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Testes clínicos: Entenda como funcionam as fases 1, 2 e 3 de uma pesquisa científica

Encontros e desencontros da ciência

27 ago 2026 - 10h32
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Resumo
O desenvolvimento de medicamentos e vacinas exige testes clínicos rigorosos para garantir segurança e eficácia. Dividido em etapas, o processo analisa a dosagem e segurança inicial (fase 1), busca sinais de funcionamento (fase 2) e confirma a efetividade e efeitos raros em grandes populações (fase 3). Esse método gradual, embora demorado, é indispensável e exigido pela ética científica para minimizar riscos humanos e descartar fórmulas ineficazes ou prejudiciais antes da aprovação.

Entenda as famosas três fases de testes e sua importância para o avanço científico

A pandemia de Covid-19 foi um período de dor e tristeza para toda a humanidade, mas também trouxe um motivo de orgulho: conseguimos produzir vacinas em tempo recorde. A Pfizer/BioNTech, a Moderna e a Oxford/AstraZeneca concluíram seus imunizantes em cerca de dez meses, entre 2020 e 2021 — um feito sem precedentes na medicina. Antes delas, o recorde era da vacina contra o ebola (rVSV-ZEBOV), desenvolvida em aproximadamente cinco anos, entre 2014 e 2018. O feito já representava um marco, sobretudo porque o tempo médio para testes científicos costuma variar entre 10 e 15 anos.

Foto de ThisisEngineering na Unsplash
Foto de ThisisEngineering na Unsplash
Foto: Revista Malu

"Muita gente desconfiou que a velocidade era falta de rigor, e essa desconfiança causou sofrimento e mortes. Mas a ciência foi feita de forma muito rigorosa durante a pandemia, já que, com o mundo parado, milhares de cientistas puderam se dedicar a um único assunto. O mesmo aconteceu com quem financia pesquisa: governos e empresas injetaram muitos recursos de uma só vez", explica André Moraes Nicola, professor da Faculdade de Medicina da UnB, pesquisador da Rede Biota Cerrado e da Rockefeller University (Nova York).

A rápida disseminação da Covid-19 pelo planeta também desempenhou um papel decisivo, permitindo que os pesquisadores testassem e acompanhassem milhares de pessoas. "A gente vê se uma vacina ou tratamento são seguros e funcionam medindo aumento ou diminuição no número de casos e de mortes. Na Covid-19, conseguimos observar milhares de casos em apenas um mês em meia dúzia de hospitais. Já no caso de um medicamento para infarto, por exemplo, para alcançar o mesmo número de casos, poderíamos precisar de uma década de estudo em duzentos hospitais", complementa.

Para esclarecer como a ciência separa o joio do trigo ao produzir novas substâncias, remédios e vacinas, A MALU conversou com o especialista sobre como funcionam e para que servem as fases de testes. Confira!

Quais são as três fases de testes e por que cada uma delas existe? 

"Na verdade, a gente tem até mais etapas além das famosas fases 1, 2 e 3. Os grandes ensaios clínicos — aqueles que lemos no jornal quando uma agência aprova um remédio — exigem investimentos gigantescos, podem demorar anos e custar milhões de reais. Só faz sentido fazer isso com compostos que tenham maior chance de dar certo, baseado nos resultados de testes menores, com menos gente. Além disso, a maioria das coisas que parecem boas nesses estudos menores acaba se mostrando inútil ou até ruim nas etapas posteriores.

Numa média meio simplista, só um de cada dez compostos que passam pela fase 1 é aprovado na fase 3. A razão mais importante, no entanto, é a ética. Num ensaio clínico, a gente pede para uma pessoa receber um tratamento que ninguém sabe se funciona ou se é seguro. A gente se esforça para ter a maior certeza possível da segurança, mas há situações raras em que pessoas saudáveis ficaram doentes ou até morreram ao participar de um estudo. Então a gente tem que ir aos poucos para expor o menor número possível de pessoas ao menor risco possível."

Muitas vezes o público sente que a ciência é 'lenta'. Por que não podemos pular etapas?

