Marina Rotty explora os desafios sociais da não monogamia consensual
Novo livro da sexóloga Marina Rotty discute modelos relacionais
A psicóloga e sexóloga Marina Rotty mergulha na complexidade da não monogamia consensual em seu livro 'Orientação Relacional: O Amor do Seu Jeito'. Ela analisa como classe, gênero e contexto social influenciam a capacidade de viver relações fora da norma, propondo uma abordagem que conecta desejo, pertencimento e segurança emocional. 💭✨
A psicóloga e sexóloga Marina Rotty propõe olhar para a não monogamia a partir dos recortes de classe, gênero, cultura e contexto social.
A possibilidade de viver relações fora do modelo tradicional não depende só de desejo. Em muitos casos, ela também passa por repertório, dinheiro, rede de apoio, privacidade e proteção contra o julgamento social. Quando o assunto é não monogamia consensual, que inclui formatos como poliamor ou relacionamento aberto, a pergunta deixa de ser apenas "quem quer?". Passa a ser também "quem consegue sustentar isso sem pagar um preço alto?".
É esse deslocamento que a psicóloga e sexóloga Marina Rotty propõe ao apresentar o conceito de orientação relacional. O tema central de seu livro Orientação Relacional: O Amor do Seu Jeito. Para ela, cada pessoa se vincula afetiva e sexualmente de um jeito próprio, mas essa forma de amar não nasce no vazio: é atravessada por identidade, desejo, personalidade e contexto. No debate sobre vínculos não convencionais, isso significa olhar para além da escolha individual e considerar também as estruturas sociais que tornam algumas experiências mais viáveis do que outras.
"Não existe uma experiência universal da não monogamia consensual, porque cada indivíduo negocia desejo, pertencimento e liberdade a partir do lugar que ocupa no mundo", resume Marina. A fala ajuda a sustentar uma tese que vem ganhando força entre estudiosos do comportamento e da sexualidade: viver fora da norma não é apenas uma questão de afinidade com determinado modelo afetivo, mas também de condições materiais e simbólicas para fazê-lo.
O peso da classe
Entre os fatores que mais ajudam a explicar essa desigualdade está a classe social. "Grande parte das discussões públicas sobre poliamor, relacionamento aberto, anarquia relacional acontece em ambientes urbanos, intelectualizados e com certo grau de privilégio econômico." A observação ajuda a deslocar o debate de um campo apenas comportamental para um campo social, em que linguagem, legitimidade e pertencimento também contam. Não por acaso, são esses espaços que costumam concentrar linguagem, repertório teórico, grupos de conversa, eventos e profissionais especializados no tema.
Segundo ela, experimentar modelos relacionais alternativos exige tempo emocional, privacidade, autonomia financeira e, muitas vezes, acesso à terapia, redes de apoio e capital cultural. "Para muitas pessoas, especialmente em contextos de vulnerabilidade, o relacionamento tradicional continua funcionando como estrutura de proteção social e estabilidade prática." Em outras palavras, sair da norma pode ser possível no desejo, mas arriscado na vida real.
Essa diferença ajuda a explicar por que certas nomenclaturas ganham tração em alguns grupos e quase não chegam a outros. Termos como poliamor, agamia ou neomonogamia surgem em ambientes específicos, muitas vezes acadêmicos ou digitais, e nem sempre representam de forma fiel a experiência de quem vive vínculos fora da norma sem usar rótulos. "Muitas vezes, indivíduos praticam dinâmicas não monogâmicas sem usar qualquer nomenclatura, enquanto outros encontram nos termos uma forma de validação identitária e pertencimento coletivo", explica Marina.
Evidenciando que em ambos os casos, a linguagem também revela desigualdade de acesso ao debate.
Gênero e julgamento
Se a classe define parte das condições de possibilidade, o gênero define parte do custo social. Marina observa que homens historicamente receberam maior permissão cultural para dissociar sexo, amor e exclusividade. Já as mulheres continuam mais expostas a julgamentos morais quando expressam múltiplos desejos ou recusam modelos afetivos tradicionais.
