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Após mais de 40 anos em zoológico, elefante Sandro ganha nova vida em santuário

Aos 54 anos, Sandro deixa Sorocaba após mais de quatro décadas e inicia uma nova fase no Santuário de Elefantes Brasil, em Mato Grosso

17 set 2026 - 13h09
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Resumo
Após mais de 40 anos no zoológico de Sorocaba, o elefante asiático Sandro, de 54 anos, foi transferido para o Santuário de Elefantes Brasil, em Mato Grosso. Resgatado de circos em 1982, o animal vivia sozinho desde a morte de sua companheira, em 2020. A mudança encerra uma longa disputa judicial iniciada após o falecimento da parceira e perícias apontarem a necessidade de um espaço mais adequado. Ele viaja 1,6 mil km em uma caixa especial após passar por um cuidadoso processo de adaptação voluntária.

Depois de mais de quatro décadas vivendo no Parque Zoológico Municipal Quinzinho de Barros, em Sorocaba, no interior de São Paulo, o elefante Sandro iniciou um novo capítulo de sua história. Aos 54 anos, ele deixou o local nesta quarta-feira (16) para seguir rumo ao Santuário de Elefantes Brasil (SEB), localizado na Chapada dos Guimarães, em Mato Grosso.

Após mais de 40 anos no zoológico de Sorocaba, elefante Sandro segue para santuário no Mato Grosso e inicia uma nova fase
Após mais de 40 anos no zoológico de Sorocaba, elefante Sandro segue para santuário no Mato Grosso e inicia uma nova fase
Foto: Reprodução/YouTube / Bons Fluidos

A mudança envolve uma viagem de mais de 1,6 mil quilômetros, com duração prevista de aproximadamente dois dias e meio. O destino representa uma grande transformação na rotina do animal, que chegou ao zoológico ainda jovem, em 1982, depois de passar por circos.

A preparação para o transporte ocorreu gradualmente. A caixa utilizada na viagem chegou ao zoológico na quinta-feira (10) e, no dia seguinte, posicionada na área externa. No sábado (12), Sandro entrou voluntariamente na estrutura. Posteriormente, colocaram a caixa sobre o caminhão responsável pelo deslocamento até Mato Grosso.

De um circo ao zoológico de Sorocaba

A história de Sandro no Brasil começou muito antes de sua chegada ao Quinzinho de Barros. Capturado ainda filhote na Ásia, o elefante passou por circos antes de ser levado ao zoológico de Sorocaba, em janeiro de 1982.

Na época, ainda era um elefante adolescente e precisou passar por um período de adaptação ao novo espaço. Com o passar dos anos, tornou-se um dos moradores mais conhecidos do parque e atravessou gerações de visitantes.

De origem asiática, Sandro é considerado um animal idoso. Tratadores que acompanharam sua rotina ao longo dos anos o descrevem como carinhoso, brincalhão e bastante interessado em comida. Sua alimentação também chama atenção pelas proporções: são cerca de 250 quilos de alimentos diariamente, dos quais aproximadamente 150 quilos são de capim. Frutas e sucos também fazem parte do cardápio - e o suco de beterraba está entre seus favoritos.

A amizade que rendeu o apelido de "Trombadinha"

Antes de ser conhecido como Sandro, o elefante carregava um apelido curioso: "Trombadinha". A história do nome remonta à época em que ainda vivia no circo. Um dos primeiros humanos com quem estabeleceu um vínculo foi Lucílio Alves de Araújo, que conheceu Sandro em 1979. Lucílio tinha apenas 14 anos quando começou a cuidar do animal no circo Real Africano.

"Ele se 'engraçou' comigo. O proprietário do circo me disse que eu seria o responsável por cuidar do Sandro, porque ele era muito brincalhão e não queria saber de trabalhar", contou Lucílio ao g1, em entrevista concedida em 2025. O comportamento irreverente também estaria por trás do apelido recebido naquele período.

"Se colocassem o Sandro no picadeiro, ele queria jogar cadeira, pisar em cadeira, mas sem machucar ninguém. Ele nunca machucou ninguém. Aí, ele ganhou o apelido de Trombadinha, porque, se alguém tentava chegar perto, ele empurrava mesmo, com a tromba", relembrou.

