Script = https://s1.trrsf.com/update-1770314720/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE

As consequências do vício em jogos de azar

As consequências desta epidemia silenciosa são devastadoras

13 nov 2024 - 16h08
Compartilhar
Exibir comentários

Recentemente, uma notícia chocante chamou a atenção do mundo: um homem na Indonésia foi preso após vender seu filho de apenas 11 meses por R$ 5 mil para continuar apostando em jogos online. O caso, de partir o coração, deixou escancarado o poder destrutivo do vício em jogos de azar e os extremos aos quais uma pessoa pode chegar quando fica aprisionada por esse comportamento compulsivo.

Foto: Revista Malu

De acordo com Leninha Wagner, PhD em neurociências e especialista em neuropsicologia, o vício em jogos de azar, ou ludomania, "é uma compulsão incontrolável de jogar, mesmo quando as consequências são desastrosas." O comportamento é classificado como transtorno do controle dos impulsos no DSM-5 e envolve sintomas claros, como a obsessão por apostar quantias cada vez maiores e tentativas fracassadas de controlar o jogo. "A pessoa começa a usar o jogo como uma forma de escapar de problemas ou emoções negativas," explica a especialista.

Principais sinais de alerta

Os sinais de que alguém está viciado em jogos de azar são bastante evidentes, mas muitas vezes acabam sendo negligenciados. "Apostar frequentemente, mentir sobre o envolvimento com o jogo e pedir dinheiro emprestado são alguns dos sinais mais comuns", ressalta a profissional. Além disso, sintomas emocionais, como irritabilidade, ansiedade e depressão tornam-se constantes nos momentos em que o indivíduo não está jogando. Para Leninha, a incapacidade de parar, mesmo diante de grandes perdas, é o que define a gravidade do transtorno. "Eles simplesmente não conseguem parar, mesmo sabendo das consequências", enfatiza

O ciclo da busca por dopamina

Mas o que leva uma pessoa a se afundar em um vício tão destrutivo? A especialista em neuropsicologia aponta para fatores psicológicos profundos, como baixa autoestima e a incapacidade de lidar com estresse e traumas não resolvidos. Além disso, há um mecanismo biológico envolvido: "O reforço intermitente, ou seja, ganhos esporádicos, reforça a ideia de que mais vitórias virão, mesmo após múltiplas perdas." Essa falsa esperança é alimentada pela dopamina, um neurotransmissor ligado à recompensa. "É o que mantém o ciclo vicioso: a expectativa de um grande ganho, apesar das derrotas acumuladas," detalha.

Os impactos do vício em jogos de azar vão além do financeiro

O impacto do vício em jogos de azar vai muito além das apostas, ou seja, da perda financeira. "Esse comportamento compulsivo pode aumentar os níveis de ansiedade, depressão e gerar estresse crônico", explica Leninha. Além disso, o indivíduo pode desenvolver distorções cognitivas, pois passa a acreditar que é capaz de recuperar o dinheiro perdido com mais apostas. Esse ciclo destrutivo muitas vezes leva à exclusão social e à autossabotagem. "Eles se sentem culpados e envergonhados, o que os isola ainda mais de amigos e familiares."

O vício também afeta diretamente as relações pessoais e profissionais. "As pessoas viciadas negligenciam responsabilidades, geram conflitos familiares e até perdem seus empregos devido ao tempo dedicado ao jogo," diz a especialista. E, claro, a compulsão por apostar também pode levar à falência, resultando em perdas financeiras graves e falta de confiança de empregadores e amigos.

Dívidas, desespero e consequências na saúde

Leninha Wagner destaca ainda que o comportamento compulsivo pode ter consequências financeiras devastadoras. "O acúmulo de dívidas é comum, e muitos acabam recorrendo a crimes para financiar o vício." Esse comportamento alimenta uma sensação constante de desespero e vergonha, o que, por sua vez, intensifica ainda mais o ciclo de dependência. As consequências legais e sociais, como perder a guarda dos filhos ou enfrentar processos judiciais, são frequentes em casos extremos, como o da Indonésia citado no início da matéria.

Além disso tudo, o vício em jogos de azar raramente aparece sozinho. "Estudos mostram uma forte ligação entre o jogo patológico e transtornos como ansiedade, depressão e abuso de substâncias," afirma Wagner. Muitas vezes, o jogo é usado como uma forma de aliviar sintomas emocionais ou psicológicos, mas, paradoxalmente, acaba exacerbando esses transtornos. "O ciclo vicioso se intensifica à medida que o estresse e a frustração aumentam, levando a um quadro grave de desregulação emocional."

É possível tratar o vício em jogos de azar?

Apesar de ser um desafio, Leninha aponta que o tratamento para o vício em jogos de azar é possível e geralmente envolve uma combinação de psicoterapia e grupos de apoio, como os Jogadores Anônimos. "A psicoterapia ajuda a modificar os pensamentos distorcidos e a encontrar formas mais saudáveis de lidar com o estresse," explica. Em casos mais graves, o uso de medicamentos que regulam o controle dos impulsos, como os ISRS (inibidores seletivos de recaptação de serotonina), também pode ser necessário.

Para prevenir o vício, especialmente entre os jovens, a profissional sugere a implementação de campanhas de conscientização e a regulamentação rigorosa da publicidade de jogos de azar. "Precisamos ensinar nas escolas sobre os riscos do jogo e promover atividades saudáveis para reduzir o tempo e a energia que os jovens gastam em apostas", argumenta.

A cultura de jogos de azar cresceu muito

Nos últimos anos, o jogo on-line tem sido um dos principais responsáveis pelo aumento dos casos de vício. "A alta acessibilidade e a disponibilidade 24 horas por dia tornam o jogo online extremamente perigoso", alerta a especialista. Ou seja, o anonimato da internet e a facilidade de jogar a qualquer momento via dispositivos móveis contribuem para o agravamento do problema. "A gamificação das plataformas, com bônus e recompensas, ativa o sistema de recompensas do cérebro, tornando o comportamento ainda mais difícil de controlar," explica.

Casos trágicos, como o do homem preso por vender seu próprio filho para apostar, são um exemplo extremo, mas infelizmente não raros, das consequências desse vício. Especialistas no assunto indicam que a sociedade precisa enfrentar essa questão com seriedade, implementar medidas preventivas e garantir que os viciados tenham acesso ao tratamento necessário antes que suas vidas sejam completamente destruídas.

Revista Malu Revista Malu
Compartilhar

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

Publicidade

Conheça nossos produtos

Seu Terra