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Diagnosticado com Alzheimer, ator de 85 anos se prepara para peça de teatro solo

Diagnosticado com Alzheimer há dois anos, Peter Marinker retorna ao teatro aos 85 anos e mostra que a doença não precisa significar o fim de suas paixões

31 ago 2026 - 19h10
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Resumo
Aos 85 anos e diagnosticado com Alzheimer, o ator britânico Peter Marinker se prepara para protagonizar sozinho a peça "A Última Gravação de Krapp", em Londres, papel que já havia interpretado em 1983. Com suporte de ponto eletrônico, telas de apoio e ensaios adaptados, o espetáculo incorporará gravações reais de sua voz do passado e reverterá o lucro para a instituição Alzheimer's Society, desafiando estigmas sobre a continuidade do trabalho artístico de pessoas com demência.

Receber um diagnóstico de Alzheimer poderia significar o afastamento definitivo dos palcos para muitos artistas. Peter Marinker, no entanto, decidiu seguir outro caminho. Aos 85 anos, o ator britânico está se preparando para protagonizar sozinho uma peça de Samuel Beckett em Londres, mesmo convivendo com os impactos da doença sobre a memória.

Aos 85 anos e diagnosticado com Alzheimer, Peter Marinker volta aos palcos para protagonizar sozinho uma peça de Samuel Beckett
Aos 85 anos e diagnosticado com Alzheimer, Peter Marinker volta aos palcos para protagonizar sozinho uma peça de Samuel Beckett
Foto: Reprodução/YouTube / Bons Fluidos

O desafio ganha ainda mais significado porque Marinker já conhece profundamente a obra. Ele interpretou o mesmo personagem de A Última Gravação de Krapp em 1983, há mais de quatro décadas. Agora, retornará ao texto em um momento completamente diferente de sua vida - e com uma experiência pessoal que acaba dialogando diretamente com a história apresentada no palco.

Na peça, um escritor idoso escuta gravações feitas por ele próprio quando era mais jovem. A partir dessas vozes do passado, entra em contato com escolhas, arrependimentos e oportunidades que ficaram pelo caminho. Para a nova montagem, a produção encontrou registros da apresentação feita por Marinker nos anos 1980. As gravações serão incorporadas ao espetáculo, criando um encontro real entre o ator de hoje e sua própria voz do passado.

Diagnóstico veio após dificuldades no palco

Com uma carreira extensa, Peter Marinker tornou-se especialmente conhecido pelo trabalho como ator de voz, participando de produções para rádio e videogames. No cinema, seu currículo inclui títulos como Labirinto: A Magia do Tempo, Simplesmente Amor, Voo United 93 e Paddington: Uma Aventura na Floresta.

Foi justamente durante outro trabalho no teatro que ele percebeu que algo estava diferente. Em 2023, enquanto vivia Gandalf em uma adaptação de O Senhor dos Anéis, Marinker começou a sentir dificuldades durante as apresentações e descreveu a experiência como se estivesse "se desligando". Um substituto precisou assumir o papel até o encerramento da temporada.

Depois disso, o ator passou por exames médicos, incluindo ressonância magnética, e recebeu o diagnóstico de doença de Alzheimer. "Eu só precisava aceitar", afirmou. A partir da descoberta, situações que antes pareciam simples distrações começaram a fazer mais sentido para ele. "Isso explicava por que eu continuava perdendo coisas e comecei a rir de mim mesmo, de todas as outras bobagens que faço repetidas vezes."

Os esquecimentos já interferem em sua rotina. Durante a preparação para o novo espetáculo, por exemplo, o ator chegou ao teatro durante quatro dias consecutivos acreditando que havia ensaio, quando nenhum estava marcado.

Uma estrutura especial para que ele continue trabalhando

O convite para retornar aos palcos partiu de Dave Wybrow, diretor do Cockpit Theatre, em Londres, com quem Marinker já havia trabalhado anteriormente. A reação do ator foi imediata. "Dave perguntou se eu gostaria de fazer e eu simplesmente respondi: 'Sim. Ah, sim, sim, sim, sim!'"

Para que o Alzheimer não impeça a apresentação, a produção adaptou a rotina e a própria estrutura do espetáculo. Os ensaios começaram ainda no fim de junho, garantindo um período maior para que Marinker pudesse se familiarizar novamente com o texto.

Durante as apresentações, ele também não estará desamparado. Um profissional ficará próximo ao cenário para auxiliá-lo, telas com o texto serão posicionadas em diferentes pontos do teatro e o ator usará um pequeno ponto eletrônico, que permitirá receber orientações rapidamente caso alguma fala desapareça da memória.

A proposta, segundo Wybrow, não é "esconder" a condição do protagonista. Pelo contrário: a montagem pretende mostrar que um diagnóstico de demência não necessariamente elimina a possibilidade de continuar criando, trabalhando e participando de atividades significativas. "Eu ainda vou ficar nervoso [na noite de estreia], mas sei como lidar com isso. É apenas a adrenalina", afirmou Marinker.

Por que algumas memórias resistem por mais tempo?

A própria ciência ajuda a compreender como um ator com Alzheimer pode conseguir retornar a um papel aprendido décadas atrás. A doença não compromete todas as formas de memória exatamente da mesma maneira ou na mesma velocidade. Nas fases iniciais, estruturas cerebrais relacionadas ao hipocampo costumam estar entre as afetadas. Essa região é especialmente importante para as chamadas memórias episódicas, ligadas a acontecimentos vividos em momentos específicos.

Por isso, uma pessoa pode ter dificuldade para se lembrar de uma conversa recente, de um compromisso, do nome de alguém ou de determinado acontecimento e, ao mesmo tempo, continuar executando tarefas praticadas inúmeras vezes ao longo da vida.

Habilidades, hábitos e conhecimentos muito consolidados podem permanecer acessíveis por mais tempo. É o que pode acontecer com músicas conhecidas, atividades rotineiras e até conteúdos repetidamente ensaiados durante uma carreira.

É justamente esse contraste que torna o retorno de Marinker especialmente simbólico: enquanto enfrenta dificuldades para registrar e recuperar algumas informações recentes, ele volta a um personagem que fez parte de sua trajetória artística há mais de 40 anos.

Ator quer ajudar a combater o estigma da demência

As apresentações também terão um propósito social. Todo o lucro arrecadado durante os quatro dias de temporada será destinado à Alzheimer's Society, instituição que ofereceu apoio ao ator depois do diagnóstico.

O gesto chama atenção para um problema que ultrapassa os sintomas da própria doença: o estigma. Uma pesquisa realizada para a organização em 2025 indicou que 42% das pessoas que vivem com demência sentiam vergonha das manifestações da condição. Entre os entrevistados com problemas de memória, um em cada cinco afirmou ter evitado procurar um médico por receio da reação de familiares e amigos.

Marinker parece enxergar o espetáculo com a mesma mistura de consciência e leveza com que passou a falar sobre sua condição. Ele chama a montagem de seu "maravilhoso canto do cisne" e reconhece que sabe que a doença poderá avançar. "Estou no estágio inicial [da doença], então preciso aproveitar ao máximo essa fase e me preparar da melhor maneira possível para o estágio intermediário", declarou. E, mesmo diante de um desafio tão grande, o ator não perdeu o humor: "Talvez eu sobreviva a esta [apresentação], ou talvez simplesmente caia duro!"

Bons Fluidos
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