IMC sozinho não é suficiente para avaliar obesidade, aponta revisão
Trabalho discute diferentes formas de classificar a doença e defende avaliação que considere distribuição de gordura e metabolismo
O índice de massa corporal (IMC), calculado a partir do peso e da altura, pode não ser suficiente para determinar os riscos da obesidade para cada paciente. Uma revisão crítica sobre os principais sistemas de classificação da doença aponta que o indicador continua útil, principalmente em estudos populacionais, mas deve ser combinado com outras informações na avaliação individual.
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Segundo o endocrinologista Marcio Mancini, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia Regional São Paulo (SBEM-SP) e primeiro autor do trabalho, pessoas com o mesmo IMC podem apresentar composição corporal, distribuição de gordura e riscos à saúde diferentes.
Uma das medidas que podem complementar o IMC é a circunferência abdominal. Segundo Mancini, o risco de doenças cardiovasculares, hipertensão e diabetes aumenta quando a medida supera 80 cm nas mulheres e 94 cm nos homens. O limite pode variar conforme a etnia e cair para 90 cm entre homens asiáticos e de algumas populações originárias.
Outra possibilidade é calcular a relação cintura/estatura (RCE), que divide a circunferência abdominal pela altura. Nesse caso, valores superiores a 0,5 indicam risco aumentado, independentemente de sexo ou etnia.
“Ou seja, sua cintura não deve ultrapassar metade da altura. Se você mede 1,60 m, sua cintura não deve ultrapassar 80 cm. Simples e fácil de usar na prática clínica, independentemente do IMC”, afirma Mancini.
A diferença pode ser observada mesmo entre pessoas enquadradas na mesma faixa de IMC. O endocrinologista cita como exemplo dois pacientes com 1,70 m e IMC de 27. Se um deles tiver RCE de 0,48 e o outro, de 0,55, o segundo apresenta maior risco.
Segundo Mancini, uma relação cintura/estatura mais elevada indica maior concentração de gordura abdominal e visceral, inclusive no fígado. Essa condição está associada a maior risco de diabetes, glicose e triglicérides elevados, pressão arterial mais alta e níveis menores de colesterol HDL, além do aumento do risco cardiovascular.
A revisão analisa diferentes propostas usadas para classificar a obesidade, entre elas a classificação tradicional da Organização Mundial da Saúde (OMS), o Edmonton Obesity Staging System (EOSS), o modelo da Comissão Lancet, a abordagem da European Association for the Study of Obesity e sistemas que consideram o histórico de peso.
O EOSS, por exemplo, leva em conta alterações metabólicas, limitações físicas, aspectos psicológicos e impacto funcional, além das medidas corporais. A proposta é estabelecer a gravidade da obesidade e ajudar a orientar a intensidade do tratamento.
Obesidade clínica e pré-clínica
A revisão também discute a classificação apresentada pela Comissão Lancet em janeiro de 2025, que diferencia obesidade clínica de pré-clínica. Mancini aponta limitações no modelo e alerta para o risco de que pacientes classificados no segundo grupo tenham o tratamento da obesidade postergado.
Na proposta da comissão, segundo o endocrinologista, uma pessoa com obesidade e glicose alterada, por exemplo, pode ser classificada como tendo obesidade pré-clínica e receber inicialmente medidas preventivas, como orientação alimentar, atividade física e mudanças comportamentais. O tratamento medicamentoso da obesidade seria indicado para os casos classificados como obesidade clínica.
Mancini afirma que esse critério pode fazer com que um adolescente ou adulto jovem com diabetes e obesidade receba tratamento para a alteração da glicose, mas não necessariamente medicamentos para a obesidade. Para ele, essa abordagem contraria o princípio de intervenção precoce em doenças crônicas.
A Comissão Lancet propôs 18 critérios relacionados a sinais e sintomas para caracterizar a obesidade clínica. De acordo com Mancini, algumas doenças associadas à obesidade não foram incluídas diretamente entre esses critérios. O diabetes tipo 2, por exemplo, é tratado como uma doença por si só e não como critério para definir obesidade clínica.
O endocrinologista também chama a atenção para outros pontos. A doença hepática metabólica, segundo ele, só entra na classificação quando acompanhada de fibrose, enquanto triglicérides elevados precisam estar associados a HDL baixo ou glicose elevada. Aspectos como saúde mental, bem-estar e qualidade de vida também não integram os critérios.
“Sabemos que depressão, ansiedade e baixa autoestima estão frequentemente ligados à obesidade”, afirma Mancini.
Para o especialista, a preocupação é maior entre crianças, adolescentes e adultos jovens. A exposição prolongada ao excesso de gordura pode favorecer o desenvolvimento precoce de complicações metabólicas. Por isso, ele questiona uma classificação que considere a obesidade pré-clínica apenas um fator de risco e condicione determinadas intervenções ao surgimento de manifestações clínicas.
Outro aspecto abordado pela revisão é o histórico de peso. Considerar o maior peso atingido ao longo da vida pode ajudar a estabelecer metas terapêuticas e a avaliar a evolução do paciente, além de reforçar a compreensão da obesidade como uma condição crônica que exige acompanhamento de longo prazo.
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