Açúcar pode viciar mais do que cocaína? Entenda o que dizem os estudos
Pesquisas relacionam o consumo excessivo de açúcar à liberação de dopamina e a comportamentos compulsivos. Nutricionista explica por que reduzir o consumo pode ser um desafio
O consumo de açúcar faz parte da rotina de milhões de pessoas, mas será que o açúcar pode viciar? Pesquisas recentes indicam que o excesso pode provocar efeitos no cérebro semelhantes aos observados em substâncias psicoativas. Embora açúcar e cocaína tenham impactos muito diferentes no organismo, estudos mostram que ambos ativam o sistema de recompensa cerebral por meio da liberação de dopamina. As informações foram divulgadas em um material baseado em pesquisas internacionais e comentadas pela nutricionista Mariane Alves, que explica como esse mecanismo pode favorecer a compulsão alimentar.
Como o açúcar age no cérebro?
Quando ingerimos alimentos ricos em açúcar, o cérebro libera dopamina, neurotransmissor relacionado às sensações de prazer e recompensa. Esse processo gera uma sensação temporária de bem-estar, incentivando o organismo a repetir o comportamento. Segundo a especialista, esse estímulo frequente pode alterar o funcionamento do sistema de recompensa.
"A dopamina atua, entre outras coisas, no controle da sensação de prazer. Quando o cérebro libera dopamina, a pessoa sente um bem-estar momentâneo. Porém, com o consumo frequente de açúcar, a produção dessa substância diminui, aumentando a necessidade de consumir quantidades cada vez maiores", explica.
O que dizem os estudos?
Uma pesquisa da Universidade de Queensland, na Austrália, identificou que o consumo de açúcar aumenta significativamente os níveis de dopamina, provocando uma resposta semelhante à observada após o uso de cocaína. Outro estudo, realizado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), analisou os efeitos do excesso de glicose no cérebro de ratos. Os pesquisadores observaram que a atividade cerebral estimulada pelo açúcar se aproximava daquela provocada por drogas ilícitas. Além disso, o trabalho mostrou que cocaína e dopamina possuem estruturas moleculares semelhantes, competindo pelo mesmo transportador cerebral.
Com base nesses resultados, alguns estudos sugerem que o açúcar pode apresentar um potencial de dependência até oito vezes maior do que a cocaína. Ainda assim, especialistas ressaltam que essa comparação se refere ao mecanismo de recompensa cerebral e não aos efeitos gerais ou aos riscos das duas substâncias, que são completamente diferentes.
O consumo de açúcar preocupa no Brasil
O hábito de consumir doces com frequência também chama atenção dos especialistas. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), uma em cada cinco pessoas no Brasil ingere doces cinco vezes ou mais por semana. Esse padrão alimentar está associado ao aumento do risco de sobrepeso, obesidade e episódios de compulsão alimentar. Além disso, o consumo exagerado de açúcar favorece o desenvolvimento de doenças crônicas, como diabetes tipo 2, hipertensão e problemas cardiovasculares.
Adoçantes substituem o açúcar?
Para muitas pessoas, trocar o açúcar por adoçantes parece uma solução simples. No entanto, segundo Mariane Alves, os substitutos artificiais não provocam exatamente a mesma resposta cerebral.
"Os alimentos ricos em açúcar provocam uma sensação de prazer diferente da gerada pelos adoçantes artificiais. Por isso, muitas pessoas que fazem essa substituição continuam sentindo vontade de consumir açúcar", afirma.
Como reduzir a dependência do açúcar?
Na avaliação da nutricionista, diminuir o consumo aos poucos nem sempre é a estratégia mais eficiente. Ela recomenda interromper o uso sempre que possível para reduzir a estimulação constante do sistema de recompensa. Como exemplo, ela orienta substituir o café adoçado pela versão sem açúcar até que o paladar se adapte. Segundo a especialista, após cerca de 21 dias, muitas pessoas relatam que deixam de sentir tanta necessidade do sabor doce. Isso não significa eliminar totalmente o açúcar da alimentação para sempre, mas reduzir o consumo frequente pode ajudar o cérebro a diminuir a busca constante pela sensação imediata de prazer proporcionada pelos alimentos açucarados.
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