Praia na Itália tem áreas separadas para homens e mulheres: 'Símbolo de liberdade'
Em Trieste, tradição centenária divide opiniões de turistas, mas moradores defendem o espaço como parte da identidade local
A histórica praia de La Lanterna, em Trieste, na Itália, preserva há mais de um século um muro de três metros que separa homens e mulheres na faixa de areia. Apesar do estranhamento e das críticas pontuais de turistas, a tradição é defendida com entusiasmo pela população local. Para os moradores, a divisão cultural não é sexista, mas um símbolo identitário de liberdade e tranquilidade, oferecendo às mulheres um espaço livre de julgamentos estéticos ou importunações masculinas.
Quem visita Trieste, no nordeste da Itália, pode encontrar uma praia bem diferente das tradicionais. Em La Lanterna, também conhecida como El Pedocin, homens e mulheres entram por acessos distintos e permanecem separados até mesmo quando chegam à faixa de pedras diante do mar.
Um muro com cerca de três metros divide os dois lados. Portanto, aqueles que chegam acompanhados de uma pessoa do sexo oposto precisam se despedir na entrada e só podem encontrá-la novamente depois de nadar até uma área mais aberta do mar. A prática atravessa gerações e transformou o local em uma das curiosidades mais conhecidas da cidade.
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Tradição na Itália existe há mais de um século
A praia surgiu entre o final do século XIX e o início do XX, quando Trieste ainda fazia parte do Império Austro-Húngaro. A inauguração costuma ser associada a 1903. No entanto, não existe consenso sobre a data exata.
Desde o começo, homens e mulheres frequentavam espaços separados. Mesmo com as mudanças sociais ao longo das décadas, os moradores mantiveram a divisão. O escritor Mauro Covacich, nascido no nordeste da Itália, relembrou que conheceu o local ainda criança.
"Como todo triestino, fui levado para lá pela minha mãe. Era perto de casa, havia muitos ônibus, era a única praia no centro da cidade", contou à 'CNN'.
Mulheres associam espaço à liberdade
Embora a divisão possa surpreender quem chega pela primeira vez, muitas frequentadoras associam o espaço a uma experiência de autonomia e tranquilidade. A professora Katia Pizzi, especialista em Estudos Italianos na Universidade de Londres, relacionou essa característica à própria trajetória social da cidade.
"As mulheres não precisavam ser incomodadas, perturbadas ou importunadas. Era um espaço onde podiam tomar sol sem temer qualquer interferência masculina", afirmou ao veículo.
A jornalista e escritora Micol Brusaferro, por exemplo, destacou ter encontrado ali uma sensação particular de liberdade: "Há muitas gerações juntas, existe uma liberdade total com as roupas — usar fio dental ou ficar de topless porque os homens não vão ver — e eu gostei dessa atmosfera especial."
"Se sua roupa não estiver perfeita, seu cabelo não estiver perfeito, se você não estiver perfeitamente depilada, ninguém vai dizer nada porque você está entre mulheres", complementou.
Regra surpreendeu turistas
A tradição voltou ao centro das atenções depois que turistas de Milão passaram a visitar o local e se surpreenderam com a divisão. Segundo a imprensa italiana, uma mulher classificou a regra como "absurda e medieval" e pediu o dinheiro da entrada de volta.
A repercussão, contudo, não afastou visitantes. De acordo com os dados citados pela 'CNN', a venda de ingressos cresceu mais de 50% em julho de 2026 na comparação com o mesmo mês do ano anterior. "As pessoas vêm por curiosidade, mas é preciso respeitar as regras — é uma tradição", ressaltou Brusaferro.
Moradores não querem derrubar o muro
E mesmo diante das críticas, frequentadores locais defendem a continuidade da divisão. Isso porque, para eles, o muro é uma característica histórica que ajuda a preservar a identidade de Trieste. "Não é sexista; é um símbolo de liberdade. De ambos os lados, mulheres e homens fazem o que querem", continuou a jornalista
Covacich compartilha uma interpretação semelhante. "Quando as pessoas dizem que é o 'último muro da Europa', não significa que seja o último reduto de moralidades intolerantes; para mim, parece ser um símbolo de liberdade, livre de preconceitos", destacou.
Já o salva-vidas Samuele Miceli, que trabalha no local, resumiu a relação dos frequentadores com a praia de forma direta: "As pessoas estão felizes, a praia está cheia, por que derrubar o muro?"
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