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Melatonina: O poder do sono e dos sonhos

28 nov 2023 - 06h15
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Foto: Johannes Plenio / Unsplash

Salve, salve!!! Salve-se quem puder.

O ser humano consegue ficar várias semanas sem comer. A ausência de água também é possível por alguns dias. Sem tomar banho então, pode ficar mais de um ano.

Agora experimente ficar sem dormir. Seu organismo entra em colapso já no segundo dia. Tudo por causa da melatonina, o hormônio ligado ao ciclo circadiano que regula nosso sono e metabolismo.

A playlist “Good Night Jazz” está boa demais pra ser ignorada. Os gigantes Miles Davis e John Coltrane, Joshua Redman, Wynton Marsalis, Oscar Peterson, Art Blakey e vários outros nos ajudam a contar carneirinhos e a embalar nosso sono.

Pegue um travesseiro e aperte o play!

Dormir bem para viver melhor

Beba um capeta pra ficar acordado. Antes eu achava que dormir muito era perda de tempo. Pensava que cinco ou seis horinhas eram suficientes pra recarregar as baterias e partir para um novo dia. Ledo engano.

Com o passar dos anos fui percebendo que dormir sete horas é o ideal para mim. Não costumo tirar sonecas após o almoço, embora estudos comprovem os benefícios pra saúde de uma mini siesta de 15 a 30 minutos.

Sempre fui notívago desde pequeno, de ir tomar banho instantes antes de pular na cama. Ultimamente tenho me esforçado pra acordar alguns dias na semana às 5 da matina e ir correr ou malhar. O shot de endorfina logo cedo após me exercitar, antes mesmo do café da manhã, são evidentes. Meu humor melhora imediatamente, fico mais calmo e o dia corre tranquilo.

A melatonina, o hormônio ligado ao ciclo circadiano, é produzida naturalmente pelo corpo para a indução ao sono e regulação do metabolismo ao longo do dia. Nosso relógio biológico de aproximadamente 24 horas informa ao corpo quando é hora de dormir e de acordar. Funciona também como antioxidante. Dá um reset diário no corpo e nos prepara para a próxima jornada.

A produção de melatonina acontece especialmente no fim do dia, quando os estímulos luminosos diminuem e o metabolismo reduz fazendo com que a produção do hormônio ocorra à noite. Por isso é importante ficar longe das telas antes de dormir evitando estímulos ao cérebro. Fácil falar, difícil fazer!

Quem tem insônia pode tomar melatonina pra enganar o corpo informando que é hora de dormir. Para aliviar o jet lag dos viajantes frequentes pelo globo também funciona bem.

Quem “inventou” ou determinou que o dia teria 24 horas foram os egípcios, quem mais?

Neste artigo da BBC ficamos sabendo que:

Os Textos da Pirâmide, redigidos antes de 2400 a.C., são os primeiros escritos do Antigo Egito. Eles incluem a palavra "wnwt" (pronuncia-se "wenut") — e um hieróglifo de uma estrela associado a ela. Deduz-se, portanto, que wnwt se refere à noite.

Para entender por que a palavra wnwt é traduzida como "hora", é preciso viajar no tempo para a cidade de Assiute em 2000 a. C. Lá, o interior das tampas retangulares de madeira dos caixões, às vezes, eram decorados com uma tábua astronômica.

Nut é a deusa da noite.

46 horas sem dormir

Férias de verão e a turma toda de Lagoa Santa foi pra Porto Seguro de ônibus. Pais, mães, filhos, sobrinhos e agregados. Fecharam meio hotel na beira da praia pra acomodar a turba.

Eu estava no norte do Vale do Jequitinhonha, em Joaíma, na mesma época. Chamei meu primo e fiel escudeiro pra esticar até Eunápolis, já na Bahia, onde meu tio e pai do distinto primo vivia. Num sábado, descemos para o litoral rumo aos braços da galera. 

Ficamos ali naquelas barracas de praia bebericando, conversando, apreciando os coqueiros vergando devido ao forte vento, as ondas estourando na praia e aquele clima de camaradagem contagiante.

À noite fomos pra cidade jantar e depois esticamos até a indefectível Passarela do Álcool pra beber capeta e depois passar mal. Um ou outro não resistiu e voltou para o hotel. Eu e meu primo seguimos bravamente junto com outros abnegados.

Emendamos a noite numa boate com vários da turma. Lá pelas tantas, alguns começaram a dar baixa, reduzir o ritmo e indicar o fim da jornada. Pegamos um táxi e voltamos até o hotel deles. Não dava pra esticar na varanda de ninguém, tudo ocupado, lotação esgotada. Não tinha nem um mísero edredom pra jogar no chão e acomodar nossos chassis empenados.

(Acho que não existe edredom na Bahia. Baiano não seria capaz de dizer essa palavra.)

A solução foi atravessar a avenida até a barraca da frente e tentar achar um canto pra encostar. Eram seis da matina, sol já alto e quente, gaivotas voando, coqueiros exibindo seus frutos reluzentes e o som do mar envolvendo tudo.

