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Ressaca pós-Carnaval: por que a alegria dá lugar à melancolia?

No fim das contas, o Carnaval pode acabar — mas o cuidado com o bem-estar precisa continuar.

26 fev 2026 - 14h03
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Entre picos de dopamina e o choque da rotina, especialista explica por que o fim da festa pode provocar queda de humor

Depois de dias intensos de blocos, desfiles e encontros, o fim do Carnaval costuma trazer um sentimento inesperado para muita gente: um vazio difícil de explicar. A chamada "depressão pós-Carnaval" não é um diagnóstico clínico, mas descreve uma experiência comum: a queda brusca de humor após um período de euforia coletiva.

Freepik
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Foto: Revista Malu

Para o especialista em ciência da felicidade e psicologia positiva Gustavo Arns, o fenômeno revela uma confusão frequente entre alegria, prazer e felicidade.

"A alegria é uma emoção passageira. O prazer é ainda mais efêmero, ligado a estímulos sensoriais e picos de dopamina. Já a felicidade é um estado mais amplo e profundo, que não depende apenas de momentos festivos", explica.

O que acontece no cérebro depois da festa?

Durante o Carnaval, o cérebro é intensamente estimulado: música, interação social, dança, cores e novidades ativam circuitos ligados à recompensa e ao prazer. Essa combinação pode gerar o que Arns chama de "ressaca dopaminérgica".

Após dias de alta excitação, o organismo retorna ao seu nível basal de funcionamento. Essa queda pode ser percebida como desânimo, cansaço, irritabilidade ou melancolia.

O mesmo mecanismo costuma ocorrer depois de férias prolongadas, grandes viagens ou eventos aguardados por muito tempo. Quanto maior o pico emocional, maior pode ser a sensação de contraste na volta à rotina.

A volta à rotina pesa — e muito

Além da mudança neuroquímica, existe o fator prático: o retorno às responsabilidades. Caixa de e-mails lotada, compromissos acumulados, trânsito, metas e cobranças.

"Quando desaceleramos por alguns dias e depois voltamos a um ritmo acelerado, o contraste pode gerar angústia. Mesmo quem gosta do próprio trabalho sente essa transição", afirma o especialista.

O problema se intensifica quando associamos felicidade apenas a momentos extraordinários. Se a ideia de bem-estar estiver vinculada exclusivamente a festas, viagens ou lazer intenso, a rotina tende a parecer sem graça — e até frustrante. "Isso é muito pouco para sustentar o bem-estar ao longo da vida."

Felicidade não é ausência de tristeza

Para Tal Ben-Shahar, uma das principais referências mundiais em psicologia positiva, a felicidade é a combinação do bem-estar físico, emocional, intelectual, relacional e espiritual.

"Relacionamentos sólidos, propósito e crescimento nem sempre são experiências alegres, mas são profundamente significativas. A felicidade inclui emoções difíceis. Ela não elimina a tristeza", destaca Arns.

Essa visão ajuda a compreender por que o vazio pós-evento não significa necessariamente que algo está errado, mas pode ser um convite à reflexão.

Quando o vazio merece atenção

Sentir certa melancolia após um período de grande euforia é natural. No entanto, se os sintomas forem intensos, persistentes ou acompanhados de alterações no sono, apetite ou motivação, é importante buscar apoio profissional.

Arns sugere algumas perguntas para atravessar esse momento com mais consciência:

  • Tenho espaço para criatividade e prazer no meu dia a dia?
  • Minhas atividades cotidianas estão alinhadas aos meus talentos?
  • Estou cultivando relações significativas fora dos momentos de festa?

Quanto maior a conexão com o próprio propósito e com vínculos consistentes, mais suave tende a ser a transição entre lazer e rotina.

Como suavizar a ressaca emocional

Algumas atitudes simples podem ajudar:

  • Retomar gradualmente o ritmo de compromissos;
  • Manter pequenos momentos de prazer na semana;
  • Priorizar o sono e o autocuidado;
  • Planejar algo positivo para as próximas semanas

"O vazio e a angústia são estados mentais. Reconectar-se com aquilo que faz sentido na própria vida é o caminho para que a felicidade não termine quando a festa acaba", conclui o especialista.

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