66% dos estudantes de medicina no Brasil têm sintomas de depressão, aponta estudo
Pesquisa com mais de mil universitários brasileiros revela alta frequência de sintomas de depressão e ansiedade e aponta a falta de tempo como principal fator de risco
Um estudo do Centro de Pesquisa e Inovação em Saúde Mental com mais de mil universitários revelou que 66% dos estudantes de medicina no Brasil apresentam sintomas de depressão moderada a grave, enquanto 50,5% relatam ansiedade no mesmo nível. A falta de tempo e a rotina exaustiva são os principais fatores de risco, agravados por uma cultura que normaliza o sofrimento acadêmico. Em contrapartida, ambientes com apoio mútuo, inclusão e boa relação com docentes funcionam como fatores de proteção.
Jaleco, livros, provas, aulas práticas e uma rotina que parece não terminar. Por trás da formação de quem se prepara para cuidar da saúde de outras pessoas, um estudo brasileiro chama atenção justamente para a saúde mental dos estudantes de medicina no Brasil.
Uma pesquisa conduzida por integrantes do Centro de Pesquisa e Inovação em Saúde Mental (CISM) encontrou uma alta frequência de sintomas de depressão e ansiedade entre os futuros médicos no país. Dos 1.026 universitários avaliados, 66% apresentaram sintomas depressivos de intensidade moderada a grave. Já 50,5% registraram sintomas de ansiedade de moderada a grave.
Os participantes estudavam em 74 instituições públicas e privadas de diferentes regiões do país e estavam distribuídos entre o primeiro e o sexto ano da graduação. A coleta de dados ocorreu entre setembro de 2023 e setembro de 2024.
Os resultados, publicados no Brazilian Journal of Psychiatry, chamam atenção não apenas pelos números, mas também pelo que aparece por trás deles: entre os fatores de estresse analisados, a falta de tempo ganhou destaque.
Falta de tempo aparece como importante fator de risco
A graduação em medicina é conhecida pela extensa carga de estudos, avaliações e atividades práticas. Quando tudo isso começa a ocupar praticamente todos os espaços da rotina, hábitos importantes para o bem-estar podem acabar ficando em segundo plano.
Por isso, a falta de tempo apareceu como o principal fator associado aos sintomas de depressão e ansiedade. Preocupações relacionadas à própria saúde, dificuldades de aprendizagem, relacionamentos e desempenho acadêmico também figuraram entre os fatores relevantes.
Sofrimento não deveria ser parte da profissão
Além da quantidade de tarefas, existe um aspecto cultural que preocupa os pesquisadores: a ideia de que passar por períodos de extremo desgaste seria quase uma etapa obrigatória para se tornar médico.
Para o psiquiatra Rodolfo Furlan Damiano, pesquisador do CISM e um dos responsáveis pelo trabalho, essa percepção pode ser transmitida entre diferentes gerações de estudantes e profissionais. "Infelizmente, isso faz parte do que a gente chama de currículo oculto, que é uma questão tacitamente passada de que sofrer faz parte, de que a falta de tempo faz parte. É passado de geração em geração."
O chamado currículo oculto não está necessariamente escrito nas disciplinas ou nas regras de uma universidade. Ele envolve valores, comportamentos e expectativas que circulam no ambiente acadêmico e acabam sendo aprendidos ao longo da formação.
Quando jornadas exaustivas, privação de sono e falta de tempo para a vida pessoal são encaradas como demonstrações de dedicação, procurar ajuda ou reconhecer os próprios limites pode se tornar ainda mais difícil.
Como os pesquisadores avaliaram depressão e ansiedade?
Um cuidado importante ao interpretar os resultados é entender que os pesquisadores avaliaram sintomas, e não realizaram diagnósticos psiquiátricos individuais nos participantes.
Para investigar sintomas depressivos, utilizaram o PHQ-9, questionário composto por nove perguntas que consideram manifestações ocorridas nas duas semanas anteriores. A pontuação permite classificar a intensidade dos sintomas em diferentes níveis. Já a ansiedade foi investigada pelo GAD-7, instrumento de sete perguntas utilizado para rastrear sintomas ansiosos e sua gravidade.
