Luto infantil: como acolher crianças quando os adultos também estão sofrendo
Júlia Jalbut compartilhou uma experiência pessoal e explicou por que demonstrar emoções pode ajudar a criança a compreender e atravessar a perda
Acolher crianças no luto exige que os adultos reconheçam os próprios limites e recorram a uma rede de apoio para dividir esse cuidado. Segundo a educadora Júlia Jalbut, demonstrar tristeza diante dos filhos ensina que o sofrimento faz parte da perda e valida as emoções dos menores. No entanto, se o adulto estiver desorganizado emocionalmente, outros devem intervir. Respeitar as diferentes formas individuais de lidar com a dor constrói um ambiente seguro para toda a família atravessar o processo.
Quando uma criança ou adolescente perde alguém próximo, o sofrimento não atinge apenas os mais novos. Os adultos que estão ao redor também podem enfrentar o próprio luto e, ao mesmo tempo, precisar oferecer segurança e acolhimento. Esse cenário pode tornar a experiência ainda mais delicada para toda a família. Em entrevista ao programa Sem Censura, a educadora e escritora Júlia Jalbut compartilhou uma reflexão sobre o assunto a partir de uma experiência pessoal. Para ela, os adultos precisam reconhecer os próprios limites e entender que não precisam enfrentar esse processo sozinhos para conseguir apoiar uma criança.
O cuidado não precisa ficar nas mãos de uma só pessoa
Júlia destacou que acolher uma criança durante o luto exige uma rede de apoio. Ela relacionou essa ideia ao conhecido provérbio africano de que é preciso uma aldeia para cuidar de uma criança. A partir disso, explicou que familiares e outras pessoas próximas podem dividir a responsabilidade pelo acolhimento. Assim, quando um adulto estiver emocionalmente abalado demais para oferecer suporte, outra pessoa poderá assumir esse papel. Além disso, ela ressaltou a importância de cada adulto olhar para os próprios sentimentos e identificar quando também precisa de ajuda.
Adultos também podem demonstrar tristeza
Uma das dúvidas que Júlia teve surgiu depois da morte do pai: seria errado chorar na frente do filho? Ela contou que conversou com uma psicóloga naquele momento e recebeu a orientação de que demonstrar tristeza não representava um problema. Pelo contrário, segundo o relato, mostrar as próprias emoções poderia ensinar à criança que sentir tristeza diante de uma perda fazia parte do processo. Por isso, frases simples sobre saudade e tristeza poderiam ajudar a transformar o sentimento em uma conversa.
Falar sobre emoções pode abrir espaço para a criança
Para a escritora, quando os adultos mostram que conseguem falar sobre o que sentem, também criam espaço para que a criança faça o mesmo. Dessa maneira, sentimentos como tristeza, saudade, raiva e angústia podem aparecer sem que a criança precise escondê-los. Ao mesmo tempo, ela fez uma ressalva importante: caso o adulto esteja completamente desorganizado emocionalmente, o mais adequado pode ser chamar outra pessoa para acompanhar a criança naquele momento.
Cada pessoa enfrenta o luto de uma maneira
Outro aspecto destacado por Jalbut foi que os integrantes de uma mesma família podem reagir de formas muito diferentes diante de uma perda. Enquanto algumas pessoas choram e falam sobre o que estão sentindo, outras podem demonstrar a dor de maneira menos evidente. Por isso, reconhecer essas diferenças também faz parte do acolhimento, e em vez de exigir uma reação específica, o caminho pode estar em permitir que cada pessoa encontre sua própria maneira de lidar com a ausência. No fim, a reflexão mostrou que acolher uma criança durante o luto também envolve cuidar de quem está ao redor. Quando existe espaço para falar sobre a perda e expressar sentimentos, a família pode construir um ambiente mais seguro para atravessar esse momento.
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