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Ashley Madison: o mega hackeamento que expôs dados de milhões de casados infiéis (e o que aconteceu com a empresa)

A promessa era do mais estrito sigilo, mas o site de namoro para homens e mulheres com companheiros acabou abalando os alicerces de milhões de relacionamentos.

18 mai 2024 - 12h13
(atualizado em 20/5/2024 às 20h12)
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Pôster de Ashley Madison com mulher cobrindo a boca com um dedo
Pôster de Ashley Madison com mulher cobrindo a boca com um dedo
Foto: PA / BBC News Brasil

"A vida é curta. Tenha um affair."

Com este slogan, a empresa Ashley Madison seduziu pessoas casadas de todo o mundo dispostas a encontrar fora da família a paixão que já sentiram nas relações amorosas.

Mas tudo acabou mal quando hackers misteriosos revelaram os dados pessoais e alguns dos segredos mais escondidos de cerca de 32 milhões de assinantes do serviço.

Desde casamentos desfeitos e marginalização social até suicídios, as consequências foram devastadoras para muitos dos usuários da plataforma.

A Netflix estreou esta semana a minissérie documental Ashley Madison: Sexo, Mentiras e Escândalo, dirigida por Toby Paton.

Confira nesta reportagem o que aconteceu com a plataforma de relacionamentos mais transgressora da História.

O que é Ashley Madison

Ashley e Madison são dois nomes femininos comuns nos EUA que inspiraram o nome da plataforma
Ashley e Madison são dois nomes femininos comuns nos EUA que inspiraram o nome da plataforma
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Quando a internet se instalou no cotidiano das pessoas, o canadense Darren J. Morgenstern viu que homens e mulheres ávidos por aventuras fora do casamento poderiam ser um bom nicho de mercado.

Em 2002, ele fundou a Ashley Madison, um portal onde esses usuários podiam compartilhar informações pessoais, fotos e preferências sexuais para se conectarem com potenciais amantes nas proximidades.

De acordo com o modelo de negócio, as mulheres podiam iniciar conversas com outros membros gratuitamente, enquanto os homens tinham que comprar créditos para fazer o mesmo.

Depois de resultados relativamente discretos nos primeiros anos, a chegada de Noel Biderman como novo CEO da empresa em 2007 impulsionou o número de usuários por meio de uma estratégia de marketing hábil, agressiva e controversa.

A maioria das redes online recusou-se a transmitir anúncios da Ashley Madison, então Biderman recorreu às redes de TV dos Estados Unidos com mensagens inovadoras e escandalosas — como, por exemplo, dizer que a infidelidade poderia ter efeitos positivos nos relacionamentos.

Soma-se a isso uma campanha intensa e provocativa com mensagens em sites, meios de comunicação e outdoors que não deixaram ninguém indiferente.

'Sua esposa é gostosa... Mas as nossas também!', diz um pôster que é exemplo da campanha publicitária transgressora do site Ashley Madison
'Sua esposa é gostosa... Mas as nossas também!', diz um pôster que é exemplo da campanha publicitária transgressora do site Ashley Madison
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Depois de atrair forte atenção da mídia, a plataforma se expandiu para diversos países e, no auge, afirmava ter 37 milhões de usuários, além de gerar lucros milionários.

Em decorrência disso, o site tornou-se alvo de críticas iradas de um grande número de detratores, que o consideravam imoral e uma ameaça aos valores familiares tradicionais.

Isso não incomodou os donos do negócio. "Não existe publicidade ruim. Toda publicidade é boa", afirma um deles na série recém-lançada.

O hackeamento

O portal prometia discrição absoluta, estrita confidencialidade e os mais elevados padrões de segurança na proteção dos dados pessoais dos usuários.

No entanto, como reconhecem ex-funcionários da empresa no documentário da Netflix, essa era uma promessa falsa e a empresa náo tinha proteções satisfatórias.

Em 2015, um grupo que se autodenomina The Impact Team ("A Equipe de Impacto", em tradução livre) invadiu os sistemas da Ashley Madison e extraiu quase todas as informações dos servidores.

O grupo disse à empresa que, caso não encerrasse definitivamente os negócios em 30 dias, publicaria as informações pessoais de todos os usuários na chamada dark web.

Existe uma teoria de que o The Impact Team pode ser uma única pessoa. Talvez um ex-funcionário irritado, um fanático religioso, um concorrente ou um cônjuge traído?
Existe uma teoria de que o The Impact Team pode ser uma única pessoa. Talvez um ex-funcionário irritado, um fanático religioso, um concorrente ou um cônjuge traído?
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Após várias tentativas fracassadas de encontrar o responsável pelo hackeamento — e apesar da contratação urgente de hackers de alto nível para realizar essa tarefa —a empresa não concordou com a chantagem, nem conseguiu impedir que o The Impact Team concretizasse a ameaça.

