Gordura no fígado: 60% dos brasileiros ignoram exame importante
Pesquisa mostra que 60% dos brasileiros não sabem qual exame identifica a gordura no fígado; condição pode ser silenciosa e também atingir pessoas magras
A gordura no fígado costuma ser associada ao excesso de peso, mas essa relação não conta toda a história. Pessoas magras também podem desenvolver esteatose hepática, nome dado ao acúmulo excessivo de gordura nas células do fígado. E, como a condição frequentemente não provoca sintomas nas fases iniciais, ela pode permanecer despercebida durante bastante tempo.
Uma pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha em parceria com a farmacêutica Novo Nordisk mostra que ainda existe bastante desconhecimento sobre o problema entre os brasileiros. Embora 62% dos entrevistados afirmem temer um diagnóstico de gordura no fígado, 60% não sabem qual exame pode identificar a condição. Além disso, apenas 20% conhecem o termo "esteatose hepática".
O problema está longe de ser raro. Uma revisão sistemática publicada na revista científica Hepatology, que reuniu 92 estudos e dados de mais de 9 milhões de pessoas, estimou que a doença hepática gordurosa não alcoólica atingia aproximadamente 30% da população mundial. A prevalência também apresentou crescimento expressivo ao longo das últimas décadas.
Pessoas magras podem ter gordura no fígado?
Sim. Embora o excesso de peso e a obesidade sejam fatores de risco importantes, olhar apenas para os números da balança pode fazer com que outros aspectos da saúde passem despercebidos.
"O peso é apenas um dos fatores envolvidos. O que realmente importa é a saúde metabólica. Uma pessoa pode ter um IMC normal e, ainda assim, apresentar aumento de gordura visceral, resistência à insulina, predisposição genética, alterações da microbiota intestinal ou hábitos de vida que favorecem o acúmulo de gordura no fígado", explica a hepatologista Patrícia Almeida, ao portal Novo Momento. "Em outras palavras: não é a balança que determina a saúde do fígado."
Isso significa que uma pessoa pode estar dentro da faixa considerada adequada de IMC e, mesmo assim, apresentar alterações metabólicas relacionadas ao desenvolvimento da esteatose. Entre os fatores que podem favorecer o problema estão a resistência à insulina, diabetes e pré-diabetes, alterações no colesterol e nos triglicerídeos, predisposição genética e acúmulo de gordura visceral.
Hábitos cotidianos também podem aumentar o risco
A saúde do fígado é resultado de uma combinação de fatores. Uma alimentação com grande presença de produtos ultraprocessados, bebidas açucaradas e excesso de açúcares, por exemplo, pode contribuir para alterações metabólicas.
O sedentarismo também merece atenção. Ter pouca massa muscular e praticar pouca atividade física pode prejudicar a saúde metabólica mesmo quando não existe excesso de peso aparente.
Sono insuficiente, estresse crônico e consumo frequente de bebidas alcoólicas são outros elementos que precisam ser considerados. Por isso, avaliar a saúde hepática vai muito além de perguntar quanto uma pessoa pesa.
Por que a gordura no fígado pode passar despercebida?
Um dos principais desafios da esteatose hepática é justamente seu caráter silencioso. Muitas pessoas descobrem a alteração por acaso, durante exames solicitados por outros motivos ou em avaliações de rotina.
Quando manifestações aparecem, elas podem ser pouco específicas, como cansaço, indisposição ou desconforto na região superior direita do abdômen. Em quadros mais avançados de doença hepática, podem surgir sinais mais importantes, que exigem avaliação médica.
Por isso, a ausência de sintomas não significa necessariamente que o fígado esteja saudável. "Esperar sintomas para investigar não é uma boa estratégia. O fígado não enxerga apenas o peso. Ele responde ao conjunto dos nossos hábitos, da nossa genética e da nossa saúde metabólica", reforça Almeida.
Quem deve ficar mais atento?
Mesmo quem é magro pode precisar investigar a saúde do fígado quando existem outros fatores de risco. É o caso, por exemplo, de pessoas com diabetes ou pré-diabetes, colesterol e triglicerídeos alterados, hipertensão, histórico familiar de doença hepática ou alterações em exames anteriores.
Enzimas hepáticas fora dos valores esperados ou alterações encontradas por acaso em exames de imagem também podem levar o médico a aprofundar a investigação. A avaliação individual é importante porque nem sempre a aparência externa revela o que está acontecendo metabolicamente no organismo.
Quais exames detectam gordura no fígado?
Não existe apenas um exame utilizado em todos os casos. A investigação geralmente começa pela avaliação médica, que considera histórico de saúde, hábitos e fatores de risco.
Exames de sangue podem avaliar enzimas hepáticas, além de glicemia, colesterol e triglicerídeos. É importante lembrar, porém, que resultados normais de enzimas hepáticas não necessariamente descartam a presença de esteatose.
A ultrassonografia abdominal é um dos métodos de imagem utilizados para identificar gordura no órgão. Dependendo do caso, outros exames podem ser necessários.
A elastografia hepática, conhecida também por equipamentos como o FibroScan, ajuda a avaliar a rigidez do fígado e pode contribuir para identificar fibrose. Em situações específicas, exames como a ressonância magnética podem ser utilizados para uma avaliação mais detalhada. A escolha do método adequado deve ser feita pelo profissional de saúde de acordo com cada paciente.
Gordura no fígado pode se tornar um problema mais grave?
Apesar de muitas pessoas conviverem com o acúmulo de gordura sem desenvolver complicações importantes, alguns casos podem evoluir. A esteatose pode estar acompanhada de inflamação e, ao longo do tempo, uma parcela dos pacientes pode desenvolver fibrose, processo no qual o tecido saudável começa a ser substituído por cicatrizes. Em estágios mais avançados, a doença pode chegar à cirrose. É justamente por existir essa possibilidade de progressão que identificar pessoas com maior risco é tão importante.
É possível reduzir a gordura no fígado?
Mudanças no estilo de vida são parte central do cuidado com a esteatose hepática, mas as recomendações não são exatamente iguais para todas as pessoas.
Em pacientes com excesso de peso, uma redução gradual e orientada do peso corporal pode diminuir significativamente a quantidade de gordura no fígado. Já para pessoas magras, o objetivo não deve ser simplesmente emagrecer, mas melhorar a saúde metabólica.
Uma alimentação baseada principalmente em alimentos in natura ou minimamente processados, com redução do excesso de açúcar e ultraprocessados, pode fazer parte da estratégia.
A prática regular de atividade física também tem papel importante. Exercícios aeróbicos e atividades voltadas ao fortalecimento muscular podem contribuir para a melhora metabólica, inclusive independentemente de grandes alterações na balança. Dormir adequadamente, manejar o estresse e evitar ou reduzir o consumo de álcool também fazem parte dos cuidados.
Mais do que observar somente o peso, portanto, a prevenção passa por acompanhar o organismo como um todo. Ser magro não é sinônimo automático de estar metabolicamente saudável - e o fígado também precisa entrar nessa conta.
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