Healthmaxxing: quando cuidar da saúde deixa de fazer bem
Healthmaxxing propõe otimizar a saúde por meio de hábitos, tecnologia e monitoramento constante, mas especialistas alertam que o excesso de controle pode aumentar a ansiedade e comprometer o bem-estar
Nunca se falou tanto sobre saúde quanto agora. Hoje, basta abrir as redes sociais para encontrar alguém ensinando a dormir melhor, outro mostrando a rotina de suplementos, um terceiro compartilhando exames detalhados, gráficos do relógio inteligente, monitor de glicose, banho de gelo, jejum, biohacking, dieta, exercícios, vitaminas e uma lista quase infinita de hábitos que prometem aumentar a longevidade e melhorar a performance. A sensação é de que sempre existe mais alguma coisa que ainda não estamos fazendo e que, se fizermos, finalmente alcançaremos uma versão melhor de nós mesmos.
Essa busca recebeu até um nome: healthmaxxing. Em tradução livre, seria algo como "extrair o máximo da saúde". A ideia é simples: otimizar tudo o que for possível. Dormir melhor, comer melhor, treinar melhor, monitorar mais dados do corpo, descobrir marcadores precoces de doenças e encontrar pequenas mudanças que, somadas, poderiam aumentar a qualidade e até o tempo de vida.
À primeira vista, parece uma excelente notícia. Afinal, durante décadas, a medicina lutou justamente para convencer as pessoas da importância da prevenção. O problema é que, como acontece com quase tudo, existe um momento em que uma boa ideia pode começar a produzir o efeito contrário.
Porque uma coisa é cuidar da saúde. Outra, muito diferente, é viver exclusivamente para ela.
É curioso observar como o conceito de bem-estar mudou nos últimos anos. Antes, cuidar da saúde significava fazer atividade física regularmente, dormir bem, alimentar-se de forma equilibrada e realizar exames quando indicado. Hoje, para muita gente, isso parece insuficiente. Surge a impressão de que é preciso conhecer cada detalhe do próprio organismo, acompanhar dezenas de indicadores, medir constantemente a qualidade do sono, controlar cada alimento ingerido, consumir suplementos específicos, testar protocolos novos e acompanhar as últimas tendências antes que elas fiquem ultrapassadas.
Sem perceber, algumas pessoas deixam de cuidar da saúde para começar a perseguir uma ideia de perfeição biológica. E perfeição, sabemos, é um objetivo impossível.
Existe um fenômeno psicológico interessante chamado FOMO (Fear of Missing Out), conhecido como o medo de estar perdendo alguma coisa importante. Durante muito tempo ele esteve relacionado às redes sociais, às viagens, aos eventos ou às experiências que pareciam acontecer apenas na vida dos outros. Mas, recentemente, esse sentimento ganhou uma nova versão: o medo de estar deixando passar alguma estratégia que poderia melhorar a saúde.
Será que eu deveria tomar aquele suplemento? Será que meu relógio mostra um sono pior do que deveria? Será que estou treinando do jeito certo? Será que existe um exame que ainda não fiz? Será que minha alimentação é realmente ideal? As perguntas nunca terminam. E isso faz com que o descanso mental também desapareça.
A ironia é que muitas pessoas entram nessa busca justamente porque querem viver mais e viver melhor. No entanto, acabam gastando tanto tempo monitorando o corpo que deixam de aproveitar a própria vida. O jantar com amigos vira motivo de culpa porque saiu da dieta. As férias geram ansiedade porque será difícil manter a rotina. Um doce deixa de ser apenas um doce e passa a representar um "erro". O corpo deixa de ser vivido e passa a ser constantemente avaliado.
A ciência mostra que prestar atenção aos sinais do organismo é importante. O problema aparece quando essa atenção se transforma em hipervigilância. Nosso cérebro foi programado para detectar ameaças. Quando passamos a observar cada pequeno sintoma, cada alteração mínima ou cada número diferente nos exames e aplicativos, aumentamos a chance de interpretar sinais normais como se fossem grandes problemas. É um mecanismo parecido com o que acontece em alguns quadros de ansiedade: quanto mais a pessoa procura sinais de que algo está errado, mais ela encontra motivos para se preocupar.
