Há 12 anos, homem é o único habitante de vila abandonada: 'É uma solidão querida'
Morando sozinho em uma antiga aldeia medieval na Espanha, Tomás Ballesté García afirma que desacelerar transformou sua forma de enxergar a vida
Para muitas pessoas, a ideia de viver completamente sozinho pode despertar sentimentos de medo ou isolamento. Mas, para o espanhol Tomás Ballesté García, foi justamente o oposto. Aos 64 anos, ele afirma que encontrou na solidão, a paz e a felicidade que nunca experimentou durante os anos em que viveu cercado pelo ritmo acelerado das grandes cidades.
Há 12 anos, Tomás se mudou para Solanell, uma antiga vila medieval localizada nos Pirineus catalães, na Espanha. Hoje, ele é o único morador permanente do local e garante que a experiência mudou profundamente sua maneira de encarar a vida. Sua rotina foi registrada pelo canal espanhol Monxileros, que passou um dia acompanhando seu cotidiano.
A diferença entre solidão e solitude
Embora muitas pessoas associem viver sozinho à tristeza, Tomás faz questão de diferenciar os dois conceitos. Para ele, estar só não significa estar desconectado do mundo. "A solidão é algo que ajuda a refletir, pensar e clarear a mente. É uma solidão querida", resume.
Apesar de morar sozinho, ele mantém contato frequente com a filha, amigos e visitantes. Quando sente vontade de conviver com mais pessoas, basta visitar cidades próximas, como La Seu d'Urgell ou Andorra. Ainda assim, conta que sempre sente vontade de voltar para Solanell, lugar onde encontrou seu equilíbrio.
Um recomeço após um momento difícil
A mudança aconteceu em um período delicado de sua vida. Aos 52 anos, Tomás perdeu o emprego depois de sofrer um acidente que comprometeu a visão de um dos olhos. "Fiquei cego deste olho. Então, a empresa para a qual eu trabalhava, em vez de me apoiar, decidiu me demitir", relembrou.
Enquanto reorganizava a vida, recebeu do irmão o convite para conhecer um projeto de revitalização de Solanell. A primeira impressão não foi das melhores. "Você está errado. Você nos trouxe para uma cidade em ruínas", recordou. Apesar da resistência inicial, a experiência permaneceu em seus pensamentos. Poucos meses depois, decidiu dar uma chance ao lugar. A escolha acabaria mudando completamente sua história.
Encontrar riqueza na simplicidade
Além de restaurar a casa onde vive, Tomás passou a pesquisar a história da vila, cuja origem remonta ao século VIII. Atualmente, participa de iniciativas voltadas à preservação do patrimônio histórico e incentiva outras pessoas a considerarem a possibilidade de viver na região.
Sua filosofia de vida também mudou. Para ele, felicidade não está ligada ao consumo ou ao dinheiro, mas à tranquilidade e ao tempo disponível para viver. "Aqui é simples (...) você não tem bares nem nada em que precise gastar dinheiro", explica.
Na avaliação de Tomás, a sociedade moderna costuma complicar excessivamente o cotidiano e fazer com que as pessoas deixem de valorizar aquilo que realmente importa. "A vida talvez seja mais simples do que nos fizeram acreditar", reflete.
O que, afinal, é felicidade?
Ao longo dos anos vivendo praticamente sozinho, Tomás chegou à própria definição de felicidade. "A felicidade vem de se sentir bem em um ambiente onde você faz e desenvolve as coisas à medida que elas surgem", afirma.
E completa com uma frase que resume sua maneira de enxergar a existência: "Há muitos anos tenho a palavra felicidade gravada na minha testa e no meu coração. E nada nem ninguém deve apagá-la de mim".
Seu bom humor também chama atenção. Como único morador da vila, costuma brincar que acumula todas as funções possíveis. "Sou o prefeito de Solanell, sou o xerife de Solanell, sou o policial de Solanell, sou o padre de Solanell. Celebro missa ao meio-dia, mas ninguém aparece", diz, entre risos.
Mais do que uma curiosidade sobre alguém que vive sozinho, a história de Tomás convida a refletir sobre a diferença entre estar sozinho e sentir-se sozinho. Em um mundo marcado pela pressa e pelos excessos, sua experiência mostra que, para algumas pessoas, desacelerar pode ser o caminho para reencontrar propósito, bem-estar e uma felicidade construída nas pequenas coisas do dia a dia.
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