Bem-estar: apenas 33% dos brasileiros conseguem investir em saúde, diz pesquisa
Pesquisa mostra que os brasileiros reconhecem a importância do bem-estar, mas certos fatores ainda determinam quem consegue cuidar da saúde mental com regularidade
Cuidar da saúde emocional e mental já faz parte do imaginário coletivo dos brasileiros. A maioria reconhece que bem-estar não é luxo, mas necessidade. Ainda assim, transformar esse desejo em prática cotidiana segue sendo um desafio - especialmente quando entram em cena fatores como renda, carga de trabalho e falta de tempo.
É o que revela um levantamento recente realizado pelo Instituto Locomotiva em parceria com a QuestionPro. A pesquisa ouviu 1,5 mil pessoas com 18 anos ou mais, de todas as regiões do país, e traça um retrato claro: o bem-estar é prioridade para quase todos, mas acessível de forma desigual.
Bem-estar é prioridade, mas nem sempre possível
Segundo o estudo, 87% dos brasileiros afirmam que o bem-estar é importante e está diretamente ligado ao equilíbrio emocional e mental. Apesar disso, apenas 33% conseguem investir de maneira contínua em atividades ou serviços ligados ao autocuidado.
Entre as pessoas das classes D e E, as barreiras são ainda mais evidentes: 35% relatam investir apenas de forma ocasional e 25% dizem não conseguir investir em bem-estar por falta de condições financeiras. O problema, portanto, não é a falta de interesse, mas as limitações impostas pela realidade cotidiana.
Tempo livre também é um privilégio
O levantamento mostra que o acesso ao tempo para cuidar de si varia bastante conforme a renda. Enquanto 81% das pessoas das classes A e B dizem conseguir reservar momentos para o bem-estar, esse número cai para 66% entre as classes D e E. Metade da população brasileira afirma ter apenas uma a duas horas por dia para se dedicar ao autocuidado. O excesso de trabalho aparece como o principal fator que limita esse tempo, especialmente entre os grupos de menor renda, que enfrentam jornadas mais longas, deslocamentos maiores e menos flexibilidade.
Para Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva, essa diferença revela uma questão estrutural: "O investimento em bem-estar é um esforço presente em todas as rendas. O que muda não é a vontade de se cuidar, mas a frequência possível. Nas classes mais altas, o cuidado cabe de forma regular na rotina. Nas classes mais baixas, ele acontece de maneira ocasional, não por falta de prioridade, mas porque as limitações financeiras empurram o autocuidado para os intervalos da vida".
Alimentação, exercício e lazer: onde a desigualdade aparece
As maiores diferenças entre as classes sociais surgem justamente nas áreas mais associadas ao bem-estar físico e emocional. O acesso a uma alimentação considerada mais saudável, por exemplo, alcança 69% nas classes A e B, mas cai para 50% nas classes D e E.
O mesmo padrão se repete na prática de exercícios físicos: 57% entre os mais ricos contra apenas 33% entre os de menor renda. Já o lazer - que inclui passeios, viagens e momentos de descanso - está disponível para 43% das classes A e B, enquanto apenas 27% das classes D e E conseguem acessar esse tipo de atividade.
Dinheiro pesa (e muito) na saúde mental
A pesquisa também revela o impacto direto da situação financeira no equilíbrio emocional. Para 89% dos brasileiros, o dinheiro influencia o bem-estar, e metade afirma sentir esse impacto de forma intensa.
As preocupações financeiras lideram a lista de fatores que prejudicam a saúde mental, sobretudo entre as classes C, D e E. Isso ajuda a explicar por que a percepção de saúde emocional também varia conforme a renda: 72% das pessoas das classes A e B avaliam sua saúde mental como boa, contra 49% nas classes D e E. Já a percepção de saúde mental ruim ou muito ruim atinge 16% entre os mais pobres, contra apenas 5% entre os mais ricos.
Quem consegue melhorar o próprio bem-estar?
Quando questionados sobre a evolução do bem-estar nos últimos anos, 61% dos brasileiros dizem que se sentem melhor hoje do que há cinco anos. Esse índice sobe para 69% nas classes A e B e cai para 53% nas classes D e E. A forma como essa melhora acontece também muda conforme a renda. Entre os brasileiros de maior poder aquisitivo, 61% atribuem a evolução principalmente a si mesmos. Já nas classes D e E, esse percentual cai para 51%, enquanto família, trabalho e religião ganham mais peso como redes de apoio emocional.
Trabalho: fonte de realização ou desgaste?
A relação entre trabalho e bem-estar aparece dividida. Para 38% dos brasileiros, o trabalho contribui positivamente para a qualidade de vida. Outros 31% dizem que ele não interfere, enquanto 31% avaliam que o impacto é negativo. Nas classes A e B, a percepção positiva sobe para 42%, indicando que condições mais favoráveis de trabalho também influenciam diretamente a saúde emocional.
Como os brasileiros cuidam da mente no dia a dia
Apesar das limitações, o autocuidado acontece, principalmente, por meio de práticas acessíveis e integradas à rotina. Entre as estratégias mais citadas para cuidar da saúde mental estão: prática de exercícios físicos (50%); lazer e hobbies (49%); contato com amigos e familiares (48%); alimentação equilibrada (37%); meditação e práticas de relaxamento (23%). Esses dados mostram que, mesmo diante de restrições, os brasileiros buscam caminhos possíveis para preservar o equilíbrio emocional.
O que a pesquisa revela sobre o Brasil de hoje
O retrato que emerge do estudo é claro: o desejo de cuidar da saúde mental é amplo, mas o acesso ao bem-estar ainda é profundamente desigual. Para muitos brasileiros, não falta consciência nem prioridade - falta tempo, dinheiro e condições estruturais para transformar o autocuidado em hábito constante. Um lembrete de que cuidar da saúde mental não pode ser visto apenas como escolha individual, mas também como reflexo das condições sociais em que se vive.