Outro aspecto pouco discutido é que o excesso de informação nem sempre produz mais tranquilidade. Em muitos casos, produz exatamente o contrário. Hoje temos acesso a milhares de estudos, influenciadores, especialistas e opiniões diferentes. Um vídeo afirma que determinado alimento é indispensável. Outro diz que ele faz mal. Um recomenda jejum. Outro condena. Um defende suplementos. Outro diz que são desnecessários. No fim, muitas pessoas ficam com a sensação de que qualquer escolha pode estar errada.
Esse ambiente favorece um comportamento conhecido como ortorexia, que ainda não aparece oficialmente como diagnóstico nos principais manuais psiquiátricos, mas já desperta grande interesse entre pesquisadores. Trata-se de uma preocupação excessiva com a alimentação considerada saudável. Aos poucos, a qualidade nutricional deixa de ser apenas uma preocupação e passa a dominar pensamentos, decisões e relações sociais. Comer deixa de ser uma experiência prazerosa para virar um exercício constante de controle.
O mesmo raciocínio pode ser aplicado a outros comportamentos ligados ao healthmaxxing. Quando dormir oito horas deixa de ser um hábito saudável e passa a gerar ansiedade sempre que não é possível cumprir a meta, talvez o problema já não seja mais o sono. Quando o relógio inteligente passa a decidir como você vai se sentir naquele dia, mesmo antes de você perceber como realmente está, talvez seja hora de rever quem está no controle: você ou os números.
Isso não significa que tecnologia, exames ou prevenção sejam ruins. Muito pelo contrário. Nunca tivemos tantas ferramentas capazes de detectar doenças precocemente e incentivar hábitos saudáveis. Elas representam um enorme avanço da medicina. O risco aparece quando essas ferramentas deixam de servir às pessoas e passam a comandá-las.
Existe uma frase bastante conhecida na medicina que diz que "tratamos pessoas, não exames". Talvez seja hora de adaptá-la para o mundo atual: precisamos lembrar que cuidamos de pessoas, não apenas de métricas. Saúde não é uma coleção de gráficos perfeitos. Também não é uma sequência interminável de protocolos. Muito menos uma competição silenciosa para descobrir quem tem a rotina mais otimizada.
Saúde envolve corpo, mas também envolve liberdade. Envolve conseguir fazer escolhas conscientes sem viver aprisionado por elas. Envolve cuidar da alimentação sem transformar cada refeição em uma prova. Envolve praticar exercícios porque eles fazem bem, e não porque o relógio disse que você ainda precisa gastar mais calorias. Envolve descansar sem culpa e entender que um dia fora da rotina dificilmente determina o futuro de alguém.
Talvez o maior paradoxo do healthmaxxing seja justamente esse. A tentativa de controlar absolutamente tudo nasce do desejo de viver melhor. Mas viver melhor também significa aceitar que nem tudo pode ser controlado. Nenhum suplemento elimina completamente o envelhecimento. Nenhum exame garante que nunca adoeceremos. Nenhum protocolo é capaz de substituir relações saudáveis, propósito, momentos de prazer e a capacidade de conviver com pequenas imperfeições.
No fim, talvez a verdadeira saúde não esteja em fazer tudo perfeitamente. Ela esteja em encontrar equilíbrio suficiente para cuidar do corpo sem transformar esse cuidado na única preocupação da vida. Porque uma rotina saudável deveria aumentar a sensação de liberdade.
Se ela aumenta apenas a ansiedade, talvez seja o momento de perguntar se ainda estamos cuidando da saúde ou apenas tentando controlar aquilo que nunca esteve totalmente sob nosso controle.
Sobre a autora
Jéssica Martani é médica psiquiatra, especialista em TDAH, saúde mental e regulação emocional. Coordena a pós-graduação em TDAH do Instituto TDAH, reconhecida pelo MEC, em parceria com a Universidade Anhanguera. É colunista da Bons Fluidos (Editora Caras) e criadora do canal Brilhantemente, onde traduz temas complexos e reflexões acessíveis para quem busca equilíbrio emocional e transformação pessoal. Saiba mais em Instagram e YouTube.
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