Psiquiatra explica o transtorno do jogo: a pessoa começa apostando por diversão e perde o controle
Transtorno do jogo pode começar de forma silenciosa. Veja quais sinais indicam que a aposta deixou de ser diversão e virou um problema.
O transtorno do jogo é uma condição de saúde mental caracterizada pela perda de controle e persistência nas apostas, apesar dos prejuízos financeiros e emocionais. Reconhecido pela OMS, esse vício afeta o sistema de recompensa cerebral e leva a pessoa a perseguir perdas, estando frequentemente associado a quadros como ansiedade, depressão e TDAH. O problema transcende debates econômicos e exige atenção clínica precoce ao transformar a recreação em um ciclo aditivo danoso.
A recente proibição das bets no Brasil colocou as apostas novamente no centro das conversas. Mas, antes de qualquer discussão econômica ou política, existe uma questão que merece ser observada sob a perspectiva da saúde: o que acontece quando apostar deixa de ser uma escolha pontual e passa a ocupar um espaço cada vez maior na vida de uma pessoa?
A resposta envolve saúde mental.
O chamado transtorno do jogo, também conhecido como jogo patológico ou ludopatia, é reconhecido pela psiquiatria como um transtorno relacionado a comportamentos aditivos.
No DSM-5-TR (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), ele está classificado entre os transtornos relacionados a substâncias e transtornos aditivos, na categoria dos transtornos não relacionados a substâncias.
Na CID-11, da Organização Mundial da Saúde (OMS), aparece como Gambling Disorder (transtorno do jogo), dentro do grupo dos transtornos devido a comportamentos aditivos.
Essa classificação é importante porque diferencia uma aposta eventual de um padrão persistente de comportamento que pode causar prejuízos e perda de controle.
Quando a aposta deixa de ser apenas uma aposta
Uma pessoa com transtorno do jogo pode apresentar:
- dificuldade para controlar a frequência ou o valor das apostas;
- aumento progressivo das quantias apostadas;
- tentativa de reduzir ou interromper o comportamento sem conseguir;
- preocupação excessiva com jogos e apostas;
- continuidade das apostas mesmo diante de consequências negativas.
Um dos comportamentos característicos é o chamado "perseguir perdas" (chasing losses): depois de perder dinheiro, a pessoa volta a apostar na tentativa de recuperar o que perdeu.
Mas o transtorno do jogo não deve ser analisado de maneira isolada.
Na avaliação psiquiátrica, é importante investigar possíveis condições associadas, como transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), transtornos depressivos, transtornos de ansiedade e dificuldades de regulação emocional, além do uso de álcool e outras substâncias.
TDAH e jogo: o que a ciência já sabe sobre essa relação
Uma metanálise publicada em 2023 na revista Clinical Psychology Review encontrou associação entre sintomas de TDAH e problemas relacionados ao jogo.
Os resultados, porém, não significam que o TDAH cause o transtorno do jogo ou que toda pessoa com TDAH esteja sob risco de desenvolver esse problema.
A relação é complexa e pode envolver fatores como impulsividade, busca por recompensa e dificuldades de regulação emocional.
Esse cuidado é fundamental. Em saúde mental, associação não significa causalidade.
O sistema de recompensa cerebral também ajuda a compreender por que as apostas podem se tornar problemáticas para algumas pessoas.
A expectativa de uma recompensa ativa mecanismos relacionados à motivação e ao reforço de comportamentos.
Nas apostas, essa dinâmica é combinada à imprevisibilidade do resultado, o que pode favorecer a repetição do comportamento em indivíduos vulneráveis.
Isso não significa que toda pessoa que aposta desenvolverá um transtorno. O ponto central é a perda de controle e o impacto do comportamento na vida cotidiana.
Os prejuízos podem aparecer em diferentes áreas: relações familiares, trabalho, sono, saúde financeira e bem-estar emocional.
E existe um aspecto importante destacado pela própria OMS: os danos relacionados ao jogo podem surgir mesmo antes que a pessoa preencha todos os critérios necessários para um diagnóstico de transtorno do jogo.
Quais sinais indicam que a aposta virou um problema
Talvez uma das principais perguntas não seja apenas quanto uma pessoa aposta, mas qual espaço a aposta passou a ocupar em sua vida.
Ela consegue parar quando decide? Está escondendo o comportamento de familiares ou amigos?
Está utilizando dinheiro destinado a despesas essenciais? Tem pensado constantemente em recuperar perdas?
Aposta para aliviar ansiedade, frustração, tédio ou outros estados emocionais? Já tentou interromper ou reduzir as apostas e não conseguiu?
Esses sinais não devem ser interpretados simplesmente como falta de caráter, irresponsabilidade ou falta de força de vontade.
Podem indicar um problema de saúde mental que merece avaliação profissional.
O debate sobre as bets pode mudar de acordo com as circunstâncias e as regras estabelecidas no país. A questão da saúde mental, porém, permanece.
Quando apostar deixa de ser uma atividade recreativa e passa a ser um comportamento persistente, com perda de controle e prejuízos significativos, estamos diante de uma situação que merece atenção clínica.
Reconhecer os sinais precocemente e buscar ajuda pode ser determinante para interromper esse ciclo — não apenas para quem aposta, mas também para familiares e pessoas próximas que acabam sendo afetados pelas consequências do transtorno.
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