Os dados de cerca de 32 milhões de pessoas vazados na dark web incluíam nomes, fotografias, endereços, e-mails e preferências sexuais.

Posteriormente, um novo compartilhamento de dados envolveu imagens íntimas, números de cartão de crédito e mais informações privadas dos usuários.

'Caça às bruxas'

O conteúdo migrou rapidamente da dark web para as páginas da internet mais acessíveis ao público. A partir daí, bastava simplesmente inserir um e-mail para revelar se o dono daquele endereço havia usado o Ashley Madison.

Nos Estados Unidos, o principal mercado da plataforma, o vazamento deu origem a toda uma "caça às bruxas". Milhões de pessoas passaram a procurar e apontar suspeitos de infidelidade, desde maridos e parentes a vizinhos, pastores de igrejas, políticos e celebridades.

Foi o caso dos famosos YouTubers americanos Sam e Nia Rader, que são o fio condutor do documentário da Netflix.

O casamento aparentemente perfeito que eles tinham entrou em colapso quando se descobriu que Sam havia buscado aventuras extraconjugais no Ashley Madison.

O vazamento de dados da Ashley Madison mudou a vida de Sam e Nia Rader
O vazamento de dados da Ashley Madison mudou a vida de Sam e Nia Rader
Foto: Netflix / BBC News Brasil

Embora não existam dados concretos, sabe-se que a publicação de informações de usuários da Ashley Madison desfez muitos casais e casamentos nos EUA e em diversos outros países.

Alguns desses episódios tiveram um fim trágico, como foi o caso de John Gibson, pastor e seminarista de Nova Orleans que enfrentou a rejeição em sua comunidade depois que a presença dele na plataforma foi revelada.

Gibson acabou se suicidando, segundo o relato da esposa dele.

Na contramão, outro casal afirmou ter experimentado boas experiências com o site de namoro, o que os inspirou a estabelecer um relacionamento aberto.

A publicação da lista de possíveis traidores e infiéis também revelou indícios de fraude por parte da empresa.

Embora afirmasse que cerca de 40% do público era formado por mulheres, descobriu-se que elas representavam apenas uma pequena parte dos usuários.

Além disso, existiam muitos perfis falsos ou robôs supostamente criados pela própria empresa para atrair homens e fazê-los comprar créditos.

A plataforma ainda permitia que os usuários excluíssem permanentemente as contas e os dados pessoais por US$ 19 (cerca de R$ 97). Mas esse apagamento das informações era falso, visto que muitos dos clientes que contrataram o serviço tiveram dados vazados mesmo assim.

O The Impact Team também publicou e-mails privados do CEO Noel Biderman, que expuseram várias infidelidades, apesar de ele sempre alegar em entrevistas — muitas vezes ao lado da esposa — que era estritamente monogâmico.

O que aconteceu com a Ashley Madison

Ilustração promocional da Netflix sobre a série
Ilustração promocional da Netflix sobre a série
Foto: Netflix / BBC News Brasil

Biderman, que não esteve envolvido no documentário, deixou o cargo de CEO em 2015 após a crise em torno do hackeamento.

Os tribunais foram inundados com queixas de fraude e danos contra a Ashley Madison, que desembolsou um total de 11 milhões de dólares (cerca de R$ 56 milhões) a várias vítimas.

Mas a plataforma não desapareceu completamente.

Ele mudou de proprietário, se promove como "o aplicativo de namoro para casados número um" do mundo e afirma ter hoje mais de 80 milhões de usuários em vários países.

O diretor do documentário, Toby Paton, afirma que tentou abordar a história da forma mais equilibrada possível, para evitar qualquer posicionamento moral sobre a questão.

"Em vez de repreender as pessoas que estavam no Ashley Madison, queríamos saber por que eles foram atraídos para o site. O que eles procuravam? O que acontecia nos relacionamentos deles?", questiona Paton, no material divulgado pela Netflix.

"Todos sabemos que a infidelidade pode ser incrivelmente destrutiva e dolorosa, mas, ao mesmo tempo, o fato de a Ashley Madison ter 37 milhões de membros nos diz outra coisa que todos sabemos: comprometer-se com uma pessoa para o resto da vida é algo realmente difícil", reflete ele.

Até hoje não se sabe quem foi o autor (ou os autores) do hackeamento que abalou os alicerces de milhões de casais pelo mundo.

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