade para ouvir, evitar julgamentos e oferecer apoio concreto.

Nos casos em que surgem falas relacionadas à morte, ao desejo de desaparecer ou à falta de sentido em continuar vivendo, o assunto não deve ser ignorado por medo de "dar ideia" à pessoa. "Perguntar diretamente se a pessoa tem pensado em morrer ou em tirar a própria vida não estimula o suicídio", frisa o psiquiatra.

Ao contrário, abordar o tema de maneira acolhedora pode criar uma oportunidade para que aquela pessoa fale sobre o que está enfrentando e receba o encaminhamento adequado. "Quando alguém fala que não vê mais sentido na vida, que gostaria de desaparecer ou que não consegue continuar, essa fala deve ser levada a sério. Não cabe à família resolver tudo sozinha, mas cabe acolher, não deixar a pessoa isolada e buscar ajuda profissional", orienta.

Setembro Amarelo: prevenção também acontece antes da crise

A prevenção do suicídio não começa apenas diante de uma situação extrema. Ela também passa pela criação de espaços em que seja possível falar sobre sofrimento emocional sem vergonha, culpa ou julgamento - e pela capacidade de reconhecer que pequenas mudanças podem indicar que alguém precisa de ajuda.

Em uma emergência ou diante de risco imediato, a orientação é procurar um serviço de urgência ou acionar o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) pelo número 192. O Centro de Valorização da Vida (CVV) realiza apoio emocional gratuito e sigiloso pelo telefone 188. Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) também fazem parte da rede pública destinada ao cuidado em saúde mental.

"Não existe uma atitude única capaz de prevenir todos os casos, mas existe uma responsabilidade coletiva de observar, perguntar, acolher e facilitar o acesso ao cuidado. Falar sobre saúde mental durante todo o ano, e não apenas em setembro, é parte desse compromisso", finaliza Queiroz.

Sobre o CEJAM      

O CEJAM - Centro de Estudos e Pesquisas "Dr. João Amorim" é uma entidade filantrópica e sem fins lucrativos. Fundada em 1991, a Instituição atua em parceria com o poder público no gerenciamento de serviços e programas de saúde em diversas cidades.

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