Portanto, os resultados não significam necessariamente que 66% dos estudantes tenham diagnóstico de transtorno depressivo ou que 50,5% tenham um transtorno de ansiedade. Ainda assim, a elevada presença de sintomas clinicamente relevantes sinaliza uma situação que merece atenção.
Ambiente da faculdade também faz diferença
A pesquisa não se limitou a observar características individuais. Os autores investigaram como os próprios estudantes percebiam o lugar onde estavam aprendendo. Isso inclui aspectos como relacionamento com professores, colaboração entre colegas, inclusão e clima acadêmico. E os resultados mostram que o contexto pode exercer um papel importante.
Colaboração entre pares, um clima acadêmico mais positivo, sensação de inclusão e aceitação, bom relacionamento com docentes, mentoria e envolvimento significativo com o curso apareceram associados a menor intensidade de sintomas. Em outras palavras, ter uma rede de apoio e estudar em um ambiente mais colaborativo pode funcionar como um fator de proteção.
O contrário também merece atenção. Um cotidiano marcado por competição excessiva, dificuldades acadêmicas e relações pouco acolhedoras pode acrescentar mais uma camada de pressão a uma graduação que já exige bastante dos alunos.
Universidades públicas e privadas apresentaram diferenças
Os pesquisadores também encontraram variações na maneira como os estudantes avaliavam suas instituições. De maneira geral, alunos de faculdades privadas apresentaram uma percepção mais positiva do ambiente de aprendizagem, principalmente em relação ao clima acadêmico e à interação com professores. Já entre estudantes de universidades públicas, o estresse relacionado a avaliações e notas apareceu com maior força.
Isso não significa, porém, que frequentar determinado tipo de instituição determine sozinho a saúde mental de um aluno. Os resultados apontam para um conjunto de fatores que se relacionam entre si.
Desigualdade também atravessa a experiência universitária
Outro ponto analisado foi a forma de ingresso na graduação. Inicialmente, estudantes cotistas apresentaram pontuações mais elevadas de sintomas depressivos e estresse acadêmico. Entretanto, essa associação desapareceu quando os pesquisadores consideraram aspectos como estresse e percepção do ambiente de aprendizagem.
"Não existe algo inerente a ser cotista que leve a uma pior saúde mental. O que acontece é que a percepção do ambiente de aprendizagem é pior, talvez porque seja mais estressante ou porque ele sofra mais discriminação. Quando controlamos [na pesquisa] esses fatores ambientais, o efeito de 'ser cotista' desaparece", explica Damiano, à Folha de S. Paulo.
A constatação é importante porque desloca o olhar do indivíduo para as condições que o cercam. Dificuldades financeiras, deslocamentos extensos, necessidade de conciliar outras responsabilidades e sensação de não pertencimento podem tornar uma formação já exigente ainda mais desgastante para determinados estudantes.
Formar médicos sem normalizar o adoecimento
Os números reforçam uma discussão que vai além de ensinar estudantes a administrar melhor suas agendas. Se fatores relacionados ao próprio ambiente acadêmico estão associados ao sofrimento, parte da prevenção também passa pelas instituições.
Fortalecer programas de mentoria e apoio psicológico, estimular relações mais colaborativas, combater discriminações e observar cargas acadêmicas excessivas são medidas que contribuem para uma formação mais saudável.
Também é fundamental abandonar a ideia de que exaustão é sinônimo de comprometimento. Dormir, praticar atividades físicas, cultivar relações, ter hobbies e simplesmente reservar momentos nos quais a faculdade não seja o centro da vida não são obstáculos para a formação profissional.
Para quem escolheu uma profissão dedicada ao cuidado, talvez exista uma lição que precise começar ainda na universidade: cuidar dos outros não deveria exigir abrir mão do próprio bem-estar.
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