Duas espreguiçadeiras de madeira se ofereceram para nos acomodar. Deitamos ali, mas sem conseguir dormir profundamente. Ficamos contando conchas, perseguindo siris, escrevendo na areia molhada, jogando paus para os vira latas buscarem, caminhando pra lá e pra cá como o Tio Patinhas preocupado quando perdia dinheiro.

Os minutos não passavam. A turma dormia a sono solto embalados pelo ar condicionado e o alto teor etílico no sangue. Lá pelas 10 da manhã do domingo a primeira alma surgiu para o café. Era nossa tábua de salvação, um messias no salão. Qualquer conversa nos manteria acesos e vivos.

O dia seguiu seu curso normal: piscina + praia + almoço + passeio na cidade + praia + jantar + esquenta e capeta pra mais uma noitada.

Já estávamos há 36 horas sem dormir. Olhos esbugalhados, barbicha por fazer, bafo de onça, cara de desempregado, movimentos lentos.

Após algumas cervejas durante e depois do jantar, decidimos onde acabar com nossas Vidas. Foi outra gandaia daquelas, nós dois só o pó, como zumbis marionetes sendo comandados por alguém lá de cima, nos mantendo de pé graças a cordas imaginárias.

O fim de noite se repetiu com a gangue rumando de novo para o conforto dos quartos do hotel e nós relegados aos paralelepípedos das ruas da capital do Descobrimento.

Fomos direto pra rodoviária e por sorte descolamos logo um ônibus que subia pra Eunápolis. Eram 10 horas da segunda quando chegamos em casa e desabamos nas camas sob um calor africano. O ventilador só servia pra espalhar mais ainda o ar fervendo do Saara. Nem deitar no chão nos refrescou.

Após 46 horas aceso, tentei dormir um pouco, sem sucesso. Juntei minhas coisas e avisei que naquele inferno eu não ficaria mais um minuto sequer. Corri pra rodoviária, peguei outro ônibus rumo a Joaíma e voltei pra Princesinha do Vale, lugar de clima ameno e gente acolhedora.

Na verdade, o destino da viatura era Jequitinhonha. Desembarquei e sem conseguir fazer contato com a base pra alguém vir me buscar, caminhei até o trevo na beira da estrada. Passava um caminhão de leite e perguntei se estava indo pra Joaíma. Após a resposta positiva, joguei minha mochila na carroceria e me aboletei numa ripa de madeira que servia de banco, já que na boléia não havia lugar. Percorri os 27 km até a cidade apreciando as belezas da natureza ao som do tilintar metálico dos galões de leite.

Na praça principal da cidade o caminhão parou e pulei na calçada. Adentrei a casa de meu outro tio logo em frente, tomei um banho e desabei na cama.

Passarela do Álcool, nunca mais!

Pra ver e ler

FILME: 24 Hour Party People - Michael Winterbottom (2002). A loucura de Manchester na era do Punk

O nascimento da cultura das raves em Manchester nos anos 1970 e a história da Factory Records, lendária gravadora que influenciou uma geração de músicos.

Começa com a era do punk rock no final dos anos 1970 e seguindo através dos anos 1980 até as raves e DJs, e a cena "Madchester", a Manchester Maluca, do final dos anos 1980 e início dos 1990.

Tony Wilson (Steve Coogan) é o personagem principal, um repórter da Granada Television e chefe da Factory Records. O filme acompanha sua carreira e a dos principais artistas da Factory: Joy Division e New Order, A Certain Ratio, The Durutti Column e Happy Mondays.

Filmado com câmeras digitais, a comédia parece mais um documentário focado em três grandes acontecimentos: a ascensão do Joy Division, a loucura do Happy Mondays e a euforia e o declínio do lendário clube Haçienda, que acabou fechando após dar seguidos prejuízos já que pouca gente consumia bebidas alcoólicas pois estavam todos loucos com ecstasy.

O título do filme saiu de uma música do álbum de estreia do Happy Mondays. No Brasil saiu com o título “A Festa Nunca Termina”.

LIVRO: O Oráculo da Noite – Sidarta Ribeiro (2019). A história e a ciência do sonho.

O que é, afinal, o sonho? Para que ele serve? Como extrair sentido de seus tantos símbolos, detalhes e significados? Freud pode mesmo explicar?

Essas e tantas outras questões são respondidas pelo renomado neurocientista Sidarta Ribeiro sobre um dos maiores enigmas da humanidade: o sonho.

Desde o Egito e a Grécia antiga até os dias de hoje, com a ajuda da biologia molecular, neurofísica e medicina, o autor relata histórias da mente humana e faz uma análise antropológica, psicanalítica e literária usando o sonho como personagem principal.

(*) Pedro Silva é engenheiro mecânico, PhD em Materiais, vive em Viena na Áustria, já gostou muito da gandaia e de virar noite, mas hoje não troca uma boa noite de sono por nada, e escreve semanalmente a newsletter Alea Iacta Est.

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