Muito além do play: entenda como jogos e narrativas ajudam a tratar ansiedade e emoções
Descubra como o RPG e a gamificação são usados na terapia para desenvolver habilidades sociais, regulação emocional e autoconhecimento
A celebração quase simultânea do Dia do Psicólogo e do Dia do Gamer evidencia a crescente integração entre a psicologia e o universo dos videogames. Essa conexão demonstra como os jogos eletrônicos e suas narrativas têm se tornado importantes aliados terapêuticos, oferecendo suporte no manejo das emoções e no tratamento da ansiedade.
O fim de agosto traz uma coincidência emblemática no calendário: no dia 27, é celebrado o Dia Nacional do Psicólogo e, logo em seguida, em 29, o Dia do Gamer. Embora à primeira vista pareçam universos distantes, a psicologia e os jogos estão cada vez mais conectados.
Hoje, narrativas, personagens, regras, desafios e escolhas deixaram de ser apenas entretenimento. Em contextos planejados, esses elementos se transformam em poderosos recursos para o cuidado com a saúde mental por meio de modelos terapêuticos gamificados.
Longe de ser apenas diversão, os jogos oferecem ambientes estruturados onde as pessoas lidam com imprevistos, trabalham em equipe e enfrentam as consequências de suas decisões. Contudo, para ter função terapêutica, o processo exige método e intenção clínica.
"O jogo funciona como um contexto para a intervenção. Situações criadas dentro de uma narrativa podem ser planejadas para mobilizar determinados pensamentos, emoções e comportamentos, permitindo que a pessoa experimente outras formas de responder e depois relacione o que aconteceu no jogo com situações da própria vida. Para que isso tenha finalidade terapêutica, no entanto, precisa existir uma formulação do caso, objetivos clínicos e uma condução profissional que dê sentido à experiência", explica o psicólogo Manoel Acioli, pesquisador e diretor da RPG Terapia, Instituto de Psicologia Gamificada.
O que dizem as pesquisas sobre os jogos na saúde mental
A receptividade do público a essas ferramentas digitais e interativas vem crescendo em todo o mundo. Um estudo publicado na revista científica 'Internet Interventions', em 2026, e feito com mais de 3,7 mil adultos de 48 países, mostrou alta disposição dos participantes para adotar jogos e aplicativos gamificados como apoio na regulação emocional e no bem-estar.
Nesse cenário, uma das ferramentas mais promissoras é o RPG (role-playing game), ou jogo de interpretação de papéis. Nele, os jogadores assumem personagens e criam histórias coletivas. No consultório, essa dinâmica funciona como um laboratório seguro para a vida real.
Como o RPG ajuda a enfrentar conflitos reais
Por meio de um avatar ou personagem, a pessoa em terapia ganha liberdade para experimentar atitudes que talvez não conseguisse no dia a dia. É possível testar como impor limites, pedir ajuda, encarar uma frustração ou mediar um conflito.
Essa distância entre o jogador e o personagem cria uma ponte segura para falar de sentimentos e comportamentos delicados:
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Distanciamento saudável: Permite observar hábitos e padrões sem a sensação imediata de julgamento.
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Expressão facilitada: Ajuda a abordar temas difíceis quando a conversa direta parece bloqueada.
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Treino de habilidades: Desenvolve comunicação, tolerância à frustração, flexibilidade cognitiva e empatia.
"O RPG permite que a pessoa fale de si sem precisar, necessariamente, começar por uma exposição direta. Quando alguém toma uma decisão por meio de um personagem, pode observar seus próprios padrões com um pouco mais de distância. Isso não elimina a complexidade do que é vivido na realidade, mas pode abrir um caminho de diálogo que, em alguns casos, seria mais difícil apenas pela conversa", afirma.
Jogar no dia a dia substitui a terapia?
Apesar dos benefícios, os especialistas alertam: jogar videogame ou participar de sessões de RPG com amigos traz bem-estar e diversão, mas não substitui o acompanhamento psicológico. A gamificação aplicada à saúde mental não é uma fórmula mágica nem serve para todos da mesma forma.
Ademais, o que mobiliza e ajuda um paciente pode gerar estresse ou desinteresse em outro. Por isso, a presença e o planejamento do profissional continuam sendo indispensáveis. "Não existe uma ferramenta que funcione da mesma maneira para todas as pessoas. O valor terapêutico não está apenas no jogo, mas na forma como ele é escolhido, aplicado e relacionado aos objetivos daquele processo. O recurso pode facilitar o caminho, mas a condução continua sendo profissional e individualizada", conclui o psicólogo.
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