Lipedema: por que o diagnóstico ainda demora
Apesar de reconhecida pelo OMS desde 2022, a doença ainda é confundida com obesidade ou linfedema
O lipedema é uma doença vascular crônica, reconhecida pela OMS desde 2022, que afeta principalmente mulheres e é frequentemente confundida com obesidade. Caracteriza-se pelo acúmulo de gordura simétrico em regiões como pernas e quadris, causando dor, inchaço e dificuldades de mobilidade. O diagnóstico precoce e o tratamento multiprofissional são essenciais para controlar a progressão e melhorar a qualidade de vida.
Doença vascular crônica atinge principalmente mulheres, pode comprometer a mobilidade e a qualidade de vida, e exige tratamento multiprofissional
Reconhecido como doença pela Organização Mundial da Saúde (OMS) desde 2022, o lipedema é uma condição vascular crônica, progressiva e sem cura, mas que possui tratamento eficaz, principalmente quando diagnosticada precocemente. Embora os primeiros relatos sobre a doença sejam da década de 1940, ela ainda é pouco conhecida e frequentemente confundida com obesidade ou linfedema, o que contribui para o atraso no diagnóstico e no início do tratamento.
"Como médica e paciente, conheço o lipedema pelos dois lados. Sei o quanto é frustrante ouvir durante anos que basta emagrecer, quando, na verdade, existe uma doença por trás dos sintomas. O diagnóstico correto muda não apenas o tratamento, mas também a forma como essa mulher passa a enxergar o próprio corpo", explica Amanda Meirelles, que é médica intensivista, portadora de lipedema e sócia da clínica Auré Medical, em São Paulo, que integra o Celip (Centro Especializado em Lipedema).
Segundo o Consenso Brasileiro de Lipedema, cerca de 12,3% das mulheres brasileiras convivem com a doença, o que representa quase 9 milhões de pessoas. Em nível mundial, estima-se que o lipedema afeta entre 10% e 18% da população feminina. Dos casos, aproximadamente 95% ocorrem em mulheres.
A doença é caracterizada pelo acúmulo anormal e simétrico de tecido gorduroso, principalmente em pernas, quadris e braços. Essa distribuição bilateral é uma das características que ajudam a diferenciá-la de outras doenças. Conforme o quadro evolui, a inflamação constante pode provocar dores, alterações circulatórias, dificuldade de mobilidade e importantes impactos na qualidade de vida.
Os sintomas costumam surgir após alterações importantes nos níveis dos hormônios femininos, como durante a puberdade, gravidez, terapias de reposição hormonal e podem se intensificar na menopausa. Entre os principais sinais estão dor, sensação de peso nas pernas, inchaço persistente, hipersensibilidade ao toque, desconforto, aparecimento frequente de hematomas sem causa aparente e até queda de cabelos.
Estágios progressivos do lipedema
O lipedema apresenta evolução progressiva e é classificado em quatro estágios clínicos:
Estágio 1: pele com aparência normal, porém com tecido subcutâneo apresentando nódulos palpáveis. Drenagens e alimentação regrada podem aliviar parte dos sintomas.
Estágio 2: pele irregular e endurecida, com acúmulo de gordura em forma de nódulos. Em alguns casos há dores, além de hematomas frequentes.
Estágio 3: grandes acúmulos de gordura associados a deformidades na pele. Dores e hematomas tornam-se frequentes.
Estágio 4: grandes deformidades de pele e gordura associadas à lesão do sistema linfático, causando edema nos pés (lipo-linfedema), hematomas frequentes, dores intensas e dificuldade para deambular.
A doença também pode ser classificada conforme a região acometida. São cinco tipos: acometimento de quadris e nádegas (tipo 1); quadris, nádegas e coxas (tipo 2, o mais frequente); coxas, joelhos e panturrilhas (tipo 3); braços (tipo 4); e pernas abaixo dos joelhos (tipo 5).
Diagnóstico ainda é um desafio
Atualmente, não existe um protocolo padrão nem exames específicos para diagnosticar o lipedema. O reconhecimento da doença depende da avaliação clínica realizada por um médico especialista, que considera o histórico familiar, a evolução dos sintomas e o exame físico, observando características como nódulos, hipersensibilidade e alterações na elasticidade do tecido adiposo.
A falta de protocolos específicos e o desconhecimento sobre a doença por parte de muitos profissionais ainda atrasam o diagnóstico e, consequentemente, o início do tratamento.
"O diagnóstico do lipedema é essencialmente clínico. Não existe um exame capaz de confirmar a doença de forma isolada. Por isso, é fundamental que o médico conheça os critérios diagnósticos e saiba diferenciar o lipedema de condições como obesidade, linfedema e insuficiência venosa. Quanto maior o conhecimento sobre a doença, menores as chances de a paciente passar anos sem um diagnóstico correto", conta Amanda.
Impactos do lipedema vão além da estética
Embora muitos pacientes procurem atendimento inicialmente por questões estéticas, o lipedema é uma doença que afeta diretamente a saúde física e emocional. Além de comprometer a mobilidade, a condição reduz a capacidade de eliminar a gordura localizada apenas com dieta e atividade física. As causas ainda não são totalmente conhecidas, mas acredita-se que fatores genéticos e hereditários estejam envolvidos. O tratamento é multiprofissional e deve ser individualizado conforme o estágio da doença.
Atenção também na prática esportiva
Pacientes com lipedema podem apresentar até 30% menos força na musculatura das coxas. Por isso, exercícios de alto impacto devem ser evitados, e a prática de atividades físicas precisa ser adaptada de acordo com o estágio da doença.
Situações comuns do cotidiano também podem servir como sinal de alerta. Permanecer sentado durante cerca de 90 minutos, como ao assistir a uma partida de futebol, ou ficar muito tempo em pé pode desencadear dor e inchaço desproporcionais nas pernas, sintomas frequentemente ignorados, mas que podem indicar a presença do lipedema.
"O tratamento do lipedema é multifatorial e deve ser individualizado. Ele pode incluir atividade física adaptada, orientação nutricional, fisioterapia e, em pacientes selecionadas, tratamento cirúrgico. Mais do que uma questão estética, o objetivo é controlar a progressão da doença, reduzir a dor e o inchaço, preservar a mobilidade e devolver qualidade de vida", finaliza Amanda.
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.