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Muito além da dor de cabeça: por que o Brasil tem a maior taxa de enxaqueca do continente?

Pesquisa internacional revela que 13,8% dos brasileiros sofrem com a condição neurológica, que afeta três vezes mais as mulheres e ainda é amplamente subdiagnosticada

27 ago 2026 - 07h23
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Resumo
O Brasil lidera o ranking de enxaqueca nas Américas, condição neurológica crônica e incapacitante que vai muito além de uma simples dor de cabeça. Essa alta prevalência no país é impulsionada por uma combinação de fatores genéticos, altos níveis de estresse e ansiedade, sedentarismo, má qualidade do sono e a frequente automedicação. A doença prejudica a produtividade e a qualidade de vida da população, exigindo diagnóstico médico correto, hábitos saudáveis e tratamento individualizado.

Um estudo publicado na revista científica 'Cephalgia' revelou um dado preocupante sobre a saúde dos brasileiros. O Brasil é o país americano com a maior prevalência de enxaqueca entre os 19 analisados. O levantamento, que avaliou mais de 16 mil pessoas do Canadá ao Chile, apontou que 13,8% da população brasileira convive com a doença.

Descubra por que o Brasil lidera os casos de enxaqueca nas Américas, o impacto no público feminino e as novas opções de tratamento
Descubra por que o Brasil lidera os casos de enxaqueca nas Américas, o impacto no público feminino e as novas opções de tratamento
Foto: laflor/iStock / Getty Images Plus / Bons Fluidos

Ademais, a média do continente ficou em 9,7%, colocando nosso país no topo da lista, seguido por Canadá (13,2%) e Estados Unidos (12,7%). Longe de ser um mero incômodo temporário, a condição é uma das maiores causas de incapacidade funcional no mundo.

"A enxaqueca é uma doença neurológica crônica que vai muito além de uma simples dor de cabeça e é considerada uma das principais causas de incapacidade no mundo. Durante as crises, muitos pacientes precisam interromper suas atividades porque apresentam dor intensa, náuseas e grande sensibilidade à luz e ao som, o que compromete a rotina, o trabalho e a qualidade de vida", explica Tiago de Paula, neurologista especialista em Cefaleia, membro da Sociedade Brasileira de Cefaleia (SBC).

Fatores de risco e o desafio do subdiagnóstico

Primeiramente, é importante ressaltar que o número elevado no país não indica necessariamente uma predisposição genética exclusiva dos brasileiros. O resultado reflete uma combinação de fatores culturais, perfil populacional e a própria percepção da dor.

Contudo, um dos principais gargalos continua sendo a falta de diagnóstico adequado, fazendo com que milhares de pessoas sofram sem auxílio especializado:

  • Sintomas ignorados: Muitas pessoas recorrem à automedicação por anos em vez de buscar orientação médica.

  • Impacto no cotidiano: O Brasil ocupa o 5º lugar no continente em anos vividos com incapacidade (YLDs) por conta da enxaqueca.

  • Avaliação clínica: Por não exigir exames laboratoriais específicos, o diagnóstico depende fundamentalmente do histórico narrado pelo paciente.

"Uma série de fatores podem influenciar esses números, como no perfil da população, questões culturais e até a forma como as pessoas reconhecem e relatam os sintomas. Muitas pessoas convivem com dor de cabeça frequente por anos sem buscar avaliação médica ou sem receber o diagnóstico correto. Isso faz com que a doença continue impactando a qualidade de vida", pondera Tiago.

Por que as mulheres são as mais afetadas com a enxaqueca?

A pesquisa também confirmou uma disparidade marcante de gênero: 13,2% das mulheres declararam ter a doença, contra 6,5% dos homens. Essa frequência quase três vezes maior no público feminino está diretamente relacionada às flutuações hormonais ao longo da vida.

"As mulheres manifestam mais quadros de enxaqueca do que os homens, cerca de três vezes mais, segundo diversas evidências. Essa é mais uma. As oscilações do estrogênio (na menstruação, ovulação, gravidez e menopausa) afetam a excitabilidade neuronal e a liberação de neurotransmissores, como serotonina e CGRP (peptídeo relacionado ao gene da calcitonina) e isso acaba por potencializar mais a doença nas mulheres", detalha o médico.

Opções modernas de tratamento e prevenção

Embora seja uma condição desafiadora, a enxaqueca conta hoje com abordagens terapêuticas modernas que atuam tanto na interrupção da dor quanto na prevenção das crises.

O plano de cuidado combina mudanças de estilo de vida — como reeducação alimentar e higiene do sono — com opções médicas de ponta:

  1. Toxina botulínica: Aplicação preventiva com evidência científica para redução da frequência das dores.

  2. Anticorpos monoclonais anti-CGRP: Medicamentos desenvolvidos especificamente para bloquear a ação da proteína causadora da crise.

  3. Acompanhamento multidisciplinar: Ajustes na rotina para identificar e evitar gatilhos específicos.

"O diagnóstico da enxaqueca é clínico e se baseia principalmente na avaliação detalhada dos sintomas e da frequência das crises. Não existe um exame específico que confirme o diagnóstico, o que torna ainda mais desafiador e mostra a importância de buscar um médico especialista no assunto. Além de mudanças na alimentação e no estilo de vida, temos tratamentos de primeira linha com evidência cientifica para a condição, como a toxina botulínica e os anticorpos monoclonais anti-CGRP, desenvolvidos especificamente para prevenir as crises", finaliza o profissional.

Bons Fluidos
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