Filho de ex-bailarina do Faustão passa em vestibular da UERJ aos 11 anos: 'Vibrei muito'
Aprovado na primeira fase do vestibular da UERJ aos 11 anos, Romeu acumula conquistas acadêmicas, mas sua história também destaca os desafios enfrentados por crianças com altas habilidades
Quando pensamos na infância, costumamos imaginar brincadeiras, descobertas e os primeiros passos na construção da própria identidade. Mas algumas crianças também convivem com um ritmo de aprendizado muito diferente da média, o que pode trazer desafios tão grandes quanto os talentos que apresentam. Foi essa realidade que a ex-bailarina do Faustão, Rachel Gutvilen, de 43 anos, viu novamente ganhar destaque após uma conquista recente do filho, Romeu.
Aos 11 anos, o menino foi aprovado na primeira fase do vestibular da UERJ, uma prova tradicionalmente realizada por estudantes que já estão no Ensino Médio. A notícia encheu a mãe de orgulho, mas também trouxe à tona uma conversa importante sobre altas habilidades, desenvolvimento infantil e a necessidade de oferecer estímulos adequados para crianças com perfis excepcionais.
"Vibrei muito quando soube do resultado. Sou mãe solo, então a família é pequena. Foi uma conquista que nos deixou imensamente orgulhosos", contou Rachel, em entrevista à Quem.
Muito além das notas: uma infância que continua sendo infância
Embora os resultados acadêmicos chamem atenção, Rachel faz questão de destacar que o filho não vive apenas em função dos estudos. Segundo ela, apesar da facilidade para aprender conteúdos complexos, Romeu continua desfrutando das experiências típicas da sua idade.
"Mas, apesar do cognitivo extremamente avançado, ele anda de patins, brinca de se esconder, dá susto na gente como uma criança da idade dele. Ele vive uma vida de criança."
Essa observação é importante porque existe um equívoco frequente quando se fala em superdotação: a ideia de que crianças com altas habilidades deixam de ser crianças. Na realidade, elas continuam precisando de lazer, vínculos afetivos, brincadeiras e momentos de descontração, mesmo quando demonstram capacidades intelectuais muito acima da média.
O que é a superdotação?
A superdotação, também conhecida como altas habilidades, envolve um desempenho significativamente superior em uma ou mais áreas do desenvolvimento, como raciocínio lógico, criatividade, linguagem, liderança, artes ou habilidades acadêmicas.
No caso de Romeu, o interesse pelos números apareceu muito cedo. Hoje, além da aprovação no vestibular, ele acumula participações em olimpíadas acadêmicas e torneios de xadrez. Quando tinha apenas sete anos, inclusive, tornou-se o participante mais jovem do programa Domingão com Huck naquele período.
Rachel conta que a identificação da superdotação aconteceu quando o filho tinha apenas cinco anos. Na época, alguns comportamentos ligados à ansiedade começaram a chamar sua atenção. "Eu sabia que ele era fascinado por números. Pesquisei professores de matemática particular e, assim que ele começou as aulas, os tiques sumiram. Era uma ansiedade que foi resolvida quando ele passou a receber desafios que a escola jamais entregava."
O relato reforça algo que especialistas frequentemente observam: crianças com altas habilidades podem sofrer quando não encontram estímulos compatíveis com seu potencial. Em alguns casos, o tédio, a frustração e a falta de desafios acabam sendo interpretados como desinteresse ou problemas comportamentais.
O desafio de educar uma criança que aprende de forma diferente
Ao longo dos anos, Rachel buscou adaptar o ambiente ao perfil do filho, oferecendo oportunidades que alimentassem sua curiosidade intelectual. Matemática, xadrez e piano passaram a fazer parte da rotina da família. "Sempre incentivei e validei o Romeu desde quando descobri a superdotação. Sempre entendi que ele funcionava de maneira diferente da média e fui entregando tudo o que a mente dele demandava."
No entanto, ela afirma que encontrar instituições preparadas para lidar com alunos superdotados ainda é uma dificuldade constante. "Já participei de inúmeras reuniões em escolas, levando os laudos dele e pedindo adaptações simples, como oferecer exercícios mais desafiadores quando ele terminasse as atividades da turma. Muitas vezes nada acontece. Existe uma enorme falta de conhecimento sobre superdotação."
A situação relatada por Rachel não é incomum. Apesar de a legislação brasileira reconhecer estudantes com altas habilidades como público da educação especial, muitas escolas ainda enfrentam dificuldades para oferecer estratégias adequadas de enriquecimento curricular.
Inteligência também pode servir ao outro
Entre as experiências que mais marcaram a infância de Romeu está um projeto social realizado aos sete anos. Durante alguns meses, ele ensinou xadrez para crianças e adolescentes da Rocinha, no Rio de Janeiro. "Ele gostou muito. Se sentiu útil e fez amizade."
A experiência mostra que o desenvolvimento de talentos não precisa estar ligado apenas ao desempenho acadêmico. Quando bem direcionadas, habilidades intelectuais também podem fortalecer empatia, senso de propósito e compromisso com a comunidade.
Formar um bom ser humano continua sendo o maior objetivo
Embora o futuro profissional de Romeu ainda esteja em aberto, a mãe acredita que áreas ligadas à matemática, como a engenharia, despertam seu interesse natural. Ainda assim, ela deixa claro que as aprovações em vestibular e medalhas não são a meta principal da jornada.
Para Rachel, o mais importante é que o filho aprenda valores que o acompanharão por toda a vida. "Vejo isso como uma oportunidade de ele aprender a lidar com frustrações, desenvolver resiliência e disciplina. Nem sempre ele vai vencer. Meu maior sonho não é formar apenas um profissional brilhante. É formar um homem íntegro, gentil e feliz."
Em tempos em que desempenho e resultados costumam receber toda a atenção, a reflexão da mãe lembra que o verdadeiro sucesso talvez esteja no equilíbrio entre talento, caráter e bem-estar emocional.
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