Segundo Lucílio, Sandro não se adaptava às apresentações no picadeiro e acabou sendo vendido para outro circo. O tratador continuou acompanhando o elefante e, quando o animal foi para o zoológico de Sorocaba, também seguiu para a cidade. "Ele não era viável porque ele não trabalhava em picadeiro, e o proprietário do circo vendeu ele para o circo Bismarck. Eu também fui para o circo Bismarck, fiquei com o Sandro até quando eles fizeram a permuta com alguns animais", explicou.

Inicialmente, Lucílio ficaria no zoológico apenas durante a adaptação do animal, mas permaneceu cuidando dele por cerca de três anos. Quando chegou a Sorocaba, Sandro pesava aproximadamente duas toneladas - número que pode parecer enorme, mas corresponde a cerca da metade do peso médio que um elefante asiático adulto pode alcançar.

Duas décadas ao lado de Haisa

Outro capítulo importante da vida de Sandro foi sua convivência com a elefanta Haisa. Ela chegou a Sorocaba vinda de outro zoológico e passou cerca de 20 anos dividindo o espaço com ele. Essa longa convivência chegou ao fim em 2020, quando Haisa morreu.

A partir daquele momento, Sandro permaneceu sozinho em seu recinto. A situação passou a influenciar as discussões sobre seu futuro e sobre a possibilidade de transferi-lo para um ambiente destinado especificamente à acolhida de elefantes.

O futuro de Sandro foi parar na Justiça

Após a morte de Haisa, o Ministério Público recomendou que Sandro fosse para o Santuário de Elefantes Brasil, em Mato Grosso. A possível mudança começou a ser discutida com a Prefeitura de Sorocaba, mas o destino do animal acabou se transformando em uma longa disputa judicial.

Em 2022, a administração municipal chegou a anunciar que atenderia à recomendação do Ministério Público e realizaria a transferência. Protestos contrários à mudança, entretanto, levaram a prefeitura a rever a decisão e formar uma comissão para analisar o caso.

Naquele mesmo ano, a Justiça negou um pedido de transferência imediata de Sandro ao santuário. À época, informações apresentadas no processo apontavam que o elefante não demonstrava sinais de maus-tratos e estava em boas condições de saúde física e mental.

Profissionais também levantaram preocupações sobre os possíveis riscos de submeter um animal idoso a uma viagem longa e a mudanças significativas de ambiente e manejo. O cenário ganhou novos contornos em 2025. Uma nova perícia analisou o recinto de Sandro e concluiu que a estrutura disponível no zoológico não seria suficiente para proporcionar a qualidade de vida considerada adequada ao animal, destacando também a diferença entre o espaço existente no parque e aquele oferecido pelo santuário. Em abril daquele ano, a Justiça determinou que o elefante fosse transferido para Mato Grosso. A Prefeitura de Sorocaba recorreu da decisão.

Transferência autorizada em 2026

O impasse avançou novamente em junho de 2026, quando o Tribunal de Justiça de São Paulo autorizou a transferência de Sandro para o Santuário de Elefantes Brasil. A partir daí, começou uma operação cuidadosa para preparar o animal para uma mudança bastante diferente de tudo o que fazia parte de sua rotina nas últimas décadas.

Uma das principais etapas foi justamente a adaptação à caixa que seria usada durante o transporte. Em vez de simplesmente colocar o elefante dentro da estrutura no dia da viagem, ela permaneceu disponível para que Sandro pudesse se familiarizar com o espaço.

Com aproximadamente 10 toneladas, a caixa mede cerca de cinco metros de comprimento, 3,5 metros de altura e 2,5 metros de largura. A estrutura possui ventilação e um sistema que permite acompanhar a temperatura durante o percurso. No dia 12 de setembro, Sandro entrou voluntariamente na caixa pela primeira vez, permitindo o avanço dos preparativos para a viagem.

Uma nova fase aos 54 anos

A previsão é que Sandro chegue ao Santuário de Elefantes Brasil nesta sexta-feira (18). Sua partida encerra um ciclo de mais de quatro décadas no zoológico de Sorocaba e dá início a uma rotina completamente nova aos 54 anos.

Sua trajetória passou por diferentes cenários: capturado ainda filhote na Ásia, viveu em circos, chegou adolescente ao zoológico, conquistou o carinho de tratadores e visitantes e passou duas décadas ao lado de Haisa.

Nos últimos anos, seu futuro ainda mobilizou especialistas, autoridades, moradores e a Justiça. Agora, depois de uma longa preparação, Sandro segue para Mato Grosso, onde começa mais um capítulo de uma história que atravessa mais de meio século.

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