Por que você não deve buscar a cura apenas no amor romântico, segundo especialista
Olivia Rodrigo levantou a questão da cura de feridas emocionais pelo amor romântico em seu novo álbum, mas neurocientistas já alertavam sobre o verdadeiro caminho para a superação há algum tempo
Na música 'The Cure', do álbum 'you seem pretty sad for a girl so in love', Olivia Rodrigo expressa sua frustração ao descobrir que a cura para as dores emocionais não está no amor romântico. Essa percepção costuma pegar muita gente de surpresa, principalmente os jovens. Entretanto, é uma realidade que a neurociência já comprova há anos.
"Durante muito tempo, fomos levados a acreditar que o amor romântico representa a principal fonte de felicidade e realização. Filmes, músicas e narrativas que atravessam gerações reforçam a ideia de que encontrar um parceiro é a resposta para os nossos vazios e desafios. Porém, estudos tem mostrado que, diante dos momentos mais difíceis da vida, são outros tipos de vínculos que frequentemente sustentam nossa capacidade de seguir em frente", explica Eliane Sato, especialista em neurociência aplicada ao comportamento humano.
Cura no amor não romântico
De acordo com a profissional, uma das descobertas que fez durante seus anos de estudo foi que a superação real — ou a "cura", como diz Rodrigo — não acontece de forma isolada. Ou seja, muitas vezes apenas o afeto de um namorado não serão suficientes para resolver as feridas e, enfim, permitir a felicidade plena.
E a explicação para esse fenômeno está na forma como o cérebro processa as experiências responsáveis por afetar o emocional, como rejeições e rupturas. Sato explica que esses momentos de sofrimento impactam áreas da mente semelhantes às ativadas ao sentir dor física.
"Para o cérebro, eles não são menos reais por não deixarem marcas visíveis no corpo. Ao mesmo tempo, relações marcadas pela confiança, pelo cuidado e pela sensação de pertencimento favorecem respostas neurobiológicas associadas ao bem-estar e contribuem para uma regulação mais equilibrada do estresse", aponta.
Por isso, o remédio para as feridas emocionais dificilmente está apenas na paixão ou no ser amado. É necessário estimular diferentes regiões cerebrais para reverter os danos iniciais. Esses estímulos — como presença, respeito e compreensão — são encontrados em uma rede de apoio com diversos tipos de relações. Eles vêm do amor não romântico, que se manifesta seja por meio do amigo que escuta sem julgamentos precipitados, seja pelo familiar que se faz presente durante um tratamento de saúde.
Como a rede de apoio ajuda
Dessa forma, os relacionamentos, conforme aponta a especialista, são os responsáveis por ajudar a preservar aspectos fundamentais da identidade em períodos de fragilidade. Isso porque, nesses momento, é comum que a dor nos faça enxergar a nós mesmos a partir daquilo que perdemos ou das dificuldades. No entanto, "o olhar acolhedor de quem nos conhece para além das circunstâncias funciona como um lembrete". Ele mostra que "somos maiores do que os episódios mais difíceis da nossa trajetória".
É esse apoio que permite ao cérebro não se apegar ao sofrimento. Em vez disso, ele utiliza a experiência para reorganizar conexões e construir novos caminhos. "Talvez por isso seja tão importante ampliar a nossa compreensão sobre o amor, pois nem sempre ele se apresenta na forma idealizada dos romances ou nos grandes gestos retratados pela ficção. Muitas vezes, o amor que nos ajuda a recomeçar está presente nos vínculos discretos que oferecem escuta, respeito, apoio e permanência", conclui a Eliane Sato.
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