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Farmar aura: quando a busca por validação deixa de ser brincadeira entre adolescentes

Expressão popular nas redes sociais ganhou espaço no dia a dia dos jovens, mas especialistas alertam que a autoestima não pode depender da aprovação do grupo

31 jul 2026 - 09h28
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Se você convive com adolescentes ou usa redes sociais, provavelmente já ouviu alguém dizer que determinada pessoa "farmou aura". A expressão, que nasceu no universo dos games e ganhou força em plataformas como TikTok e Instagram, virou uma forma divertida de dizer que alguém conquistou respeito, carisma ou admiração depois de uma atitude considerada marcante. No entanto, embora pareça apenas mais uma gíria da internet, o termo também abre espaço para discussões importantes sobre autoestima, pertencimento e necessidade de aprovação social durante a adolescência.

Farmar aura virou uma das expressões mais populares entre adolescentes e reflete discussões sobre pertencimento, autoestima e validação social
Farmar aura virou uma das expressões mais populares entre adolescentes e reflete discussões sobre pertencimento, autoestima e validação social
Foto: Canva / Bons Fluidos

Segundo a educadora parental Claudia Alaminos, autora do livro 'Manual de Sobrevivência para Pais de Adolescentes' (Edipro), a expressão combina dois conceitos populares entre os jovens. "Farmar aura significa acumular pontos imaginários de carisma, respeito e estilo. Esses pontos são conquistados por meio de atitudes marcantes, que chamam a atenção." afirma. Ela explica que o verbo farmar vem dos jogos eletrônicos, e significa acumular recursos, enquanto aura representa presença ou impacto. Juntas, as palavras criaram um jeito leve e bem-humorado de comentar situações do cotidiano.

Por que "farmar aura" faz tanto sucesso?

O sucesso da expressão não acontece por acaso. Afinal, ela transforma algo abstrato, como popularidade, em uma espécie de jogo social. Segundo a especialista, isso conversa diretamente com uma das principais características da adolescência: a construção da identidade.

"Esse conceito faz sucesso porque transforma carisma e aprovação social em uma espécie de jogo. Isso combina muito com o universo dos adolescentes, especialmente porque se relaciona com a construção da identidade e com o desejo de pertencer." diz a especialista. Além disso, o termo acompanha o ritmo acelerado dos memes e das redes sociais. Por isso, aparece tanto em vídeos quanto em conversas presenciais entre amigos.

Quando a brincadeira começa a influenciar o comportamento?

Embora tenha surgido no mundo virtual, o conceito já faz parte do dia a dia de muitos adolescentes. Inclusive, já existem brincadeiras e competições informais em escolas e outros ambientes. Porém, o problema aparece quando a busca por "ganhar aura" começa a orientar escolhas pessoais. Segundo a especialista, o adolescente pode decidir como se vestir, agir ou falar pensando apenas na reação dos colegas ou no retorno que receberá nas redes sociais. Esse comportamento pode estimular criatividade e autoconfiança. Por outro lado, também pode aumentar a necessidade de aprovação externa e gerar insegurança.

Farmar aura e a busca por validação

A lógica da aura está diretamente ligada à validação social. Curtidas, comentários, compartilhamentos e elogios passam a funcionar como uma espécie de pontuação invisível, que indica se determinado comportamento foi bem recebido pelo grupo.

Para Claudia, o risco surge quando essa aprovação passa a definir o valor que o adolescente enxerga em si mesmo. "A autoestima pode se tornar instável quando depende daquilo que os outros pensam. O adolescente não deve basear quem ele é naquilo que ouve dos outros." explana. Por isso, ela reforça que a brincadeira não deve servir como medida da própria identidade.

O impacto nas amizades e na escola

Quando usada de maneira leve, a expressão pode fortalecer vínculos e criar sensação de pertencimento entre os jovens. Entretanto, a situação muda quando "ganhar" ou "perder aura" passa a estabelecer quem merece admiração ou será alvo de críticas. Segundo a educadora, esse cenário pode favorecer comparações constantes, criar hierarquias dentro dos grupos e aumentar o medo da rejeição. Além disso, quando a expressão é usada para constranger alguém repetidamente, ela pode contribuir para situações de bullying e cyberbullying.

Como os pais podem lidar com essa nova linguagem?

A especialista afirma que o pior caminho é ridicularizar a gíria ou tratar o assunto como algo sem importância. Segundo ela, expressões próprias sempre fizeram parte da adolescência e ajudam na construção da identidade dos jovens. Em vez de criticar, os responsáveis podem aproveitar o tema para criar momentos de diálogo.

"O caminho mais produtivo é ouvir o filho, perguntar como essa expressão aparece no grupo e observar se existe pressão ou sofrimento relacionado a isso." diz. Ela também recomenda que pais e mães demonstrem curiosidade genuína, mas sem tentar adotar o mesmo vocabulário dos filhos.

Como fortalecer a autoestima dos adolescentes?

Embora a autoconfiança seja construída individualmente, a família desempenha um papel importante nesse processo. Isso porque atitudes simples ajudam a fortalecer a segurança emocional dos adolescentes.

Entre elas, estão:

  • praticar a escuta ativa, sem julgamentos;
  • reconhecer os esforços, e não apenas os resultados;
  • valorizar qualidades que não dependem da aparência ou da popularidade;
  • incentivar interesses além das redes sociais;
  • criar momentos de convivência sem telas;
  • manter espaço para conversar sobre amizades, comparação e autoestima.

Para a educadora parental, o adolescente precisa perceber que seu valor não depende do número de curtidas ou da aprovação do grupo. "Essa abertura favorece o filho a pensar: 'Eu valho a pena porque os meus pais estão interessados em mim'." finaliza.

Bons Fluidos
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