"A própria lei não permite! A gente pode até sentir que essas leis atrapalham, tornam tudo lento, que é coisa de burocratas querendo criar um monte de regras para atrapalhar. Mas, quando você estuda séculos de pesquisa feita por milhares de pessoas ao redor do mundo, você entende por que o desenvolvimento tem que ser assim. Esse método diminui muito a chance de produzir algo que não funciona ou que prejudica o paciente."

A Fase 1 foca em um grupo muito pequeno de pessoas. O que exatamente os cientistas observam nesse estágio inicial?

"Duas coisas bem específicas. A primeira é segurança. Antes de saber se algo funciona, a gente quer saber se é seguro. Por isso, esses estudos são feitos com poucas pessoas, recebendo os compostos experimentais em doses crescentes e com acompanhamento bem detalhado e longo. O segundo foco é numa coisa mais técnica, chamada de farmacocinética, que significa entender como a droga entra no nosso corpo, para onde ela vai, o que acontece com ela e como nosso corpo irá descartá-la."

Na Fase 2, o grupo de teste aumenta. Como os cientistas determinam se o medicamento funciona?

"Na fase 2 a gente ainda não prova definitivamente, mas começa a buscar sinais de que o composto funciona. Imagina que você está criando um medicamento que reduz o colesterol para prevenir infarto, por exemplo. Seu objetivo final é reduzir a morte por infarto, o que a gente chama de desfecho. Mas isso é muito difícil e demorado de testar. Na fase 2, então, a gente olha o efeito daquele composto só nos níveis de colesterol no sangue, que a gente consegue medir em dias. Ver uma diminuição no colesterol não prova que você reduz o risco de morte por infarto, isso só vem depois; mas, se nessa fase 2 a gente não vê nenhuma redução do colesterol, a gente nem segue com ele para as próximas fases."

Muitas substâncias falham na Fase 3. Por que um projeto promissor dá errado após chegar tão longe?

"Duas características da fase 3 explicam por que muito do que chega nessa etapa falha. A primeira é que os pesquisadores conduzem os ensaios de fase 3 com um número muito maior de pessoas, em lugares diferentes e por um período bem longo. Efeitos adversos raros ou que demoram muito tempo para acontecer não aparecem nos estudos de fase 1 ou 2. Em segundo lugar, os pesquisadores realizam os ensaios de fase 3 em um ambiente muito menos controlado e restrito do que nos estágios anteriores, aproximando o teste do mundo real. Muitas fórmulas parecem funcionar bem quando a equipe as testa em um hospital universitário, cercada de cientistas e profissionais de saúde, mas perdem a eficácia no uso prático do dia a dia. Em termos técnicos, a gente fala que tem eficácia, mas não efetividade."

Como a comunidade científica valida resultados antes de aceitá-los como conhecimento consolidado?

"O senso comum sugere que ciência é uma coisa exata, cheia de verdades absolutas. A realidade é bem mais complexa, porque a ciência é uma atividade humana, falível, que lida com probabilidades. O conhecimento científico é resultado de um processo social, de uma comunidade. Um cientista afirma uma coisa, os outros vão lá destrinchar os resultados e tentar repetir para ver se acham a mesma coisa. É demorado e pode falhar, como qualquer outra atividade humana. Mas é uma das melhores ferramentas que a humanidade já criou para melhorar nossa vida."

Qual é o maior desafio atual para que a sociedade compreenda e valorize esse processo científico?

"O grande desafio é que a maioria das pessoas não entende como a ciência é feita. A sociedade espera respostas rápidas, mas em muitos casos esse processo demora. Não por burocracia, mas porque muitas doenças são raras e demoram muito para ocorrer ou para ter seu desfecho. As pessoas também esperam respostas precisas e sempre corretas, mas nós, cientistas, lidamos com incertezas. Os cientistas, em geral, não são muito bons em explicar isso. Junto com profissionais da comunicação, os cientistas têm que explicar melhor não só as conclusões das suas pesquisas, mas como chegaram até elas. E a gente, como sociedade, precisa ensinar melhor nas escolas como a ciência funciona, o que ela pode fazer e, mais importante, como ela pode errar e o que ela não pode fazer."

Revista Malu Revista Malu
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