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Conheça a Lenda da Perna Cabeluda, retratada no filme 'O Agente Secreto'

Do pânico nas ruas nos anos 1970 ao imaginário pop que inspira filmes, músicas e cordéis, a lenda atravessa décadas e revela como boatos nascem em tempos de tensão social

22 jan 2026 - 14h10
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O cinema pernambucano está cada vez mais em alta - e, com ele, histórias que parecem impossíveis ganham nova força. Nesta quinta-feira (22), "O Agente Secreto" recebeu uma série de indicações ao Oscar 2026, reacendendo a curiosidade sobre um "personagem" que muita gente jurou ser real: uma perna humana, grande, peluda e sem corpo, que andaria sozinha pela cidade. O que parece invenção de terror virou uma das lendas urbanas mais emblemáticas do Recife - e um retrato simbólico de um tempo em que o medo se espalhava rápido.

Entenda a origem da lenda da “Perna Cabeluda” no Recife, como ela virou tema cultural e reaparece no filme “O Agente Secreto”
Entenda a origem da lenda da “Perna Cabeluda” no Recife, como ela virou tema cultural e reaparece no filme “O Agente Secreto”
Foto: Reprodução/YouTube/Globo / Bons Fluidos

Uma assombração que começou como notícia

Os registros mais conhecidos colocam a "Perna Cabeluda" no noticiário em meados da década de 1970, quando manchetes e relatos surgiram na imprensa local como se o caso fosse investigação policial. Descreviam a figura como uma perna que aparecia isolada, projetava sombras em paredes e "atacava" pessoas na rua - especialmente em bairros da região metropolitana, como Tiúma, em São Lourenço da Mata.

A lenda foi crescendo com a repetição. Vizinhos de uma suposta "casa assombrada" diziam ver a sombra se mexendo; outras pessoas relatavam aparições no fim da tarde, em uma réstia de luz que lembraria o contorno de uma perna humana. E, quando o assunto ganhou volume, o que era boato passou a ser tratado como caso público. O pânico começou a guiar comportamentos, com gente evitando sair de casa à noite.

Ditadura, censura e o medo que procura um corpo

A "Perna Cabeluda" também é produto de um período específico. Anos de repressão, censura e instabilidade, quando a sociedade vivia em alerta e a informação circulava com cortes, distorções e silêncio. Nesse cenário, o fantástico pode funcionar como válvula de escape - e também como linguagem indireta para narrar o que não se podia dizer.

É por isso que algumas interpretações apontam que a lenda teria servido como código para falar de violência institucional e agressões sem enfrentar diretamente a censura. Como resume o psicanalista e pesquisador Márisson Fraga, ao Fantástico: "Você tem ali um cenário sociológico que faz com que essa lenda encontre espaço no imaginário coletivo das pessoas. Um retrato de medo de uma geração", explica.

Com o tempo, a Perna ganhou ainda outra camada. A de "polícia moral", punindo quem estaria "na farra" - uma ideia que conversa com o conservadorismo da época e com o controle social (real e simbólico) exercido sobre corpos e comportamentos.

Do terror ao patrimônio pop: quando o boato vira cultura

Como acontece com muitos mitos urbanos, a "Perna Cabeluda" não ficou presa ao susto inicial. Ela passou a existir também como símbolo cultural: entrou em músicas, blocos de carnaval, esculturas, cordéis e projetos que investigam o folclore recifense. A lenda deixou de ser só "medo" para virar um jeito de contar a própria cidade - com humor, crítica, imaginação e memória.

E essa passagem é poderosa: quando uma comunidade transforma pânico em narrativa, ela também transforma trauma em linguagem. A "Perna Cabeluda", décadas depois, continua viva não porque alguém ainda a veja. Mas porque ela virou um espelho de época, lembrando como a criatividade popular encontra caminhos mesmo quando a realidade tenta se impor pela força.

Lenda em O Agente Secreto

Segundo o recifense João Paulo Braga Reis, doutor em Ciências da Religião e coautor do artigo acadêmico "A Perna Cabeluda: Violência Sobrenatural e Factual na Cidade do Recife". Publicada na revista Paralellus em 2023, a história está diretamente ligada ao clima de insegurança vivido na capital pernambucana nos anos 1970.

No cinema, O Agente Secreto amplia esse repertório de medos urbanos ao associar a lenda a outro fantasma local: os ataques de tubarão. Mas como observa o pesquisador, esses incidentes só foram registrados a partir dos anos 1990. "Eu fiquei muito feliz de ver a lenda no filme e de todo esse sucesso que está fazendo internacionalmente. As pessoas de outros países estão começando a conhecer a realidade do Recife e essa lenda que traz muito dos aspectos sociais", afirma Reis.

O retorno no cinema: por que isso importa hoje

Ao reaparecer em "O Agente Secreto", a "Perna Cabeluda" funciona como mais do que um toque de realismo fantástico. Ela reconecta o público a uma memória coletiva do Recife. No fim, a lenda sobrevive porque carrega algo humano: a necessidade de criar história quando a realidade é dura demais. A "Perna Cabeluda" pode até ser absurda, mas o que ela conta sobre repressão, pânico, imaginação e resistência continua assustadoramente real.

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