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Assim como a digital humana, urina dos gatos tem uma identidade única; veja o estudo

Pesquisa identificou 13 compostos na urina dos felinos que variam entre os animais e podem funcionar como uma espécie de identidade química

24 ago 2026 - 16h10
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Resumo
Um estudo revelou que a urina dos gatos possui uma assinatura química única, comparável a uma impressão digital. Pesquisadores identificaram treze ácidos graxos com proporções estáveis por indivíduo, permitindo o reconhecimento mútuo entre felinos através do olfato. Essas substâncias têm provável origem em reservatórios de gordura nos rins, ajudando a esclarecer mecanismos da comunicação animal e trazendo novas perspectivas para o controle de odores e a conservação de espécies.

Quem convive com gatos sabe que os cheiros têm um papel importante na maneira como esses animais se comunicam. Agora, cientistas descobriram que a urina dos felinos pode transmitir uma informação bastante específica: a identidade de quem passou por determinado lugar.

Estudo revela que gatos possuem uma “assinatura” química na urina que pode ajudá
Estudo revela que gatos possuem uma “assinatura” química na urina que pode ajudá
Foto: los a reconhecer outros felinos pelo cheiro - Reprodução: Birthday Cake/AK Design / Bons Fluidos

Um estudo publicado na revista científica Current Biology identificou 13 ácidos graxos de cadeia ramificada na urina de gatos domésticos. A proporção dessas substâncias varia de um animal para outro, mas tende a permanecer relativamente estável no mesmo indivíduo. Na prática, essa combinação poderia funcionar como uma espécie de "assinatura química".

A pesquisa, liderada por cientistas da Universidade de Iwate, no Japão, contou ainda com pesquisadores da Alemanha e da Espanha. Foram analisadas amostras de urina de 44 gatos, além de testes comportamentais realizados com 27 animais domésticos.

Uma 'assinatura' particular de cada gato

Marcar um ambiente com urina não serve apenas para indicar que um animal esteve naquele local. Para diversas espécies de mamíferos, os odores são uma importante ferramenta de comunicação, capaz de deixar informações mesmo quando quem produziu o cheiro já foi embora. O desafio é que muitas das substâncias responsáveis pelos odores são voláteis e podem desaparecer ou sofrer alterações rapidamente.

Foi justamente nesse ponto que os 13 compostos encontrados pelos pesquisadores chamaram a atenção. Embora suas proporções fossem diferentes entre os animais, o perfil de cada gato permanecia relativamente constante ao longo do tempo.

Os cientistas também observaram que gatos com algum grau de parentesco apresentavam perfis mais semelhantes. Ainda assim, existiam diferenças suficientes entre eles para preservar características individuais.

Outro detalhe importante é a duração. Em determinadas condições, essa composição química permaneceu relativamente estável por pelo menos 24 horas. Isso significa que o "recado" deixado por um gato poderia continuar disponível para outros felinos mesmo horas depois de sua passagem. É como se, além de marcar presença, o animal deixasse um pequeno "cartão de visitas" olfativo.

Mas os gatos conseguem perceber essa diferença?

Para entender se essa assinatura química realmente fazia sentido para os próprios felinos, os pesquisadores também observaram como eles reagiam às amostras de urina.

Quando um gato era apresentado repetidamente ao mesmo odor, seu interesse diminuía gradualmente. Porém, ao receber uma amostra diferente, ele voltava a cheirar com maior atenção.

O comportamento sugere que os animais conseguem distinguir a urina de diferentes indivíduos. Mais curioso ainda: essa memória dos odores foi observada mesmo depois de intervalos de meses.

A equipe também analisou a chamada resposta de Flehmen. É aquele comportamento curioso em que o gato fica com a boca ligeiramente aberta após sentir determinado cheiro. A reação ajuda o animal a processar informações químicas presentes no ambiente e apareceu com maior frequência diante da urina de outros gatos.

"Após confirmarmos que os gatos conseguem distinguir odores individuais de urina, usamos a resposta de Flehmen como uma pista para identificar moléculas urinárias que podem contribuir para o reconhecimento de odores individuais", explicou Masao Miyazaki, professor da Universidade de Iwate e líder do estudo.

Um mistério dos rins que existe há mais de 100 anos

Se descobrir uma possível identidade química na urina já era curioso, a pesquisa trouxe outra surpresa: a provável origem dessas moléculas. Ao investigar diferentes tecidos, os cientistas encontraram os ácidos graxos estudados nos rins dos gatos. Eles também estavam presentes em gotículas lipídicas localizadas no córtex renal.

Essas pequenas reservas de gordura não são exatamente uma novidade. Cientistas sabem há mais de um século que elas existem em abundância nos rins dos felinos. O que permanecia sem uma explicação clara era sua função. "Gotículas lipídicas nos rins dos gatos são conhecidas há mais de um século, mas o motivo de os gatos terem tantas delas permanece um mistério", disse Miyazaki.

A nova pesquisa levanta uma possibilidade: essas estruturas poderiam funcionar como reservatórios das substâncias responsáveis pela assinatura química. "Nossas descobertas sugerem que uma de suas funções pode ser a de manter uma assinatura química estável na urina. Como os ácidos graxos saturados (AGS) armazenados nos lipídios renais são liberados na urina é uma questão importante para pesquisas futuras."

Uma das hipóteses é que o armazenamento nos rins ajude a manter o perfil individual mais constante, evitando que mudanças na alimentação ou no organismo alterem completamente essa identidade química. Por enquanto, porém, essa possível função ainda precisa ser confirmada.

O que essa descoberta pode significar?

O estudo ajuda a compreender melhor uma característica fundamental do comportamento dos gatos: a comunicação por meio do cheiro. Em vez de existir uma única molécula responsável por dizer "quem é quem", a identidade pode estar relacionada à combinação e à proporção de diversas substâncias. É justamente esse conjunto que formaria a possível assinatura individual.

Isso não significa que já seja possível coletar uma amostra de urina e descobrir imediatamente qual gato passou por determinado lugar. A pesquisa ainda é básica e muitas perguntas permanecem abertas.

No futuro, porém, entender melhor essas substâncias pode ajudar no desenvolvimento de estratégias para estudar e controlar o forte odor da urina dos gatos. Há ainda uma possibilidade mais distante relacionada à conservação de espécies selvagens.

Caso os cientistas confirmem que os perfis químicos realmente permitem diferenciar indivíduos de maneira confiável, amostras de urina encontradas na natureza poderiam se tornar uma ferramenta não invasiva para monitorar felinos raros ou difíceis de observar.

Por enquanto, a descoberta já muda um pouco a maneira de enxergar aquela marca de cheiro tão característica. Para nós, pode ser apenas xixi de gato. Entre eles, talvez carregue uma mensagem muito mais detalhada: "eu estive aqui - e este cheiro é meu".

Bons Fluidos
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