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Qual é o verdadeiro impacto da gratidão na nossa vida? Estudo analisou 34 países

Pesquisa realizada em 34 países, incluindo o Brasil, testou diferentes exercícios de gratidão e descobriu qual deles apresentou os resultados mais significativos

17 ago 2026 - 16h10
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Reservar alguns minutos para agradecer pelas coisas boas da vida pode parecer um hábito simples, mas seus efeitos vêm despertando o interesse da ciência. Um novo estudo realizado em 34 países, incluindo o Brasil, investigou diferentes maneiras de estimular a gratidão e descobriu que algumas práticas podem contribuir para emoções positivas e para a conexão com outras pessoas.

Estudo em 34 países revela qual prática de gratidão teve maior impacto no bem
Estudo em 34 países revela qual prática de gratidão teve maior impacto no bem
Foto: estar e nas emoções positivas dos participantes - Reprodução: fizkes/Getty Images / Bons Fluidos

A pesquisa reuniu participantes de diferentes culturas e propôs exercícios que poderiam ser facilmente incorporados à rotina. Entre eles estavam listar motivos para agradecer, escrever cartas, refletir sobre acontecimentos recentes e demonstrar diretamente a gratidão por alguém.

No Brasil, 598 pessoas participaram do levantamento. Os resultados fazem parte de um amplo projeto coordenado por Nicholas Coles, da Universidade da Flórida, e foram publicados na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).

Qual prática de gratidão teve maior efeito?

Entre as diferentes estratégias avaliadas, uma se destacou: escrever uma mensagem de agradecimento e realmente enviá-la para a pessoa homenageada. Ou seja, não bastava apenas pensar em alguém importante. O exercício envolvia transformar esse sentimento em palavras e compartilhá-las diretamente.

Curiosamente, uma das práticas mais conhecidas quando se fala em gratidão apresentou resultados menos expressivos: fazer uma lista com cinco coisas pelas quais a pessoa se sente grata. Isso não significa que a tradicional lista de gratidão seja inútil. De maneira geral, todas as atividades avaliadas produziram algum resultado positivo. A diferença estava na intensidade dos efeitos observados.

"Um dos principais resultados a que chegamos é que, no geral, todas as intervenções propostas funcionaram. E a questão da conexão social é central", explicou o psicólogo Paulo Sérgio Boggio, que participou da pesquisa, à Agência Fapesp.

6 práticas de gratidão analisadas pela ciência

Os participantes receberam diferentes propostas para estimular esse sentimento no cotidiano. Os exercícios incluíram:

  1. Enviar uma mensagem de gratidão: escrever para uma pessoa importante, contar por que se sente grato por ela e enviar a mensagem;
  2. Criar uma lista de gratidão: registrar cinco coisas pelas quais existe algum sentimento de agradecimento;
  3. Escrever uma carta sem enviá-la: colocar no papel aquilo que gostaria de agradecer a alguém, mas manter o texto consigo;
  4. Fazer a reflexão Naikan: pensar sobre a semana anterior a partir de três questões - o que recebeu de outras pessoas, o que ofereceu e o que poderia ter feito para ajudar mais;
  5. Imaginar a ausência de coisas boas: lembrar cinco acontecimentos do dia anterior que despertaram gratidão e, depois, imaginar como seria a vida caso eles não tivessem acontecido;
  6. Escrever uma carta de agradecimento espiritual: direcionar uma mensagem a uma força superior, manifestando gratidão pela própria vida.

Por que agradecer alguém pode fazer diferença?

A gratidão não precisa ficar restrita a uma experiência individual. Ela possui um forte componente social e pode influenciar a maneira como nos relacionamos. "A gratidão é uma emoção com componente social muito forte. Sentir-se grato aumenta a probabilidade de você ajudar outras pessoas - e não necessariamente a pessoa que te ajudou. Isso gera uma espiral de ajuda entre as pessoas, não obrigatoriamente porque há uma expectativa de ganho direto", afirma Boggio.

Isso ajuda a entender por que mandar uma mensagem apresentou resultados relevantes. Ao agradecer diretamente, a pessoa não apenas reconhece algo positivo em sua própria vida, mas transforma esse reconhecimento em uma interação social.

Pode ser uma mensagem para um amigo que esteve presente em uma fase difícil, um familiar que ofereceu apoio ou mesmo alguém que fez uma pequena gentileza que permaneceu na memória.

Gratidão funciona da mesma maneira em todos os países?

Outro aspecto importante do estudo foi justamente seu alcance internacional. Boa parte das pesquisas realizadas anteriormente sobre gratidão estava concentrada nos Estados Unidos, o que dificultava saber se os resultados poderiam ser reproduzidos em culturas bastante diferentes. "Mais ou menos 50% dos estudos de gratidão têm origem norte-americana. A ideia foi fugir um pouco disso e aplicar o teste em países com uma grande variação cultural", explica Boggio. E as diferenças apareceram.

Quando os pesquisadores analisaram o chamado florescimento humano, conceito relacionado a aspectos como satisfação com a vida e reciprocidade social, perceberam que o impacto das práticas não foi igual em todos os lugares.

No México, por exemplo, o estímulo à gratidão apresentou influência expressiva. O Brasil ficou em uma posição intermediária, enquanto na Noruega o efeito sobre esse aspecto específico foi considerado praticamente inexistente.

Quando o foco passou a ser simplesmente sentir emoções positivas, porém, os pesquisadores encontraram benefícios de maneira mais consistente entre as diferentes culturas. Os resultados reforçam a ideia de que o contexto cultural pode influenciar a maneira como expressamos e experimentamos a gratidão.

Como colocar em prática?

Não é preciso transformar o exercício em uma obrigação diária ou se forçar a encontrar algo positivo em todos os momentos. A pesquisa aponta para práticas bastante simples, que podem ser experimentadas de maneira espontânea.

Uma delas pode começar agora mesmo: pense em alguém que fez diferença na sua vida recentemente. Em vez de guardar esse reconhecimento apenas para você, escreva algumas linhas explicando o motivo. Não precisa ser uma carta longa. Uma mensagem como "lembrei do que você fez por mim naquele dia e queria agradecer" já transforma um pensamento em uma demonstração concreta de afeto.

Outra possibilidade é reservar alguns minutos no fim da semana para refletir sobre aquilo que recebeu das pessoas ao seu redor e também sobre o que ofereceu a elas. A gratidão, nesse sentido, vai além de tentar enxergar a vida de maneira positiva o tempo inteiro. Ela pode ser um exercício de reconhecer experiências e relações que têm valor - e, quando possível, demonstrar esse reconhecimento a quem faz parte delas.

Os pesquisadores agora pretendem aprofundar justamente as diferenças encontradas entre os países. Uma das questões que permanecem é entender por que determinadas práticas funcionam melhor em algumas culturas do que em outras e como diferentes sociedades podem desenvolver suas próprias maneiras de estimular a gratidão.

Bons Fluidos
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