Como manter a amamentação na transição para a creche
Seguindo a campanha Agosto Dourado, especialistas explicam que entrada na creche não precisa significar o fim da amamentação
Em São Paulo, centros de educação infantil gerenciados pela Associação Santo Agostinho integram a rede de apoio ao aleitamento materno ao permitir a livre amamentação presencial e o armazenamento de leite ordenhado. Reconhecidas com o Selo CEI Amigo do Peito e respaldadas por lei municipal, as unidades capacitam suas equipes e orientam famílias para desmistificar a ideia de que o ingresso escolar exige o desmame, garantindo a continuidade da nutrição e do vínculo afetivo.
Em São Paulo, escolas reforçam a rede de apoio ao aleitamento com espaços dedicados à amamentação e ao recebimento de leite materno congelado
A volta ao trabalho e a entrada do bebê na rede de educação infantil costumam representar uma mudança importante na rotina das famílias. Para muitas mães, esse momento pode trazer também a dúvida sobre como manter a amamentação. Entretanto, o ingresso na educação infantil não precisa significar o fim do aleitamento. Com acolhimento, informação e uma estrutura preparada, a creche pode se tornar parte da rede de apoio necessária para que a amamentação continue pelo tempo desejado pela família.
Essa é a experiência de três Centros de Educação Infantil (CEIs) gerenciados pela Associação Santo Agostinho (ASA), organização da sociedade civil que atua há mais de 80 anos com educação e assistência social para pessoas em situação de vulnerabilidade na cidade de São Paulo.
Matrícula não desestimula amamentação
De acordo com critérios da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, as unidades criaram condições para que a matrícula e a permanência da criança no CEI não desestimulem a amamentação. Incluindo o acolhimento das famílias, a disponibilização de ambientes adequados e o apoio à extração, recebimento, armazenamento e manuseio do leite materno.
"A amamentação não é só uma questão alimentar. É também uma troca afetiva. Apoiar a amamentação não se resume a oferecer um local para a mãe amamentar. É preciso acolher e orientar as famílias desde a matrícula, preparar os profissionais e organizar a unidade para que o aleitamento possa fazer parte da rotina da criança", destaca Livia Medeiros Gonçalves, diretora do CEI Santo Agostinho.
No CEI Santo Agostinho, da ASA, por exemplo, as mães podem entrar na unidade sempre que necessário para amamentar os filhos. O espaço conta com uma poltrona próxima ao berçário, em um ambiente confortável e reservado para esse momento. A unidade trabalha com a amamentação em livre demanda, sem estabelecer horários fixos. A mãe pode chegar pela manhã, amamentar o bebê e, depois, a criança retornar à sala. Se houver necessidade, ela pode voltar mais tarde para uma nova mamada. A proposta é conciliar a rotina da instituição com as necessidades individuais da criança e da família.
Alternativas
Quando a mãe não consegue comparecer, também é possível enviar leite materno ordenhado. A família recebe orientações sobre coleta, congelamento e armazenamento. Enquanto a unidade mantém o leite em freezer específico, devidamente identificado, para que seja oferecido à criança de acordo com a quantidade necessária para cada mamada e seguindo os procedimentos estabelecidos.
O cumprimento à essas determinações fizeram com que as unidades recebessem o Selo CEI Amigo do Peito, iniciativa da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo (SME-SP) que reconhece unidades que desenvolvem ações de promoção, proteção e apoio ao aleitamento materno. Criada em 2018, a iniciativa considera que o apoio à amamentação precisa estar presente em diferentes dimensões do cotidiano da unidade.
Amamentação também depende de informação
Para a diretora do CEI Santo Agostinho, um dos desafios está justamente em fazer com que as famílias saibam que a entrada da criança na educação infantil não significa, necessariamente, a interrupção do aleitamento.
Em São Paulo, a Lei Municipal nº 16.161/2015 assegura o direito ao aleitamento materno em estabelecimentos públicos e privados. Na educação infantil, garantir esse direito significa criar condições concretas para que mães e bebês possam continuar amamentando mesmo depois do ingresso no CEI. Entretando, segundo Livia, algumas mães chegam ao momento da matrícula acreditando que não poderão mais amamentar quando o filho começa a frequentar o CEI. Em alguns casos, a interrupção é antecipada antes mesmo da entrada da criança na unidade.
"É muito triste, porque muitas mães acham que, quando a criança entra na escola, não poderá mais ser amamentada. Então, antes mesmo de matricular o filho, algumas começam a tirar do peito para que, quando ele chegue à unidade, já esteja adaptado à fórmula", relata.
Toda a equipe precisa estar preparada
Outro aspecto importante é que o apoio ao aleitamento não deve ficar restrito aos professores ou à direção. A experiência da ASA mostra que diferentes profissionais precisam estar envolvidos, inclusive aqueles responsáveis pela alimentação. No CEI Santo Agostinho, a equipe da cozinha participa do recebimento, identificação, armazenamento e oferta do leite materno.
"A equipe da cozinha também é essencial nesse processo. Existe uma parceria muito grande entre todos nós para receber o leite materno, identificar a quantidade que cada criança precisa e garantir que ele seja oferecido de forma adequada. É um trabalho que exige atenção e cuidado, e que só funciona porque toda a equipe está envolvida", explica Livia.
Mais do que uma iniciativa pontual, a experiência dos CEIs da ASA mostra que apoiar o aleitamento materno na educação infantil envolve uma mudança de olhar: acolher a criança também significa acolher sua família, respeitar suas escolhas e criar condições concretas para que a amamentação possa continuar mesmo depois da chegada à creche.
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