'Procure estudar, procure entender': pedreiro conta como aprendeu a defender a própria causa
Após perder o acompanhamento do advogado, Edilson Takahara estudou a própria causa e ganhou
Quando Edilson Takahara chegou à tribuna do Tribunal Regional do Trabalho da 11ª Região, em Manaus, no último dia 17, já sabia exatamente o que precisava dizer. Tinha preparado quatro pontos para a sustentação oral, estudado a legislação relacionada ao próprio processo e passado pela etapa que considerava mais difícil: convencer a si mesmo de que conseguiria fazer aquilo.
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O pedreiro de 49 anos não tinha estudado Direito por interesse profissional. Também não havia planejado representar a si mesmo em um tribunal. A decisão nasceu de uma necessidade depois que o advogado que acompanhava seu processo deixou de manter contato com ele e o caso acabou sendo extinto.
Takahara contou ao Terra que sua ida à tribuna foi resultado de uma combinação de necessidade, curiosidade e, como ele próprio admite, teimosia.
Takahara trabalha na construção civil há cerca de duas décadas. Ele estima que, somando períodos em que deixou a profissão e depois voltou, tenha entre 18 e 20 anos de experiência como pedreiro.
A disputa que o levou à Justiça começou depois de um trabalho em que ele buscava o reconhecimento de vínculo empregatício. A empresa sustentava que ele havia prestado serviços como autônomo. No processo, porém, Takahara reuniu registros de sua rotina na obra, incluindo fotos, vídeos de treinamentos, áudios e conversas de WhatsApp.
O primeiro caminho escolhido por ele foi o tradicional: contratar um advogado.
"Eu tinha uma noção sobre o Jus postulandi (direito de acompanhar o próprio processo). Tinha começado a pesquisar, a entender a CLT, o Código Civil, mas vi no início que era trabalhoso. Já tinha uma ação ajuizada com advogado e acabei prevendo que, pelo trabalho que daria, era melhor realmente deixar que um advogado tentasse resolver a questão".
Segundo Takahara, o advogado deixou de acompanhar o processo e parou de manter contato com ele. A ação acabou sendo extinta. A primeira reação do pedreiro foi de desconfiança.
"A primeira coisa que pensei foi começar a suspeitar, pensei em ir lá e brigar com ele".
Ele acabou não fazendo isso. Descobriu que ainda havia prazo para apresentar novamente a ação e decidiu seguir por conta própria.
"Aí fui ajuizar a ação. [...] O momento em que decidi defender a própria causa foi em cima da hora".
Evolução do estudo
Takahara não fez cursinho, não comprou uma biblioteca jurídica e não passou meses se preparando para ser advogado de si mesmo. O estudo aconteceu enquanto o processo avançava.
Ele calcula que tenha dedicado menos de 100 horas à pesquisa. "Fiz pesquisa, conversei com inteligência artificial, enfim".
Também procurou advogados para tirar dúvidas pontuais sobre a CLT, mas evitou exagerar nas perguntas. "É difícil você ficar tomando o tempo da pessoa para perguntar: 'Mas por que isso? Por que aquilo?' Então, não foi nada exagerado".
O fator teimosia
Antes de entrar na tribuna, Takahara ouviu repetidamente que não conseguiria. "Olha, não adianta, você não vai saber falar".
Entre os que tentaram fazê-lo desistir estava a própria esposa. "Principalmente a minha esposa, que dizia assim para mim: 'Ah, deixa quieto isso, entrega para um advogado de novo e tal'".
"Como já tinha dado aquele problema do advogado que falhou, eu fiquei mais teimoso ainda".
"Eu até entendo que não é uma questão de coragem. Na verdade, eu sempre tive uma convicção de uma maneira muito simples".
A lógica, para ele, era direta: se acreditava estar diante de um direito previsto em lei, precisava entender o suficiente para defendê-lo.
"Se é um direito que a lei prevê, a gente tem esse direito. Não tem por que não dar certo".
Parte da segurança que demonstrou na tribuna também vinha de uma característica que Takahara carrega para além do trabalho: ele gosta de conversar.
"Eu, como sempre fui muito falante, gosto de conversar, de trocar ideia, já tinha essa vantagem". "Me preparei, entendi que na Justiça a gente tem que ser objetivo, não pode ter enrolação para falar". A estratégia funcionou.
"Eu não esperava a repercussão"
O elogio do desembargador Sandro Nahmias Melo, "Pode mudar de profissão, porque a lógica de argumentos acabou sendo melhor do que muitas sustentações que essa turma tem ouvido de doutos patronos", fez com que a experiência ganhasse repercussão nacional.
Porém, Takahara afirma que não havia entrado na sessão esperando aprovação dos magistrados. "Eu não esperava a repercussão, mas sinto, sim, um pouco de orgulho de mostrar para as pessoas que é uma coisa perfeitamente possível". Ele conta que o episódio pode servir para desmistificar o acesso ao direito.
O que fica é apenas o elogio, já que Takahara não pretende mudar de profissão. "Posso até estudar, mas eu diria que é pelos projetos que tenho em mente relacionados à construção".
"São coisas que demandam também bastante estudo, busca de apoio, de financiamento para os projetos que tenho. Tenho que me dedicar a isso".
Ele deixa um recado: "Todo mundo que tem um problema a ser resolvido, procure estudar, procure entender, porque o que aparentemente é difícil, quando a gente busca o conhecimento e depois adquire esse entendimento, a gente vê que é perfeitamente possível resolver, sim".

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