"Homens historicamente receberam maior permissão cultural para dissociar sexo, amor e exclusividade, enquanto mulheres ainda enfrentam julgamentos morais mais intensos quando expressam múltiplos desejos ou não querem modelos tradicionais de relacionamento." Na prática, isso cria experiências muito diferentes dentro da própria não monogamia.
Enquanto alguns homens conseguem atravessar esse debate com certa legitimidade social, muitas mulheres vivem a decisão em uma zona de tensão entre o que desejam e o que esperam delas. A relação entre autonomia sexual e vigilância moral ainda pesa mais sobre corpos femininos, o que ajuda a explicar por que tantas relatam culpa, medo de exposição e dificuldade de sustentar publicamente seus vínculos.
Esse desequilíbrio não se limita à opinião alheia. Ele atravessa família, trabalho, redes de amizade e a própria forma como cada pessoa aprende a falar sobre desejo. Em muitos casos, o obstáculo não é apenas viver uma relação não convencional, mas conseguir fazê-lo sem ser punida simbolicamente por isso.
Sexualidade e pertencimento
A orientação sexual também interfere nesse mapa. Pessoas LGBTQIA+ muitas vezes tiveram de construir vínculos fora dos modelos familiares tradicionais muito antes de um debate de tal complexidade ganhar linguagem pública. Isso não significa ausência de conflito, ciúme ou desejo de exclusividade. Mas, pode significar maior familiaridade com redes afetivas menos normativas e com formas mais flexíveis de intimidade.
Na leitura de Marina, esse histórico ajuda a entender por que parte da população LGBTQIA+ se mostra mais aberta a questionar os formatos convencionais de relacionamento. Ainda assim, não se trata de romantizar essa abertura. A existência de repertório não elimina os dilemas emocionais nem resolve os desafios práticos de sustentar vínculos não convencionais em sociedades que ainda privilegiam a monogamia como ideal.
É aqui que a orientação relacional ganha utilidade clínica. O conceito tenta diferenciar quem está em conflito porque escolheu um formato incompatível com sua forma de amar de quem está sofrendo por pressão externa, preconceito ou falta de condições para sustentar sua própria verdade afetiva. Em ambos os casos, a pergunta central deixa de ser "qual é o modelo certo?" e passa a ser "o que faz sentido para esta pessoa, na vida real?".
A moral religiosa
A religião também pesa nessa equação. Em contextos fortemente marcados por valores religiosos, a monogamia não aparece apenas como uma escolha afetiva, mas como um ideal moral. Isso afeta diretamente a maneira como as pessoas sentem culpa, desejo, compromisso e pertencimento.
Mesmo quem se identifica como não monogâmico pode carregar conflitos internos produzidos por anos de socialização religiosa e cultural. A sensação de estar "errando" ao desejar mais de uma pessoa, ou ao recusar a exclusividade como norma, muitas vezes não vem da experiência em si, mas do peso simbólico atribuído a ela. Por isso, falar de não monogamia é também falar de moral, disciplina social e da forma como certos modelos afetivos são tratados como legítimos ou desviantes.
Marina resume essa complexidade ao apontar que a diversidade não se encerra na sexualidade. Para ela, sexualidade e relacionamento andam de mãos dadas, e os termos usados para nomear essas experiências só fazem sentido quando ajudam a reconhecer o lugar de cada pessoa no mundo — e não quando se tornam novas formas de hierarquia.
Mais do que um rótulo
O debate sobre não monogamia consensual costuma ser atravessado por rótulos. Poliamor, relacionamento aberto, neomonogamia, agamia, solo poli: as palavras ajudam a organizar o universo dos vínculos contemporâneos, mas também podem distorcer a experiência real de quem vive essas relações. Comumente, a nomenclatura vira identidade antes mesmo de haver elaboração subjetiva suficiente para sustentá-la.
Para Marina, esse é um dos riscos do debate público. "Mais importante do que aderir a uma identidade relacional da moda é compreender como cada indivíduo enxerga apego, pertencimento, exclusividade, liberdade e intimidade", resume.
A orientação relacional, ao contrário, tenta recolocar a conversa no lugar do desejo, do pertencimento e da segurança emocional. Em vez de perguntar apenas qual nome cabe em cada relação, o conceito convida a olhar para como cada pessoa se organiza para amar, se vincular e negociar liberdade.
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